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Sara York

Sara Wagner York é jornalista, psicanalista, PhD em Educação, pós-doutora em Semiótica, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. Especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, é autora do primeiro trabalho sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido no mestrado em 2020. Tem um filho, é avó e foi a primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro, pela Brasil 247, tornando-se referência nacional nas discussões sobre mídia, educação e direitos humanos. É imortal da Academia de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro.

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A Catedral, o Iluminismo das trevas e Gray Mirror

Da teoria da “Catedral” ao avanço da Nova Direita, Yarvin inspira a erosão democrática e expõe autoritarismos sem disfarce já em curso no poder

A Catedral, o Iluminismo das trevas e Gray Mirror (Foto: Divulgação)
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Curtis Yarvin, o pseudônimo de fórum que virou padrinho filosófico da Nova Direita, propõe acabar com o voto e substituir o Estado por uma ditadura corporativa — e seus discípulos no poder, de J.D. Vance a Elon Musk, já testam o roteiro. O que Hannah Arendt, Chantal Mouffe e Levitsky & Ziblatt revelam é que o disfarce do autoritarismo, ao contrário do previsto, deixou de ser necessário — à direita declarada e em espaços que se dizem progressistas.

Em maio, Curtis Yarvin subiu ao palco do UnHerd Club, em Londres, apresentado como "o padrinho filosófico" da Nova Direita — um pseudônimo de fórum que, em quinze anos, virou vocabulário corrente em Washington e no Vale do Silício. O dado interessa menos como biografia do que como sintoma: o que revela sobre o estado dos freios institucionais que supostamente protegem as democracias de seus próprios líderes eleitos.

Sua tese central, "A Catedral", afirma que universidades, imprensa e burocracia formam um consenso ideológico que torna o voto cosmético — sempre há alguém pensando por nós, logo todo resultado eleitoral já nasce manipulado. Daí a proposta de "reinicializar" o Estado como empresa, com um CEO-soberano respondendo a "acionistas", não a cidadãos. Não ficou no papel: o programa RAGE (Retire All Government Employees) — demitir em bloco o funcionalismo e substituí-lo por quadros alinhados — funcionou como roteiro reconhecível do DOGE de Musk. Peter Thiel financiou sua antiga Urbit; J.D. Vance creditou a Yarvin a inspiração para demitir sumariamente burocratas federais e ignorar ordens judiciais que tentassem barrar isso. Em dezembro, ironicamente, o próprio Yarvin chamou o governo Trump de "tragédia" que "perdeu" — não por radicalismo demais, mas de menos: faltou converter a "energia do Rubicão" em mudança de regime antes que a euforia esfriasse. O fundador cobra dos discípulos mais demolição, não menos.

Três autores ajudam a nomear o que está em jogo.

Hannah Arendt distingue poder — o que surge quando pessoas agem em concerto, depende de consentimento — de violência, instrumental e mediada por comando. O CEO-soberano não concentra mais poder: substitui poder por violência administrativa fantasiada de eficiência. E sua descrição da destruição totalitária, precedida pelo isolamento dos indivíduos e pela eliminação do espaço público plural, explica por que os primeiros alvos do RAGE são universidades e ONGs — onde epistemologias minoritárias, inclusive trans, ainda têm algum território. O "direito a ter direitos" deixa de ser abstrato quando o aparato que os reconhece é o primeiro desmontado. Poder em Arendt que difere de Foucault e por isso, aciono Mouffe. Chantal Mouffe acrescenta uma torção irônica, sua crítica ao consenso pós-político soa, à primeira vista, parecida com a queixa de Yarvin contra a Catedral. Mas Mouffe defende o agonismo — manter o conflito vivo, adversários tratados como adversários, não inimigos. Yarvin não quer reabrir esse terreno, quer fechá-lo, substituindo política por administração, adversário por inimigo a ser "punido". Onde Mouffe pede mais pluralismo, ele propõe sua abolição.

Levitsky e Ziblatt, em How Democracies Die, descrevem democracias que morrem não de tanque na rua, mas de erosão gradual por líderes eleitos, rejeição das regras do jogo, deslegitimação do adversário, tolerância à violência, disposição para restringir imprensa e liberdades civis. O autoritarismo moderno costuma disfarçar essa intenção. Yarvin é atípico por dispensá-la — a deslegitimação do voto é tese explícita, pasmem, creditada por quem hoje é vice-presidente. Conhecemos bem esse movimento, no Brasil, a família Bolsonaro reclama das urnas e ratifica eleições fraudadas apenas quando perdem. 

Mas o disfarce não desapareceu, só migrou de endereço. Há quem negue legitimidade ao adversário e estreite as fronteiras da cidadania sem largar o vocabulário democrático, às vezes nem o feminista. Colegas que pregam direitos das mulheres apenas a partir de si e dos seus, decidindo quem conta como mulher ou como interlocutora legítima, praticam a mesma exclusão — só que sem o léxico de Yarvin, por isso mais difícil de apontar. Mesma arquitetura, decretar por dentro e fora da comunidade política e chamar isso de coerência em vez de exclusão. Para travestis e mulheres trans, o efeito é o mesmo transepistemicídio que a Catedral pratica em escala maior — muda o tamanho do palco e a roupa do disfarce.

O que mais inquieta não é nenhuma tese isolada de Yarvin, mas a velocidade com que um vocabulário de eliminação institucional deixou de soar extremo — abertamente à direita, veladamente em espaços que se dizem progressistas. A democracia que ele declara morta não precisa de golpe para sucumbir. Basta que seus guardiões, declarados ou disfarçados, continuem tratando a demolição como argumento digno de palco e aplauso — como, aliás, temos visto.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.