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Cândido Vaccarezza

Dr. Cândido Vaccarezza é um médico e político formado pela Universidade Federal da Bahia e atualmente mora em São Paulo. Ele tem especializações em ginecologia e obstetrícia, saúde pública e saúde coletiva. Durante a pandemia, foi diretor do Hospital Ignácio P Gouveia, referência para o tratamento de Covid na Zona Leste de São Paulo. Como político, ele participou da luta pela democracia no Brasil na década de 1970 e foi deputado estadual e federal pelo PT. Além disso, ele também foi líder na Câmara do Governo Lula e Dilma e secretário de esporte e cultura em Mauá. Reg

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A Cega Operação Épica de Trump

"O presidente Trump anuncia, todos os dias, que aniquilou o Irã, e, a cada dia, ele e o mundo são surpreendidos"

Capa da revista The Economist (Foto: Reprodução/X/@TheEconomist)

A revista britânica The Economist ironiza, de forma impensável para tempos idos, o presidente e a poderosa força militar dos EUA, apelidando a "Epic Fury" (Fúria Épica) de Blind Fury (Fúria Cega). A revista mostrou a falta de visão estratégica sobre o Oriente Médio e a forma imprudente como os EUA estão conduzindo o conflito com o Irã.

Em 17 de março, Joseph Kent deu publicidade, em carta oficial, ao seu pedido de demissão da chefia do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA (NCTC), "After much reflection, I have decided to resign from my position as Director of the National Counterterrorism Center, effective today(...)". Ele declara: "Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã. O Irã não representava nenhuma ameaça iminente a nossa nação, e é evidente que iniciamos essa guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano(...)". Kent, além do cargo importante que ocupava, trabalhou para a CIA e é ligado à extrema direita dos EUA, faz parte de um movimento patriótico americano e nunca teve ligação com árabes, nem com ideologias de esquerda de nenhum tipo. Restou a Trump acusá-lo de "fraco em segurança", sem justificar por que o convidara para o cargo, como, impropriamente, havia chamado de covardes vários países europeus que não estão o ajudando na guerra.

Até agora, enquanto escrevo, poderemos ter novidades a qualquer instante, ao que se sabe os efeitos da guerra são devastadores. No Irã, entre os civis, são mais de 18 mil feridos, mais de 1.500 mortos, sendo mais de 200 crianças; foram mortos parte significativa dos dirigentes militares, governantes e religiosos, incluindo o aiatolá Khamenei, substituído por seu filho o aiatolá Mojtaba Khamenei, o Secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Ali Larijani, considerado moderado e que vinha negociando acordos com o Ocidente e 20 integrantes do alto escalão do governo do país. Todos substituídos em tempo recorde, em geral, por figuras mais radicais. Do lado de Israel e dos EUA, são algumas dezenas de civis mortos, mais de 3 mil feridos e algumas dezenas de militares já perderam a vida. Ao estendermos para os demais países do Oriente Médio o quadro é devastador. Quando tratamos da infraestrutura da região, a tragédia é indescritível; os EUA destruíram boa parte da infraestrutura do Irã e os recentes bombardeios na Ilha de Kharg, a joia do petróleo, segundo Trump, só foram preservados, por enquanto, os oleodutos, que serão destruídos se a guerra continuar, por lá passa 90% do petróleo do Irã. Do lado americano e israelense a destruição é de grande proporção. Diferentemente do que anunciam, várias bases americanas foram abalroadas, todas as noites várias cidades de Israel são bombardeadas, e depois dos bombardeios contra Natanz, onde ficam as usinas de enriquecimento de urânio iranianas, o Irã atacou a cidade de Dimona, nas proximidades das instalações atômicas de Israel. A situação é muito grave e com a escalada de violências à vista, não é possível prever o futuro, principalmente se houver vazamento radioativo.

