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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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A cozinha liberal foi tomada pela extrema direita

“O grande evento do liberalismo brasileiro já não é mais o mesmo”, escreve Moisés Mendes

Paulo Francis (Foto: Reprodução)

Esta foi a primeira frase de Paulo Francis, em  palestra no Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, no inverno de 1995: “Quem não aguenta o calor, que saia da cozinha”.

A plateia do Centro de Eventos São José, do Plaza São Rafael, divertiu-se com o jornalista. Ali estava um feroz liberal convertido, que um dia havia sido um esquerdista trotskista.

Quem não aguentasse o calor das reformas liberais e privatizantes, que deveriam ser levadas adiante a ferro e fogo pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, que buscasse outras peças da casa e outras turmas.

O liberalismo estava na onda. Francis fazia média com a plateia repetindo uma frase manjada, que teria sido dita pelo presidente americano Harry Truman quando ainda era senador, nos anos 40. Sentia-se à vontade na sala, na copa e na cozinha do maior evento liberal do Brasil. 

O Fórum, promovido pelo Instituto de Estudos Empresariais, reunia uma elite de jovens empresários e executivos. O IEE editava e distribuía livros de Ludwig von Mises e Friedrich Hayek entre seus associados.

Promovia debates com convidados em pequenas rodas de conversa e determinava que, depois dos 35 anos, o sócio deveria dar lugar a um outro jovem. 

Eram os menudos do neoliberalismo, liderados pelo cordial e estudioso William Ling. Acompanhavam os ajustes da Escola Austríaca ao que pregavam e faziam os Chicago Boys e os ensinamentos e as ações de Margaret Thatcher.

O Fórum da Liberdade que trouxe Francis trazia Mário Henrique Simonsen, Roberto Campos, Vargas Llosa, Pedro Malan, Frei Betto, Aloizio Mercadante, Paulo Renato Souza, Eduardo Mascarenhas, Jorge Caldeira, liberais americanos e até o ex-guerrilheiro José Genoino. 

Era evangelizador, mas ouvia os discordantes. Esse ano, o tema do encontro, que acontece nessa quinta (dia 9) e na sexta-feira na PUC, é “O Brasil tem jeito”. Uma das estrelas defensoras das liberdades será Luciano Hang, o véio da Havan, que irá receber o Prêmio Libertas.

É uma distinção, diz o programa do evento, “concedida a indivíduos que simbolizam a livre iniciativa e a economia de mercado”. O IEE diz mais: “A organização destacou sua trajetória como empreendedor e sua atuação pública na defesa da desburocratização e da liberdade econômica”.

E completa: “Se queremos prosperar, o jeito característico do brasileiro – criativo e resiliente – precisa ser usado para empreender e criar. Não para transgredir ou enganar”.

Francis morreu em 1997, Roberto Campos em 2001. Quase todos os grandes liberais daquele tempo já se foram, de Simonsen a Vargas Llosa. Não tiveram o desgosto de saber que a Faria Lima das fintechs virou sócia do PCC.

Quem ainda procura liberais equivalentes hoje e acha que eles poderão ser encontrados na edição desse ano do Fórum da Liberdade, vai se frustrar.

Quem procurar essa semana em Porto Alegre um liberal que tenha lido Von Mises e Hayek, vai encontrar o véio da Havan, Aldo Rebelo, Luiz Felipe Pondé, Romeu Zema, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e a líder indígena e influencer bolsonarista Ysani Kalapalo. 

Quem procurar o equivalente de Simonsen encontrará Paulo Guedes. O historiador Jorge Caldeira retorna ao evento e estará perdido entre eles nos jardins e corredores da PUC.

A cozinha liberal brasileira, engolida pelo bolsonarismo, hoje faz de comidinhas a banquetes com receitas apimentadas na chapa quente da extrema direita. Quem vai encarar esse calorão?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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