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Boaventura de Sousa Santos

Sociólogo português

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A direita está a desaparecer: a opção é entre esquerda e extrema-direita

A direita tradicional perde espaço diante da polarização entre esquerda e extrema-direita, em meio à crise da democracia liberal e ao avanço do extremismo

Ivan Cepeda e Abelardo de la Espriella (Foto: Gerado por IA (Imagens: Senado colombiano / Reuters))
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Escrevo este texto a pensar na Américas e na Europa, mas os fenómenos que analiso aplicam-se, com modificações, a outras regiões do mundo. Estamos à beira de uma nova guerra mundial, enfrentamos o iminente colapso ecológico, assistimos ao fim do direito internacional e ao fim da distinção entre democracia e autocracia. O paradigma político da modernidade eurocêntrica globalizou-se na medida em que transformou a democracia (a democracia liberal) no único regime político legítimo. Com base em exemplos concretos, é tempo de verificar que esse processo histórico está esgotado e produz efeitos perversos: a democracia liberal existe hoje sobretudo para criar e legitimar ditaduras, as instituições democráticas estão a cometer suicídio como forma normal de operar. Há resistência, mas ela só será eficaz se quem resiste tiver a lucidez de reconhecer a gravidade do que está acontecer e a importância do que está em causa.

O paradigma político da modernidade eurocêntrica

Os resultados da primeira volta das eleições na Colômbia realizadas a 31 de Maio deste ano são os seguintes: Abelardo de la Espriella (extrema-direita): 10.361.499 votos, que correspondem a 43.74% do total do eleitorado votante; Iván Capeda (esquerda): 9.688.361 votos, 40.90%; Paloma Valencia (direita tradicional): 1.639.685 votos, 6.92%. Estes resultados têm algumas características conjunturais que identificarei adiante, mas não são, no seu todo, um episódio conjuntural. São antes o sintoma de uma transformação política profunda que está a ocorrer globalmente. 

A incompatibilidade entre capitalismo e democracia está a atingir um nível que torna a direita tradicional e o centrismo obsoletos. A contradição entre capitalismo e democracia é o fundamento de todas as opções políticas da época moderna, isto é, pós-Revolução Francesa. Está inscrita nos três conceitos normativos básicos que definem essa política – liberdade, igualdade e fraternidade – e no processo histórico que, com base neles, foi posto em marcha. Há uma tensão originária entre os três conceitos. Enquanto valores isolados, aspiram à sua maximização (máxima liberdade, máxima igualdade, máxima fraternidade), enquanto valores em constelação, exigem negociação, acomodação, relativização (liberdade possível, igualdade possível, fraternidade possível).  Por sua vez, o processo histórico posto em marcha teve dois pilares: a ascensão da burguesia ao poder político com vista a consolidar e ampliar a economia política que lhe dera o poder original: o capitalismo; a consagração da democracia liberal como o único regime político legítimo para levar a cabo a compatibilização possível entre três conceitos normativos. 

A contradição fundamental entre democracia e capitalismo é esta: enquanto a democracia assenta nas ideias de soberania popular e de cidadania nacional como formas de compatibilizar as tensões entre os três conceitos normativos, o capitalismo tem por objectivo a acumulação infinita tornada possível pela incessante ampliação do mercado. A acumulação e o mercado capitalistas só reconhecem um dos valores, a liberdade, do qual, aliás, têm uma concepção restrita: a única liberdade que conta é a liberdade económica. Por outro lado, enquanto as ideias de soberania e de cidadania apontam para a primazia do espaço geopolítico nacional, a acumulação e o mercado são sempre potencialmente globais, ainda que nem sempre o sejam na realidade.

As famílias políticas da modernidade eurocêntrica nasceram deste paradigma conceptual. Tinham em comum o reconhecimento de princípio da validade dos três conceitos normativos e a sua possível acomodação por via democrática. Assim nasceu a democracia liberal. Distinguiam-se pelo valor relativo que davam a cada um deles: enquanto as forças políticas convencionalmente designadas de direita davam primazia ao valor da liberdade, as forças de esquerda davam primazia ao valor da igualdade e da fraternidade. O principio da primazia não implicava a negação de qualquer dos três valores, implicava apenas que os maiores “sacrifícios necessários” seriam impostos aos valores sem primazia.