O presidente Trump anuncia, todos os dias, que aniquilou o Irã, e, a cada dia, ele e o mundo são surpreendidos. Recentemente o Irã lançou dois mísseis de longo alcance contra uma base britânica na Ilha de Diego Garcia, a mais de 3.500 km de distância do Irã. Antes, falava-se sobre a inexpugnabilidade da defesa aérea de Israel com suas multicamadas: o Domo de Ferro, a Funda de Davi, os Arrows 2 e 3, o C-Dome e o Iron Beam em desenvolvimento, foram todos furados; a cada noite o drama dos israelenses é grande, pelo medo das bombas e pelos toques das ensurdecedoras sirenes de alerta. Caíram por terra também, a proteção quase absoluta, pelas bases americanas, aos emergentes Dubai e Abu Dhabi nos Emirados Árabes e ao Catar, o que lhes garantia a segurança para os investimentos do mundo; essas bases foram bombardeadas e vivem em estado de expectativa, ninguém sabe o que virá.

O custo dessa guerra não se limita aos EUA, atinge o mundo, todos os países estão pagando um preço altíssimo, o barril de petróleo já subiu em torno de 50% desde o início da guerra e ninguém pode prever até quando continuará subindo; esta situação eleva as expectativas de aumento da inflação em todos os países, com repercussões negativas para além da economia; estamos vivendo um outro momento na geopolítica mundial. De certa forma, do ponto de vista econômico, até agora, os ganhadores são a Rússia, pois Trump desconsiderando as relações com a Europa, amenizou o bloqueio ao comércio do petróleo russo e a Venezuela que, segundo Trump, tem um governo amigo com a presidência da bolivariana história Delcy Rodriguez, e, seu petróleo pode mitigar a crise. Diga-se de passagem, que a vice de Maduro, o substituiu na presidência sem nenhuma base constitucional, além de os cálculos eleitorais da oposição apoiada pelos EUA, não reconheciam a vitória da chapa Maduro/Delcy e declaravam Edmundo González Urrutia como o presidente legítimo da Venezuela; depreende-se então que o problema era o controle do petróleo da Venezuela, não o resultado eleitoral ou o cartel da droga, agora a ditadura bolivariana é bem-vinda aos EUA.

A superioridade militar dos EUA é incontestável se comparada à de qualquer país do mundo. O Irã não tem a menor condição de enfrentar militarmente os americanos, porém, nesta guerra, a esperança de Israel e de Trump de derrubar o regime iraniano em dias e instalar um novo governo "amigo" sucumbiu; a estratégia da guerra assimétrica e de atrito adotada pelo Irã, tem prolongado o conflito e desgastado muito Israel e os próprios EUA. Trump, diante desse cenário, depois de ver frustrado o seu pedido de ajuda à China, ao Japão e à Europa, deu 48 horas a partir de 21 de março para o Irã liberar o Estreito de Ormuz. Vamos aguardar os desdobramentos.

Até agora, apesar de jactar-se como grande vitorioso, Trump tem enfrentado problemas reais de difícil superação, oscila entre invadir o território do Irã, ou, como querem alguns de seus apoiadores, contentar-se com a declaração de vitória e parar a guerra. As duas alternativas são complicadas e podem ter efeitos devastadores na sua imagem. A invasão do Irã é mais complexa do que a do Iraque; o Irã tem o dobro da população, tem mais desenvolvimento tecnológico e melhor capacidade militar que o Iraque; quanto a se retirar da guerra, não é fácil, pois a estratégia de Israel e do lobby israelense nos EUA é de levar a guerra até o fim e destruir o Irã, como Roma fez com Cartago. Em se tratando do comportamento de Trump tudo é possível, somente saberemos os desdobramentos nos próximos dias; o fato é que os EUA, desde a Segunda Guerra, nunca estiveram tão isolados e um país oriental de modelo socialista, como a China, nunca se relacionou com tanta desenvoltura.

Essa guerra já mexeu com a geopolítica mundial. A Europa não é mais a mesma, os BRICS não são mais os mesmos e o principal país do "Império Ocidental", os EUA não são mais os mesmos.

Quem viver verá!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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