Venezuela como laboratório do caos e a nova geopolítica da força
O fato de o país possuir as maiores reservas de petróleo do mundo e manter parcerias estratégicas com China e Rússia não é um detalhe
O que ocorreu na Venezuela na madrugada de 3 de janeiro de 2026 não pode ser tratado como mais um capítulo da longa crise política e econômica do país, nem como uma simples “operação antinarcóticos”, como tenta enquadrar a Casa Branca. A captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, por forças dos Estados Unidos, em território venezuelano, representa algo qualitativamente distinto: o sequestro de um chefe de Estado em exercício por uma potência estrangeira. Trata-se de um divisor de águas na ordem internacional contemporânea e, de forma ainda mais sensível, na história recente da América Latina.
Ao agir dessa forma, o governo de Donald Trump rompe não apenas com décadas de retórica diplomática, mas com pilares básicos do direito internacional, abrindo um precedente que transcende a Venezuela e se projeta diretamente sobre a reorganização do sistema mundial em curso.
Da retórica jurídica à política do fato consumado - Washington procura justificar a operação com base em acusações antigas de narcotráfico e terrorismo formuladas por tribunais norte-americanos. O problema central é que não existe base jurídica internacional que autorize a captura de um presidente em exercício de um Estado soberano sem mandato multilateral, sem decisão do Conselho de Segurança da ONU e sem qualquer mecanismo reconhecido de cooperação judicial.
O que se observa, portanto, é a substituição deliberada da ordem internacional baseada em normas por uma lógica de força e exceção. Não se trata de uma falha do sistema, mas de uma escolha política consciente. A mensagem implícita é clara: quando os interesses estratégicos de Washington estão em jogo, o direito internacional torna-se opcional.
A América Latina conhece bem esse roteiro. Golpes, intervenções e operações encobertas marcaram o século XX, sempre justificadas por discursos morais — ontem o anticomunismo, hoje o combate ao narcotráfico ou à corrupção. A novidade agora é a brutalidade do gesto: não se derruba apenas um governo, sequestra-se fisicamente o chefe de Estado, como demonstração exemplar de poder.
Rússia, China e o fim da ambiguidade estratégica - Desta vez, porém, a reação internacional não foi tímida. China e Rússia condenaram de forma explícita a ação norte-americana, classificando-a como violação grave da soberania venezuelana e do direito internacional.
Pequim afirmou que a operação constitui um ato de hegemonismo e alertou para o risco de desestabilização regional, exigindo a libertação imediata do presidente venezuelano. Moscou, por sua vez, falou em agressão armada e em precedente inaceitável, ressaltando que nenhum país pode se arrogar o direito de capturar líderes estrangeiros à margem das instituições multilaterais.
Essas manifestações devem ser lidas para além da solidariedade diplomática à Venezuela. Elas expressam um movimento mais amplo de contenção ao unilateralismo norte-americano e se articulam diretamente com o papel crescente do BRICS+ como polo político e geoeconômico alternativo.
O BRICS+ entra definitivamente no tabuleiro geopolítico - A ofensiva contra a Venezuela ocorre em um momento particularmente sensível: o de consolidação do BRICS ampliado como espaço de coordenação política do Sul Global. O bloco, que já não se limita a uma agenda econômica, vem gradualmente incorporando temas estratégicos como soberania, segurança, financiamento ao desenvolvimento e reforma da governança global.
A Venezuela, ainda que não seja membro formal do BRICS, integra o mesmo campo geopolítico ao manter relações estruturais com China e Rússia, especialmente nas áreas de energia, infraestrutura e cooperação financeira. O ataque a Caracas deve ser interpretado, portanto, como um recado indireto ao conjunto de países que buscam reduzir sua dependência do eixo dólar–Wall Street–Washington.
Ao capturar Maduro, os Estados Unidos sinalizam que não aceitam zonas de autonomia estratégica em seu “entorno ampliado” e que estão dispostos a agir preventivamente contra governos alinhados — ainda que informalmente — ao campo do BRICS+. Trata-se de uma tentativa de reimpor, pela força, limites à multipolaridade nascente.
América Latina: soberania ou subordinação - As reações latino-americanas revelaram uma fratura profunda. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva classificou a ação como inaceitável e reafirmou o princípio da soberania e do não intervencionismo. México e Colômbia expressaram preocupação com a escalada militar e com o precedente aberto.
