08 de janeiro: qual é a questão fundamental?
O parlamento brasileiro está dominado pelos golpistas, não a toa que aprovaram a anistia para livrar elementos de sua base social que estão presos
Há três anos o Brasil viveu mais uma tentativa de golpe de Estado contra governos democráticos populares. Naquele momento havia somente oito dias do terceiro governo do presidente Lula, que derrotava pelo menos no terreno eleitoral o golpe de Estado de 2016 que tinha derrubado a presidenta Dilma Rousseff e o prendido em 2018 para viabilizar a fraude eleitoral que permitiu a chegada de Bolsonaro no Palácio do Planalto.
De 2023 em diante vimos uma atuação relevante do poder judiciário através do Supremo Tribunal Federal (STF) para punir participantes da tentativa de golpe de 08 de janeiro de 2023. No ano passado chegamos ao ápice dessa atuação com a prisão da cúpula golpista, entre eles o próprio Bolsonaro. Essa cúpula tinha inclusive o objetivo de assassinar o presidente Lula (PT), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e o ministro do STF, Alexandre de Moraes.
Essa situação é realmente significativa tendo em vista aquela constatação clichê de que o Brasil nunca puniu os golpistas, assassinos, torturadores e traidores da pátria que constituíram o regime político da Ditadura Militar de 1964. Mas ser significativo não quer dizer que seja suficiente. O inferno está cheio de gente com boas intenções.
O parlamento brasileiro está dominado pelos golpistas, não à toa que aprovaram a anistia para livrar elementos de sua base social que estão presos e suas lideranças. Mas essa questão ainda não é a fundamental.
A tentativa de golpe de 08 de janeiro, assim como em grande medida o golpe de 2016, foi coordenada pelas Forças Armadas. As Forças Armadas, assim como o conjunto da institucionalidade estatal, tem em sua essência uma dinâmica de funcionamento atrelada aos interesses estrangeiros, principalmente aos EUA.
Nesse sentido, o que quero dizer com isso é que nós podemos vencer no terreno eleitoral, podemos avançar com medidas jurídicas contra determinados golpistas, podemos avançar com alguns programas sociais de atendimento às necessidades fundamentais da classe trabalhadora. Porém, o fundamental da estrutura golpista, a engrenagem para a derrubada dos interesses nacionais e de governos democráticos populares, estará de pé e de prontidão para assim o fazer.
Neste momento essa estrutura tem atuado pelos flancos e não de maneira frontal, mas ela está apenas esperando um momento de debilidade para executar uma ofensiva contra o país. Quando esse momento chegar, os elementos sempre vacilantes da burguesia nacional que são, inclusive, subordinados ao imperialismo, não oscilarão em agrupar-se com os golpistas. A própria aprovação da anistia e os sinais de que o poder judiciário tem negociado para que exista redução nas penas, já mostram sinais disso.
O governo e as forças populares, de maneira geral, tem se equivocado em apostar somente na via institucional, com acordos entre os poderes e em uma razoável posição do governo no que diz respeito às pesquisas eleitorais.
O governo vinha, inclusive, num dado momento em 2025 em um processo de refluxo de sua popularidade, que somente teve uma virada de situação quando resolveu enfrentar o imperialismo norte-americano personificado no governo de Donald Trump (Republicanos) e o Congresso Nacional com sua agenda antipopular.
Nesse momento, ao invés de aproveitar o respaldo popular à sua agenda para levantar questões fundamentais que devem ser mudadas no país, como por exemplo, a necessidade de reformar as Forças Armadas e entre outras reformas estruturais como a política, enfrentando o debate público juntamente das organizações populares, o governo e as organizações populares canalizaram esse descontentamento do povo com os ataques do imperialismo e do Congresso Nacional para que houvesse uma resolução em âmbito institucional.
Por mais que esteja previsto o veto presidencial à anistia aos golpistas aprovada no Congresso Nacional, o combate ao golpismo neste 08 de janeiro de 2026 tem um caráter meramente performático porque o governo e as forças populares tem o receio de efetuar um enfrentamento concreto para atacar as questões fundamentais que podem verdadeiramente proteger o país dos golpes do imperialismo e de seus agentes internos.
Sem um verdadeiro processo de transformação do regime político do país através de um debate público que envolva as amplas massas populares, não há efetiva defesa da soberania nacional e combate aos golpistas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




