A cegueira da Alemanha

Impedir a consolidação do poder nas mãos de um único país foi o principal objetivo dos arquitetos da União Europeia. Merkel terá a sabedoria para defender essa visão?

O blog publica texto de Bruce Ackerman, originalmente publicado no The New York Times:

Bruce Ackerman

(tradução do original – Germany’s Failure of Vision, The New York Times, 09/07/2015 – por Marcio Tenenbaum)

A crise grega representa o primeiro teste real da liderança alemã desde a 2ª Guerra Mundial. A chanceler Angela Merkel tem fracassado nesse intento, até o presente momento, com trágicas consequências para Europa.

Depois da queda do Muro de Berlim, a liderança europeia estava fortemente nas mãos da França. Com a Alemanha preocupada com a reunificação, Jacques Delors, então presidente da Comissão Europeia, foi a força motriz por trás do Tratado de Maastrich, que transformou o mercado comum em uma União Europeia mais poderosa. Com o nascimento do novo século, o ex-presidente francês Valéry Giscard d’Estaing, inspirado pela Convenção da Filadélfia de 1787, como presidente da convenção em Bruxelas, propôs uma constituição para aumentar o poder e legitimar a União Europeia. Mas os eleitores franceses (a maioria da população) rejeitaram essas iniciativas em 2005. Desde então, as elites europeias têm aumentado seu poder através de tratados e acordos que não necessitaram de ratificação popular.

Angela Merkel associou-se com o presidente Nicolas Sarkozy na liderança do projeto europeu. Mas a economia francesa declinou, e a fraqueza política do sucessor de Sarkozy, François Hollande, empurrou-a para o centro do palco.

Mesmo depois de uma década, sua inexperiência aparece. Para os iniciados, ela tem tratado a crise da dívida de forma limitada, como um problema econômico, recusando-se a considerar o papel da Grécia na defesa da Europa oriental contra o ressurgimento da Rússia. Essa recusa é impressionante, pois foi somente em fevereiro último que ela foi a Minsk, para negociar com o presidente Vladimir Putin o cessar fogo na Ucrânia. Os Estados Unidos estavam à margem, assustados com a questão da guerra e da paz sobre o continente.

É extremamente surpreendente que o presidente Obama tenha convocado Merkel para pedir-lhe flexibilidade na crise da dívida, dando importância crítica ao papel geoestratégico da Grécia na Otan. A questão vai bem mais longe do que o namoro do partido de esquerda Syriza com Putin, como um contrapeso aos tecnocratas europeus em Bruxelas, Strasburgo e Frankfurt. É muito importante para os interesses alemães manter a fronteira oriental da Europa o mais oriental possível. Os Estados Unidos já estão com uma sobrecarga no Oriente Médio e na Ásia Oriental. Se a Alemanha quiser realmente deter a Rússia, deve obter cooperação permanente da Grécia e outros aliados da Otan, como os países bálticos, que, em função da proximidade, estão potencialmente na linha de fogo. Mas, ao invés de ouvir Obama, Merkel preferiu o caminho da humilhação.

A tática de negociação do Syriza era imprevisível, mas não a convocação do referendo. Se o primeiro ministro Alexis Tsipras estava considerando recuar de suas mais importantes promessas de campanha, era correto consultar os eleitores nessa crucial mudança de rumo. Para estimular um resultado medíocre, Merkel deveria exortar o Banco Central Europeu a manter os bancos gregos abertos durante a campanha do referendo. Mas os Eurocratas fizeram o oposto, usando força bruta – impedindo o ingresso de dinheiro – para ressaltar a vulnerabilidade da economia grega para os eleitores. Além disso, o pacote do empréstimo havia expirado; desta forma, confusos, os eleitores não estavam muito certos do que, exatamente, estavam decidindo.

Neste momento, o Fundo Monetário Internacional optou por intervir de uma forma que poderia decisivamente alterar o debate. Na última quinta-feira, ofereceu o primeiro plano sério de longo alcance para a recuperação grega. Em troca de profundas reformas do governo Tsipras, o FMI tendia a oferecer a possibilidade de perdão de uma parte substancial da dívida grega e empréstimos emergenciais.

A mudança do FMI foi manchete na imprensa, considerando que era uma força líder por trás dos programas de austeridade nos últimos 5 anos. Com Tsipras dando vivas a angustiante reavaliação do FMI, uma resposta positiva de Merkel poderia ajudar a campanha do voto “sim”.

No entanto, Merkel, ao invés, deu ao FMI um tratamento silencioso, permitindo o Syriza convencer os gregos que um voto “não” era a única forma de obstruir a armadilha da austeridade. Eles rejeitaram a intimidação europeia.

Merkel não é uma observadora inocente dessa bagunça, mas ainda não é muito tarde para a chanceler desfazer seu erro. Como as negociações avançam na fase faça-ou-morra, ela poderia incentivar o FMI a intermediar o incremento dessa ácida disputa. O Fundo é a única instituição que tem conseguido credibilidade de ambos os lados. Seu plano de longo prazo sustenta a única estrutura séria que promete minimizar as perdas dos credores e maximizar as perspectivas gregas. Merkel deveria também exortar o Banco Central Europeu a renovar os fundos emergenciais de forma que as operações financeiras e bancárias pudessem ser retomadas.

Tal estratégia promete mais do que uma retomada econômica. Representa uma Alemanha que abra mão desse lugar de poder em que se colocou; a melhor esperança de evitar uma volta catastrófica como uma potência inquestionável sobre o continente. Impedir a consolidação de tal poder nas mãos de um único país (e na mão de um único líder) foi o principal objetivo dos arquitetos da União Europeia. Será que Merkel terá a coragem e a sabedoria para defender essa visão?

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