Em contraste, o presidente argentino Javier Milei celebrou a operação, alinhando-se sem reservas à lógica da intervenção e do castigo exemplar. Essa diferença não é apenas retórica: ela evidencia projetos antagônicos de inserção internacional. De um lado, a busca por autonomia relativa e integração regional; de outro, a adesão acrítica à estratégia norte-americana.
O caso venezuelano funciona, assim, como um teste decisivo. Se a captura de Maduro se normalizar, a soberania latino-americana passa a ser condicional, sujeita à conveniência geopolítica de Washington.
A Doutrina Monroe sem disfarces - Durante décadas, os Estados Unidos procuraram revestir sua política hemisférica com discursos sobre democracia, direitos humanos e legalidade. O que se observa agora é o abandono desse verniz. A mensagem é direta: não há necessidade de consenso, apenas de capacidade militar.
A Venezuela transforma-se em laboratório de uma doutrina explícita, em que a força substitui a diplomacia e o direito. O fato de o país possuir as maiores reservas de petróleo do mundo e manter parcerias estratégicas com China e Rússia não é um detalhe, mas parte central da equação.
Uma ordem internacional em decomposição acelerada - O sequestro de um chefe de Estado em pleno século XXI não é um evento isolado. Ele simboliza a erosão acelerada das instituições multilaterais e a crescente irrelevância de normas que deveriam reger a convivência internacional. Quando tribunais nacionais passam a funcionar como instrumentos de coerção geopolítica, o sistema global entra em zona de risco permanente.
Para o BRICS+ e para o Sul Global, a lição é inequívoca: a multipolaridade não será concedida, terá de ser defendida. Isso implica aprofundar mecanismos próprios de coordenação política, financeira e diplomática, sob pena de aceitar um mundo governado por exceções unilaterais.
Venezuela hoje, BRICS amanhã: soberania em um mundo que já não é o mesmo - Não se trata de defender ou absolver o governo venezuelano. Trata-se de algo mais profundo e estrutural: defender o princípio de que nenhum país pode sequestrar o presidente de outro sem corroer os fundamentos mínimos da ordem internacional. O que está em jogo não é apenas o destino imediato da Venezuela, mas a própria viabilidade de qualquer projeto de soberania no Sul Global em um sistema internacional que atravessa uma transição delicada e potencialmente instável. Se a comunidade internacional aceitar esse precedente, o mundo que emerge será mais fragmentado, mais violento e mais desigual — regido não por normas compartilhadas, mas por exceções impostas pela força.
Há, contudo, um elemento decisivo que torna o episódio venezuelano qualitativamente diferente das intervenções do passado e que amplia seus riscos sistêmicos. A ação dos Estados Unidos ocorre em um momento histórico profundamente distinto daquele em que a Doutrina Monroe foi formulada ou em que golpes e operações militares na América Latina eram conduzidos a baixo custo geopolítico. A China contemporânea é uma potência econômica, tecnológica, industrial e financeira plenamente constituída, com capacidade de projeção global, instrumentos próprios de financiamento, cadeias produtivas sofisticadas e influência crescente sobre o Sul Global. Já a Rússia preserva um poder militar de natureza qualitativamente distinta, com domínio de tecnologias estratégicas — hipersônicas, cibernéticas, espaciais e de guerra híbrida — inexistentes nas grandes intervenções do século XX.
Isso significa que o gesto norte-americano não se dá em um vácuo de poder nem em um sistema internacional unipolar. Ele ocorre em um ambiente de multipolaridade tensa, no qual ações unilaterais tendem a produzir reações em cadeia, acelerar processos de realinhamento estratégico e ampliar zonas de instabilidade fora do controle de qualquer ator isolado. O que antes funcionava como demonstração incontestável de força hoje pode se converter em fator adicional de erosão da hegemonia, estimulando precisamente aquilo que se tenta conter: a consolidação de polos autônomos de poder político, econômico e militar.
A Venezuela, nesse sentido, não é apenas um alvo circunstancial, nem um episódio isolado de política hemisférica. Ela é um sintoma de um mundo em transição, no qual o recurso à força busca compensar perdas relativas de capacidade de comando e de legitimidade. É exatamente por isso que esse episódio não pode ser naturalizado nem tratado como exceção. Quando a força substitui o direito em um sistema já fragmentado, o risco deixa de ser regional e passa a ser global. Hoje é a Venezuela. Amanhã, qualquer país — inclusive aqueles que hoje observam em silêncio — pode descobrir que soberania se tornou um conceito condicional.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