Nas margens deste paradigma, mas plenamente inerente a ele, existiam dois tipos de forças políticas que tinham em comum recusarem a ideia de compatibilidade por acomodação entre os três valores e, consequentemente, a democracia liberal. As forças políticas convencionalmente designadas reaccionárias recusavam os três valores, por serem todos individualistas e secularistas, e propunham em seu lugar: Deus, Pátria e Família. Um sub-grupo das forças reacionárias, que foi ganhando peso com o tempo, propunha a compatibilidade do “Deus, Pátria e Família” com um dos valores da modernidade, a liberdade, entendida como liberdade económica. Assim surgiu a sigla Deus, Pátria, Família e Liberdade. Este sub-grupo foi designado como extrema-direita e conquistou o poder no século XX sob a forma do fascismo e no nazismo. Estes regimes levaram ao limite a ideia de que o único valor que contava era o da liberdade económica

A outra margem deste paradigma foi constituída pelas forças políticas revolucionárias que igualmente recusavam a possibilidade compatibilizar os três valores e davam primazia, sob diversas formas, à igualdade e à fraternidade. Para estas forças, a democracia liberal acabaria sempre por privilegiar a liberdade em detrimento dos outros valores. E porque dava forma política ao capitalismo, a democracia liberal estaria condenada a cometer suicídio quando a liberdade económica exigisse o total sacrifício da igualdade e da fraternidade. As forças políticas revolucionárias assumiram duas formas principais: comunismo/socialismo revolucionário e anarquismo. Divergiam quanto à ideia de Estado, às formas de luta e à ideia da liberdade dos produtores associados (apenas defendida pelos anarquistas).

A constelação democracia liberal/capitalismo em ação

Originária da Europa, esta constelação foi-se propagando ao mundo não europeu por via do colonialismo e da luta anti-colonial. Viveu em constante convulsão desde o início e foi posta de parte em dois momentos históricos. E também neste caso, o que aconteceu na Europa propagou-se, sob diferentes formas, a outras regiões do mundo. A convulsão foi impulsionada por duas forças principais: a luta de classes e as rivalidades imperiais. Os dois colapsos principais, com conteúdos políticos opostos, ocorreram, por um lado, na Rússia em 1917 (fim do capitalismo e da democracia liberal), e, por outro, na Itália, em 1922, na Alemanha, em 1933 (fim da democracia liberal para “libertar” o capitalismo). Foram, em parte, um produto das rivalidades mal resolvidas na Primeira Guerra Mundial e acabaram por contribuir para a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Enquanto funcionou, a constelação democracia liberal/capitalismo assumiu a forma do que designo por social-democracia. Teoricamente, a social-democracia assenta na tentativa de realizar a ideia original da democracia liberal, tal como foi proposta pelos seus teóricos. Claro que a ideia original foi sempre desmentida pelas práticas dos seus proponentes: John Locke e os seus negócios no tráfico da escravatura (títulos de acções na Royal African Company entre 1672 e 1675); ou os primeiros presidentes dos EUA, que não viram contradição entre a Constituição e serem proprietários de escravos (por exemplo, George Washington, entre 300 e 600 escravos, Thomas Jefferson, mais de 600 escravos, James Madison mais de 100 escravos). 

A ideia original era manter estritamente separados dois universos: o universo dos valores económicos, que têm preço e por isso se compram se vendem, e o universo dos valores ético-políticos (as convicções políticas, as crenças), que não têm preço e, portanto, não se compram nem se vendem. 

A separação (nunca completa) esteve na base da social-democracia. Entendo por social-democracia toda a coexistência entre capitalismo e democracia liberal, em que a classe capitalista (genericamente, burguesia) é forçada pela luta dos trabalhadores a fazer algumas concessões ao valor da igualdade para poder preservar a continuidade da acumulação capitalista e da globalização dos mercados. 

As concessões foram, historicamente, o direito dos trabalhadores à organização sindical e à greve e as políticas sociais sob a forma de direitos sociais, desde os direitos laborais e do sistema público de pensões, à educação e à saúde públicas e à ideia de bens públicos, não susceptíveis de mercantilização, e de serviço público como ethos de funcionamento. Em suma, uma economia de mercado co-existindo com uma sociedade não mercantil, isto é, uma sociedade que se revia nas relações sociais sem lógica de troca mercantil (a fraternidade mediada pelo Estado). Estas concessões transformaram o Estado num campo de disputa política privilegiado. 

