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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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Depois da Venezuela, Cuba: a lógica perigosa do dominó imperial

O segundo mandato de Trump não inaugura a hostilidade contra Cuba; ele a desnuda

Donald Trump em 3 de janeiro de 2026 (Foto: REUTERS/Jonathan Ernst)

O que se ouviu de Washington nos últimos dias não foi apenas retórica inflamada. Foi doutrina. Ao afirmar que Cuba estaria “pronta para cair” logo após a captura de Nicolás Maduro, Donald Trump explicitou, sem rodeios, uma lógica antiga e sempre devastadora: a de que a América Latina e o Caribe podem ser reorganizados por efeito dominó, conforme os interesses estratégicos dos Estados Unidos.

Essa lógica não nasce agora. Ela atravessa décadas, e é justamente por isso que o momento atual inspira tanta preocupação.

Onde tudo começou: petróleo, revolução e sobrevivência - A parceria entre Venezuela e Cuba se consolida no final dos anos 1990, com a chegada de Hugo Chávez ao poder. Para Havana, ainda traumatizada pelo “Período Especial” que se seguiu ao colapso da União Soviética, o petróleo venezuelano era condição material de sobrevivência econômica e social. Para Caracas, Cuba oferecia quadros técnicos, médicos, assessoria política e cooperação em áreas sensíveis do Estado.

Esse arranjo, frequentemente caricaturado por Washington como conspiração ideológica, foi na prática uma tentativa de construir autonomia regional fora da órbita norte-americana — algo que os Estados Unidos jamais toleraram plenamente desde a Revolução Cubana de Fidel Castro. A Revolução Cubana ocorreu entre 1953 e 1959, culminando em 1º de janeiro de 1959, quando o ditador Fulgencio Batista fugiu do país e as forças revolucionárias lideradas por Fidel Castro tomaram o poder em Havana.

Desde então, sanções, bloqueios, isolamento financeiro e diplomático passaram a operar não como exceção, mas como instrumentos permanentes da política externa norte-americana.

A Cuba de hoje: crise, transição e cerco - É nesse contexto que governa Miguel Díaz-Canel, o primeiro presidente cubano fora da geração histórica da revolução. Seu governo enfrenta simultaneamente escassez energética crônica, deterioração dos serviços públicos, emigração em massa e o recrudescimento da pressão externa. Díaz-Canel governa sem o capital simbólico de Fidel ou de Raúl Castro, mas sob o peso de uma transição política e econômica incompleta, que limita a velocidade e a profundidade de reformas internas.

Raúl Castro, mesmo afastado formalmente do poder, segue como referência institucional e histórica. A dificuldade de transição entre gerações ajuda a explicar a rigidez do sistema político cubano — rigidez que, sob cerco externo, tende a se intensificar, não a se dissipar.

Trump não improvisa: ele radicaliza - O segundo mandato de Trump não inaugura a hostilidade contra Cuba; ele a desnuda. Ao abandonar qualquer verniz diplomático, Trump fala a linguagem direta da coerção: quem cair, caiu; quem resistir, será estrangulado economicamente.

A centralidade de Marco Rubio na política externa não é detalhe. Rubio sempre defendeu que o colapso venezuelano deveria ser usado como arma indireta contra Cuba. Quando Trump afirma que “Cuba agora não tem renda”, não está fazendo análise econômica: está celebrando o sofrimento social como método político.

A ligação de Marco Rubio com Cuba é pessoal, ideológica e profundamente política. Filho de imigrantes cubanos que deixaram a ilha após a Revolução de 1959, Rubio construiu toda a sua trajetória pública nos Estados Unidos ancorado na retórica do exílio anticastrista mais duro da Flórida. Desde seus primeiros mandatos no Congresso, fez de Cuba um eixo central de sua identidade política, defendendo o endurecimento do bloqueio, o isolamento diplomático total de Havana e a rejeição explícita de qualquer tentativa de diálogo ou normalização como a promovida no governo Obama. 

Para Rubio, Cuba não é apenas um tema de política externa, mas um símbolo mobilizador interno, capaz de articular sua base eleitoral, sua ascensão dentro do Partido Republicano e sua projeção nacional. Essa combinação de memória familiar, cálculo eleitoral e visão ideológica ajuda a explicar por que ele vê o colapso econômico cubano não como tragédia humanitária, mas como instrumento legítimo de mudança política, mesmo ao custo de instabilidade regional e sofrimento social prolongado. É algo doentio — raivoso. 

O bloqueio ao petróleo, o cerco financeiro e a pressão sobre países fornecedores não têm como objetivo reformas em Havana. Têm como objetivo a asfixia social.

O erro histórico de Washington - Cuba vive, de fato, uma crise profunda — econômica, energética, social e demográfica. Apagões, escassez de alimentos e medicamentos, deterioração do sistema de saúde e migração em massa são realidades inegáveis. Mas Washington reincide em um erro histórico: confundir fadiga social com disposição para aceitar uma mudança imposta de fora.

Mesmo setores críticos ao regime rejeitam a ideia de tutela externa. A memória do bloqueio, das tentativas de invasão e da humilhação nacional segue viva. A coerção externa tende menos a produzir “transição democrática” e mais a endurecer estruturas internas, bloqueando reformas que poderiam surgir de dentro.

Cuba não é a Venezuela - Há aqui um ponto decisivo. Cuba não é a Venezuela. Não tem petróleo. Não tem uma elite econômica organicamente ligada a Washington. Não dispõe de um sistema político híbrido facilmente negociável. Trata-se de um Estado de partido único, com forte identidade nacional e institucional.

Se Cuba colapsar, não haverá “governo alternativo” pronto para assumir. Haverá caos social, migração em massa e instabilidade regional, a apenas 145 quilômetros da costa dos Estados Unidos.

É por isso que o alerta feito por Bruno Rodríguez Parrilla na CELAC não pode ser tratado como retórica diplomática. Trata-se de um chamado de emergência: a escalada norte-americana ameaça toda a região, não apenas Havana.

Normalizar o impensável - Talvez o aspecto mais grave deste momento seja a normalização do impensável. Falar abertamente em “queda” de países soberanos, em colapso induzido, em punição coletiva como ferramenta legítima de política externa corrói os fundamentos do direito internacional e reintroduz uma lógica pré-Westfália, em que a força substitui regras.

No período anterior aos Tratados de Westfália (1648), as relações entre Estados eram marcadas pela ausência de soberania reconhecida, pela intervenção direta dos mais fortes sobre os mais fracos, por guerras de conquista, punições coletivas e pela ideia de que o poder — militar, religioso ou dinástico — legitimava a dominação. Não havia um princípio estável de não-intervenção nem respeito à integridade territorial. Trump trás de volta esse período sombrio da história. Volta a insegurança, a barbárie nas relações entre os povos.

Se a Venezuela foi o laboratório, Cuba surge agora como o teste dos limites.

A pergunta que se impõe não é se Cuba “vai cair”. A pergunta, muito mais inquietante, é outra: quantos países ainda precisarão ser empurrados ao abismo para que Washington tente reafirmar uma autoridade que já não possui?

E, sobretudo: quem será o próximo depois de Cuba?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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