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Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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A América Latina no século XXI

Embora os Estados Unidos vivam seu maior isolamento na América Latina, do ponto de vista político, ainda assim conta com a influência ideológica e cultural

Presidente Lula discursou na abertura do Fórum Econômico Internacional – América Latina e Caribe 2026. (Foto: Ricardo Stuckert/Secom-PR)

A América Latina foi vítima de uma brutal ofensiva neoliberal na última década do século passado, uma década em que quase todos os países do continente se tornaram neoliberais.

Fomos vítimas do forte consenso neoliberal no plano global, da crítica do Estado, como gerador da inflação, da suposta necessidade de, como prioridade, passar a limpo as finanças públicas, sobretudo com cortes dos recursos para políticas sociais. 

Como reação, já na primeira década, proliferaram os governos com políticas antineoliberais. Políticas que privilegiam as políticas sociais ao invés do ajuste fiscal, o fortalecimento do Estado, ao invés do Estado mínimo.

Se projetava já um século latino-americano, de superação do neoliberalismo. Houve retrocessos, com golpes militares em países como o Brasil e a Bolívia, além da eleição de governos de direita em vários países.

Ao final do primeiro quarto do século, dois dos três países mais importantes na região – Brasil e México – colocam em prática políticas antineoliberais, tendo como resultado economias que se expandem, desemprego cada vez menor, governos com grande apoio popular.

Outros se somam a essa tendência, como a Colômbia e o Uruguai, enquanto a Argentina – o outro país dentre os mais importantes – apresenta uma situação econômica e social desastrosa, mesmo tendo conseguido conter a inflação, o que permitiu vitórias eleitorais de Javier Milei, que coloca em prática as políticas mais ortodoxamente neoliberais.

A eleição de um candidato neopinochetista no Chile rompe o isolamento de Milei que até ali só tinha aliados nos Estados Unidos e em Israel. Hoje conta com governos direitistas no Equador, em Honduras e no Chile.

A América Latina conta com o declínio da hegemonia norte-americana neste século e, também, com o fortalecimento e a extensão dos Brics, que reúne a força militar da Rússia, o poderio econômico e tecnológica da China, a capacidade de articulação política do Brasil e uma lista cada vez maior de países, incluídos petroleiros, anteriormente aliados dos Estados Unidos.

Embora os Estados Unidos vivam seu maior isolamento na América Latina, do ponto de vista político, ainda assim conta com a influência ideológica e cultural do “modo de vida norte-americano”, que tem nos shopping centers sua expressão mais significativa. O que faz com que as disputas no plano ideológico e cultural sejam decisivas para a América Latina pelo menos na primeira metade do século.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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