O colapso da constelação democracia liberal/capitalismo

O colapso é sempre o ponto final de uma crise que decorre ao longo do tempo. A crise da social-democracia tornou-se evidente a partir do chamado Consenso de Washington, em meados da década de 1980, que decretou a insustentabilidade do modelo do capitalismo social-democrata e proclamou como único modelo global do capitalismo uma versão até então minoritária dentro da teoria económica e que só tinha sido posta inteiramente em prática em condições de ditadura: a ditadura de Pinochet que se seguiu ao golpe de Estado de 1973 contra o presidente Salvador Allende do Chile, orquestrado pela CIA e por Henri Kissinger. 

Esta versão ficou conhecida como neoliberalismo. Em linha gerais, consiste em: desregulação da economia, liberalização do comércio, privatização de todas as actividades do Estado susceptíveis de gerarem lucros, substituição da tributação progressiva (os mais ricos pagam proporcionalmente mais impostos que os mais pobres) e a consequente substituição do financiamento do Estado através da tributação por financiamento através de empréstimos no mercado do capital financeiro globalizado (a grande desregulação). 

O fim da União Soviética determinou o princípio do colapso final da social-democracia. O modelo neoliberal determinou duas inversões que passaram despercebidas à opinião pública e à grande maioria dos teóricos sociais e económicos. Por um lado, a democracia anti-social-democrática passou a ser uma condicionalidade imposta mundialmente pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional para financiar os Estados em desenvolvimento. A inversão consistiu no seguinte: enquanto antes a democracia, para ser viável, pressupunha certas pré-condições mínimas de desenvolvimento (reforma agrária, urbanização, criação de classes médias temerosas de perder o pouco ou muito que têm no caso de alguma tentativa de irrupção revolucionária socialista), a partir de agora a instauração da democracia liberal passava a ser a pré-condição das políticas de desenvolvimento. Nenhum financiamento sem democratização liberal (o infame “ajustamento estrutural”, na periferia do sistema mundial e a não menos infame “austeridade”, nos países mais desenvolvidos).

A segunda inversão, igualmente pouco notada, consistiu em que, se até então se podia dizer com alguma credibilidade que o capitalismo era regulado pela democracia (teoria da regulação), a partir de agora o capitalismo passou a regular a democracia e esta passou a ser permitida apenas na medida em que fosse funcional ao livre desempenho do capitalismo.

Estas duas inversões pressupunham que a separação entre o universo dos valores ético-políticos e o universo dos valores económicos fosse eliminada ou, pelo menos, atenuada. Um dos instrumentos utilizados foi a liberalização e consequente opacidade do financiamento dos partidos políticos. Nos EUA, isso ocorreu com a decisão do Tribunal Supremo de 2010, Citizens United vs. Federal Election Comission, por via da qual se tornou possível financiar sem limites a actividade dos partidos. Essa liberalização correu de par com a possibilidade da opacidade da origem dos financiamentos através do chamado “dark money”.

 Se a influência do capital na política já se sobrepunha no passado a outras influências, nomeadamente dos sindicatos, a partir de então passou a ser absolutamente dominante. Assim se abriram as comportas para que o universo dos valores económicos absorvesse a prazo o universo dos valores ético-políticos. Ou seja, a partir de então tornou-se possível que em política tudo se compre e tudo se venda, tal como acontece na economia. A grande corrupção desapareceu porque foi legalizada. A pequena corrupção tornou-se sistémica porque, entretanto, o ethos de serviço público e de zelo pelo bem comum desaparecera da memória e da prática da grande maioria dos agentes do Estado. 

A sentença do Tribunal Supremo foi o golpe final na democracia norte-americana. Hoje não há democracia nos EUA, há uma oligarquia com eleições regulares para decidir qual o grupo oligárquico que governa. Os cidadãos têm muito pouca capacidade para decidir sobre o que verdadeiramente interessa e é importante para o livre desempenho do capitalismo. Portanto, o país que mais promove a mudança de regime (o infame regime change) é o país que primeiro se submete a essa mudança com o resultado que o resto do mundo conhece: aumento da desigualdade social, guerra civil, criminalidade despolitizada, desinformação sistêmica por via da concentração midiática corporativa, fragmentação da coesão social. Este é o espelho mais cruel dos EUA, o país do regime change original.

Daqui decorre uma lição e uma constatação. A lição é que a liberalização e a opacidade do financiamento dos partidos políticos significam a certidão de óbito da democracia. Em Portugal, essa certidão está a ser redigida com a justificação da protecção de dados (a mesma que – em combinação com a liberdade de expressão protegida pela primeira emenda da Constituição – determinou o suicídio da democracia norte-americana). A constatação é que não pode causar surpresa que os EUA apoiem hoje fundamentalmente governos e políticos de extrema-direita. São os governos e políticos que melhor servem os interesses da oligarquia norte-americana e mais se identificam com a sua ideologia.

