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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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Uma família aterroriza metade do país

“O projeto dos Bolsonaros, depois das derrotas na eleição e no golpe, desafia quem duvidava da volta do terror da extrema direita”, escreve Moisés Mendes

Flávio, Carlos, Jair, Eduardo e Jair Renan Bolsonaro (Foto: Reprodução/X/@BolsonaroSP)

O Brasil esparrama pelo tronco e pelos galhos da sua jabuticabeira política os frutos de uma situação única no mundo em qualquer tempo. No cenário perfeito imaginado pela extrema direita, os Bolsonaros elegeriam um filho do clã como presidente da República.

A mulher do chefe da família seria eleita senadora por Brasília. Outro filho se transformaria em senador por Santa Catarina e o filho caçula seria deputado federal pelo mesmo Estado.

Com esse combo, um filho que fugiu para os Estados Unidos retornaria ao Brasil. E o chefão presidiário, que cumpre pena em casa, seria anistiado por uma maioria avassaladora da velha direita e do novo fascismo no Congresso.

Não há nada parecido na história dos povos em momento algum, em lugar algum, em democracias, mas só, em outras circunstâncias, em períodos de domínio absoluto de tiranos. Nunca uma família teve tantos tentáculos de poder em tantas instâncias, com a legitimidade do voto. 

O consolo é que temos até o momento, como fatos antecipadamente garantidos para os Bolsonaros, apenas a eleição de Michelle e a possível consagração de Jair Renan como deputado federal por Santa Catarina. O resto é incógnita.

Flávio pode perder e ficar sem mandato. Carluxo corre o risco de ser derrotado pela reação catarinense à imposição do seu nome pelo pai. Eduardo sabe que poderá ser condenado a ficar para sempre nos Estados Unidos. E Bolsonaro talvez volte para a cadeia. Tudo isso se a maior parte do plano não der certo em outubro.

O que temos é que o Brasil está de novo sob a ameaça dos Bolsonaros, com uma certeza em meio a tantas dúvidas: o retorno da família ao poder significará para pelo menos metade da população o que o segundo mandato de Trump significou para os Estados Unidos e para o mundo.

Todos os cenários imaginados por quem se dedica a vislumbrar futuros sombrios serão incapazes de antecipar o que poderemos enfrentar com a confirmação dos planos da família.

Estamos diante das incertezas de 2019 a 2022, mas desta vez com a perspectiva de multiplicação de perseguições, crueldades, ódios e violências em relação ao mandato do criminoso agora preso em casa.

A pergunta mais elementar, entre tantas, que todos poderiam fazer é: como o Brasil irá reagir ao poder da família, se eles conseguirem legitimar, com todos os truques da política, o controle absoluto das vidas dos que hoje trabalham contra a concretização desse futuro aterrorizante.

Os Bolsonaro são um caso único em que, pela retórica da negação da política e do ‘sistema’, uma família se apropria de todos os espaços da política, mamando no sistema e pregando a sabotagem desse mesmo sistema.

A democracia nunca se preparou para nada parecido. E talvez não saiba como reagir à aposta que está sendo feita pelo pai, pelos filhos, pela madrasta e pelos que os cercam. A família se dedica com afinco ao projeto de voltar ao poder depois de perder uma eleição e de um golpe fracassado.

Os Bolsonaros são um casal e os quatro filhos com poder suficiente para atormentar, com o país dividido bem ao meio, mais de 107 milhões de pessoas que temem o que eles podem fazer. 

A outra metade aposta que eles poderão fazer muito mais do que já fizeram. A persistência da família, já sem suporte de uma estrutura militar esfacelada, é uma virtude que o fascismo esfrega na cara das esquerdas. 

Daqui a sete meses teremos que decidir sobre o que será preciso fazer, do que está sendo pensado por cada um de nós, não para resistir, mas para que num primeiro momento continuemos vivendo.

 

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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