A crise de Cuba num mundo fragmentado e hostil
Cuba apostou, por décadas, em um mundo que permitia zonas de exceção, equilíbrios geopolíticos e alguma margem de manobra. Esse mundo deixou de existir
Desde 1959, Cuba construiu seu percurso econômico sob condições absolutamente excepcionais. A Revolução Cubana rompeu com a condição neocolonial da ilha, universalizou direitos sociais e desafiou diretamente a hegemonia dos Estados Unidos no Caribe. Em resposta, foi submetida a um bloqueio econômico contínuo, reforçado ao longo de mais de seis décadas, que limitou estruturalmente seu acesso a comércio, financiamento e tecnologia. Durante a Guerra Fria, a inserção no campo socialista funcionou como amortecedor externo; após o colapso da União Soviética, Cuba sobreviveu ao chamado "Período Especial" à custa de forte compressão material.
A crise atual é herdeira direta dessa trajetória: não nasce de um fracasso repentino, mas da persistência de um cerco histórico combinado à exaustão de arranjos que já não encontram respaldo no mundo de hoje - um sistema internacional adverso que já não oferece as brechas que, em outros momentos históricos, permitiram à ilha sobreviver sob condições adversas. Não se está diante de um colapso súbito, mas de um processo prolongado de exaustão econômica e social.
O cotidiano como indicador macroeconômico
Apagões prolongados, escassez recorrente de alimentos e medicamentos, inflação elevada em moeda nacional, dolarização informal do consumo e um fluxo migratório crescente — sobretudo entre jovens e trabalhadores qualificados — não são apenas sintomas sociais. São indicadores macroeconômicos claros de um estrangulamento profundo do balanço de pagamentos e da capacidade operacional do Estado cubano.
A energia tornou-se o principal gargalo da economia. A dependência de combustíveis importados, associada às dificuldades de acesso a financiamento, seguros e logística internacionais, compromete a geração elétrica e afeta toda a cadeia produtiva. O efeito multiplicador é negativo: menos energia significa menos produção, menor oferta de bens e serviços, maior pressão inflacionária e deterioração acelerada do poder de compra da população.
O bloqueio como estrutura, não como retórica
O bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos não é um resíduo simbólico da Guerra Fria. Ele opera, ainda hoje, como mecanismo estrutural de restrição externa, com impactos diretos sobre crédito, pagamentos internacionais, transporte, seguros e acesso a insumos estratégicos. Seu caráter extraterritorial penaliza terceiros países e empresas, elevando custos e riscos de qualquer transação com Cuba.
O endurecimento das sanções, iniciado durante o primeiro mandato como presidente dos Estados Unidos de Donald Trump, não foi revertido de forma substantiva nos anos seguintes e voltou a ser mobilizado como instrumento explícito de pressão política. O resultado é uma economia forçada a operar permanentemente abaixo de sua capacidade potencial, independentemente dos esforços internos de ajuste ou reorganização.
O fim da âncora venezuelana
Por mais de uma década, a relação com a Venezuela funcionou como amortecedor externo para Cuba, especialmente por meio do fornecimento energético em condições favoráveis e de alguma previsibilidade no fluxo de divisas. O colapso dessa âncora expôs de forma abrupta a vulnerabilidade estrutural da economia cubana.
A substituição dessa fonte de apoio não ocorreu — nem poderia ocorrer — na mesma escala e velocidade. O turismo, outro pilar fundamental da geração de divisas, não retornou aos níveis pré-pandemia, afetado por restrições financeiras, problemas energéticos internos e um ambiente geopolítico adverso. Cuba enfrenta, assim, uma combinação clássica e severa: queda de receitas externas e aumento do custo das importações essenciais.
Reformas internas e seus limites objetivos
O governo de Miguel Díaz-Canel — atual presidente de Cuba, no cargo desde 2018; primeira liderança pós-Revolução de 1959 que não pertence à geração histórica comandada por Fidel e Raúl Castro — tem buscado avançar em reformas graduais: ampliação limitada do setor privado, ajustes monetários e tentativas de reorganização produtiva. Essas mudanças, contudo, ocorrem sob condições extremamente restritivas. Sem acesso regular a financiamento externo, com escassez crônica de insumos e sob crescente pressão social, o espaço para políticas contracíclicas é praticamente inexistente.
Há um dilema central que atravessa toda a estratégia econômica: como reformar sem romper. A preservação de conquistas sociais históricas — saúde, educação, proteção básica — exige recursos fiscais e externos que a economia hoje mal consegue gerar. O resultado é uma tensão permanente entre estabilidade social e viabilidade econômica.
