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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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A irresponsabilidade de Tarcísio: quando a crise venezuelana vira palanque eleitoral no Brasil

Tarcísio não se coloca como estadista em formação, mas como um político disposto a explorar qualquer crise

Tarcísio de Freitas (Foto: Pablo Jacob /Governo do Estado de SP)

A crise política e institucional vivida pela Venezuela é grave, complexa e trágica. Envolve denúncias consistentes de autoritarismo, repressão, esvaziamento de instâncias democráticas, deterioração econômica profunda e sofrimento social prolongado. Justamente por isso, exige seriedade analítica, responsabilidade política e compromisso com os fatos. Tudo o que faltou à recente declaração do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Ao afirmar que Nicolás Maduro permanece no poder “porque houve conivência, omissão e até apoio explícito de quem insistiu em chamar um ditador de ‘companheiro’”, Tarcísio não apenas simplifica de forma grosseira uma crise internacional complexa, como promove uma associação deliberadamente enganosa entre o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o atual governo venezuelano.

O vídeo divulgado pelo governador, ao exibir imagens de Lula ao lado de Nicolás Maduro durante a visita oficial de 2023, não deixa dúvidas: trata-se de uma mensagem política cuidadosamente construída, cujo objetivo não é esclarecer, mas culpabilizar.

Diplomacia não é endosso — e governar exige mais do que slogans - A aproximação diplomática do Brasil com a Venezuela, retomada em 2023, ocorreu dentro de parâmetros clássicos da política externa brasileira: reconstrução de canais institucionais, mediação regional, busca de estabilidade e incentivo a soluções negociadas. Em nenhum momento o governo brasileiro endossou práticas autoritárias, tampouco legitimou violações de direitos humanos.

Confundir diplomacia com cumplicidade é má-fé política — ou ignorância funcional. Relações entre Estados não se dão por afinidades pessoais, mas por interesses estratégicos, responsabilidade regional e compromisso com a paz. O Brasil não “mantém Maduro no poder”. Quem sustenta ou fragiliza governos são dinâmicas internas, forças sociais, instituições, sanções internacionais e correlações de poder domésticas.

A fala de Tarcísio ignora deliberadamente esses elementos para construir uma narrativa simples, emocional e eleitoralmente conveniente.

O uso eleitoral do sofrimento alheio - Mais grave ainda é a instrumentalização da tragédia venezuelana para fins de política interna brasileira. Ao reduzir um colapso social e institucional a um ataque indireto a Lula, o governador de São Paulo transforma o drama de milhões de pessoas em peça de marketing político.

Esse tipo de discurso não contribui em nada para:

  • a defesa da democracia na Venezuela;
  • a proteção dos direitos humanos;
  • a construção de soluções regionais;
  • o fortalecimento das instituições latino-americanas.

Contribui, sim, para o rebaixamento do debate público, para a polarização vazia e para a disseminação de desinformação.

Um projeto de poder que preocupa - Não é irrelevante que Tarcísio de Freitas seja tratado como o principal nome da direita para a Presidência da República nas eleições que se aproximam. Suas declarações revelam um traço preocupante: a disposição de simplificar conflitos complexos, reagir com slogans ideológicos e atacar adversários internos mesmo à custa da política externa brasileira.

Governar um país do tamanho e da complexidade do Brasil exige:

  • responsabilidade internacional;
  • respeito à diplomacia profissional;
  • compreensão mínima da geopolítica regional;
  • e compromisso com a verdade factual.

Nada disso aparece em sua fala.

Entre o oportunismo e a imprudência - Ao minimizar de forma irresponsável a gravidade da crise venezuelana e transformá-la em arma retórica contra o presidente brasileiro, Tarcísio não se coloca como estadista em formação, mas como um político disposto a explorar qualquer crise — inclusive externa — para consumo interno.

Isso não fortalece a democracia brasileira. Não ajuda o povo venezuelano. Não qualifica o debate público.

Apenas revela um projeto de poder raso, ideológico e perigoso, incapaz de lidar com a complexidade do mundo real.

E é exatamente por isso que esse episódio merece crítica dura, clara e sem ambiguidades.