A dimensão geracional tornou-se decisiva. A juventude cubana não vive a memória da Revolução nem o contexto bipolar que sustentou a resiliência do passado. Vive a urgência do presente: salários insuficientes, consumo restrito, perspectivas limitadas de mobilidade econômica. A emigração passa a ser, para muitos, uma estratégia econômica racional, e não uma escolha ideológica.
Essa dinâmica aprofunda o esvaziamento de capacidades produtivas e sociais, retroalimentando o ciclo de estagnação e reduzindo a capacidade econômica e organizativa do país.
Uma América Latina dividida e incapaz de oferecer amparo regional
A crise cubana se agrava porque ocorre em uma América Latina politicamente fragmentada, economicamente desarticulada e estrategicamente hesitante. Diferentemente de outros momentos históricos, Cuba hoje não dispõe de um entorno regional capaz de funcionar como rede de proteção econômica, energética ou diplomática.
A região encontra-se profundamente dividida.
Essa fragmentação regional se expressa, de forma bastante concreta, na coexistência de dois blocos políticos distintos. De um lado, um grupo de governos progressistas ou de centro-esquerda — como Brasil, México, Colômbia, Chile, Bolívia e Honduras — que mantêm relações diplomáticas com Cuba e rejeitam formalmente o bloqueio, mas operam com agendas defensivas, baixa coordenação econômica e limitada disposição para assumir custos políticos ou financeiros em nome de uma estratégia regional comum. De outro, governos conservadores e liberais — Argentina, El Salvador, Equador, Paraguai e Uruguai — que, por alinhamento ideológico, dependência estrutural ou pragmatismo comercial, acabam por reforçar, ativa ou passivamente, o isolamento de Cuba, em consonância com a política externa dos Estados Unidos.
O resultado é um vazio político regional, marcado pelo silêncio diplomático ou pela neutralidade passiva.
Mecanismos como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) que poderiam atuar como espaços de articulação coletiva frente ao bloqueio, operam muito aquém de seu potencial. Falta coordenação econômica, instrumentos financeiros regionais, políticas energéticas compartilhadas e, sobretudo, vontade política de enfrentar o caráter extraterritorial das sanções.
O bloqueio torna-se mais eficaz justamente porque não encontra resistência regional organizada.
China e Rússia: apoio político relevante, limites econômicos claros
No atual contexto internacional, Cuba mantém relações estratégicas com China e Rússia, que oferecem respaldo diplomático importante contra o bloqueio e alguma cooperação econômica em áreas específicas, como energia, infraestrutura e crédito pontual. Esse apoio, no entanto, não substitui a integração ampla a mercados, cadeias produtivas e sistemas financeiros globais, nem se traduz em um colchão externo capaz de sustentar, sozinho, a economia cubana. Tanto China quanto Rússia operam segundo seus próprios interesses estratégicos, em um sistema internacional altamente competitivo, e não assumem — nem podem assumir — o papel de garantidores estruturais de uma economia sob bloqueio permanente. A aposta em parceiros extra-regionais, embora necessária, revela também os limites de uma estratégia de sobrevivência baseada exclusivamente em alianças geopolíticas, sem respaldo regional consistente.
Em um mundo menos hospitaleiro Cuba resiste
Nem mesmo a ampliação do BRICS oferece, no curto prazo, uma saída automática para economias submetidas a bloqueio direto e permanente.
Cuba apostou, por décadas, em um mundo que permitia zonas de exceção, equilíbrios geopolíticos e alguma margem de manobra. Esse mundo deixou de existir.
A situação cubana não pode ser reduzida a um problema doméstico nem a uma simples disputa bilateral com os Estados Unidos. Ela expressa a convergência entre cerco externo permanente, limites internos de geração de divisas e produtividade, e o fracasso regional latino-americano em construir mecanismos de autonomia econômica e diplomática.
Defender Cuba continua sendo uma posição ética diante de um bloqueio que viola princípios elementares do direito internacional. Mas uma defesa eficaz exige abandonar a retórica vazia e enfrentar o núcleo econômico do problema. Sem integração regional concreta, sem instrumentos financeiros próprios e sem coordenação produtiva, nenhum país pequeno resiste indefinidamente ao estrangulamento externo.
Cuba resiste. Mas resiste hoje mais isolada do que em qualquer outro momento de sua história recente. Vítima da pressão imperial direta e da ascensão de uma extrema direita, na América Latina, que naturaliza o isolamento e legitima a coerção externa como método de governo.
É nesse cruzamento entre bloqueio, impasses internos e fragmentação regional que se encontra o núcleo da crise cubana em 2026.
Nem o apoio de parceiros estratégicos extra-regionais, como China e Rússia, nem a retórica de resistência bastam para compensar o isolamento regional e o estrangulamento externo prolongado.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