O comportamento de Tarcísio de Freitas segue um padrão recorrente: declarações simplificadoras, agressivas ou factualmente problemáticas, quase sempre alinhadas ao núcleo ideológico do bolsonarismo, mesmo quando isso implica vulgarizar temas graves, nacionais ou internacionais.

Abaixo, relembro algumas das principais ocasiões. É um verdadeiro histórico de vulgarização política

i. A tentativa de reescrever o 8 de janeiro

Logo após os ataques golpistas às sedes dos Três Poderes, em janeiro de 2023, Tarcísio adotou um discurso ambíguo e minimizador, evitando caracterizar o episódio como tentativa de golpe. Em várias falas públicas, preferiu expressões vagas, apostando na narrativa de “excessos” ou “descontrole”, em sintonia com o esforço do bolsonarismo de diluir responsabilidades políticas.

Enquanto governadores e líderes institucionais tratavam o episódio como um ataque frontal à democracia, Tarcísio escolheu o caminho do silêncio estratégico e da relativização — postura incompatível com quem se apresenta como liderança nacional.

ii. O ataque reiterado às urnas e à Justiça Eleitoral

Mesmo após a derrota de Jair Bolsonaro, Tarcísio jamais fez uma defesa enfática e inequívoca do sistema eleitoral brasileiro. Em diversas ocasiões, reproduziu — ainda que de forma indireta — o discurso de “desconfiança” sobre as urnas eletrônicas, um dos pilares da retórica golpista.

Essa postura não é neutra: ela normaliza a suspeição permanente sobre instituições democráticas, alimentando um clima de instabilidade política e descrédito institucional.

iii. A retórica agressiva contra movimentos sociais

Outro traço recorrente é o uso de uma linguagem criminalizante ao se referir a movimentos sociais, sindicatos e organizações populares. Em mais de uma ocasião, Tarcísio tratou protestos como problemas de “ordem pública”, evitando reconhecer seu caráter político e social.

Essa abordagem reduz conflitos estruturais — desigualdade, moradia, transporte, trabalho — a casos de polícia, empobrecendo o debate e reforçando uma visão autoritária do papel do Estado.

iv. O alinhamento automático a Bolsonaro — mesmo após o colapso político

Mesmo depois da derrota eleitoral e do isolamento internacional de Jair Bolsonaro, Tarcísio seguiu atuando como herdeiro político direto, adotando seus códigos discursivos:

  • linguagem beligerante,
  • simplificação extrema de temas complexos,
  • construção constante de inimigos internos,
  • e uso sistemático de desinformação emocional.

O episódio mais recente envolvendo a Venezuela se encaixa perfeitamente nesse padrão: culpar Lula, explorar imagens fora de contexto e reduzir uma crise internacional a um ataque doméstico.

v. A política externa tratada como meme

A fala sobre a Venezuela talvez seja o exemplo mais explícito de vulgarização da política externa. Ao transformar diplomacia em “companheirismo ideológico”, Tarcísio revela desconhecimento — ou desprezo — pelos princípios básicos das relações internacionais.

Não se trata de discordar do governo venezuelano. Trata-se de confundir análise com provocação, diplomacia com slogan, tragédia social com peça de campanha.

Um padrão, não um desvio - Quando se observam esses episódios em conjunto, fica claro que não estamos diante de lapsos ocasionais, mas de um modo de operar politicamente. Tarcísio construiu sua projeção nacional não como gestor ponderado, mas como porta-voz “civilizado” de um projeto radical, que apenas trocou o tom explícito pela insinuação calculada.

Isso é especialmente preocupante porque:

  • ele governa o estado mais rico do país;
  • é tratado como presidenciável;
  • e se apresenta como alternativa “moderada” da direita.

Os fatos, porém, mostram outra coisa.

A vulgaridade como método - O que se repete nas falas de Tarcísio não é apenas conservadorismo. É a vulgarização da política:

  • reduzir temas complexos a frases de efeito;
  • usar crises reais como munição eleitoral;
  • atacar instituições por conveniência;
  • e substituir responsabilidade por retórica.

A crise venezuelana apenas expôs, de forma mais nítida, um traço que já estava lá.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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