O Interregno: o fim da democracia tradicional, começo de quê? 

Vivemos num período de interregno gramsciano: a velha constelação democracia liberal/capitalismo ainda não desapareceu totalmente e o novo que se lhe seguirá ainda não se configurou plenamente. Quais são as características principais deste interregno?

A ambiguidade da pulsão anti-sistema

O neoliberalismo tem vindo a retirar da memória das classes populares a eficácia da democracia em defender os seus interesses ou em melhorar as suas condições de vida. A crise final da constelação democracia liberal/capitalismo abre o espaço para o incremento da pulsão anti-sistema. À luz do que referi acima, esta pulsão é ambígua na medida em que, no passado, as forças anti-sistema foram a extrema esquerda e a extrema-direita. A pulsão anti-sistema é apenas a manifestação de um mal-estar sem solução à vista no atual sistema. Corresponde a uma condição existencial individual e colectiva que se manifesta como excesso de medo sem a compensação de qualquer esperança sem grandes mudanças. 

Aliás, podemos dizer que a pulsão anti-sistema beneficiou o Presidente Gustavo Petro da Colômbia nas eleições de 2022. Apesar de ser um político do sistema, com uma trajetória brilhante como senador, tinha um passado de extrema-esquerda que tornava credível a possibilidade de, finalmente através dele, ser devolvida alguma esperança aos deserdados da constelação democracia liberal/capitalismo. E essa expectativa não foi totalmente frustrada. Pelo contrário, houve melhorias nas condições de vida das classes populares; houve uma vontade real de reconciliar a nação com o plano Paz Total; foram distribuídas terras aos camponeses pobres; através de intervenções memoráveis nos Fóruns internacionais, nomeadamente na ONU, o Presidente Gustavo Petro  devolveu a milhões de colombianos o orgulho de serem colombianos  depois de décadas da insultuosa equação: colombiano=narcotraficante.

A ambiguidade da pulsão anti-sistema pode ser identificada em diferentes lugares e contextos. Por exemplo, nas regiões da Alemanha que durante a vigência da União Soviética pertenciam ao universo comunista, a então República Democrática da Alemanha, é onde a extrema-direita (AfD, Alternative fur Deutschland) mais cresce. Nas últimas eleições federais este partido conquistou 34.5% dos votos, enquanto nas regiões da então Alemanha Ocidental apenas conquistou 17.9%. Acontece que estes mesmos eleitores, quando perguntados pela sua avaliação do regime comunista, são maioritariamente (ainda que condicionalmente) favoráveis a ele. O que recordam dele com nostalgia são benefícios como estes: segurança de emprego, habitação e sistema de saúde gratuitos, ausência do consumismo desenfreado impulsado pela publicidade, a possibilidade de uma vida familiar estável, um mês, e às vezes mais, de férias por ano. O que naturalmente rejeitam é a polícia secreta, a ausência de liberdade de expressão, a censura, a proibição ou extrema dificuldade de viajar ao estrangeiro. Desencantam-se ao concluir que talvez quisessem ter o melhor de dois mundos e que isso é impossível.

Podemos concluir que em função do violento desgaste imposto à constelação democracia-liberal/ capitalismo nas últimas décadas, a pulsão anti-sistema é hoje legítima e pode ser dirigida em duas orientações políticas opostas: a extrema-direita e a extrema-esquerda. O problema é que neste momento do interregno a única orientação presente é a da extrema-direita, e a possibilidade de essa pulsão se orientar para a extrema-esquerda é hoje o pesadelo não-dito dos detentores do poder. Por isso, tudo fazem e com o máximo extremismo para evitar que tal orientação ocorra, usando para isso os mais sofisticados meios de manipulação das consciências, o silenciamento das vozes que podem revelar o seu jogo, a construção de crises permanentes para que tornem impossível aos governantes pensar além da conjuntura e, aos cidadãos comuns, pensar além do dia seguinte. A produção de crises permanentes, a incessante ameaça de guerra ou de intervenção estrangeira paralisam a possibilidade ou a vontade de pensar, de agir e de resistir. 

Na Colômbia, podemos dizer que a pulsão anti-sistema orientada para a extrema-esquerda foi esgotada por Gustavo Petro e não está disponível para Ivan Cepeda. Aos colombianos só resta escolher entre a esquerda e a extrema-direita. Neste contexto, a Colômbia está a ponto de produzir uma inflecção no interregno cuja importância vai muito para além da Colômbia. 

O colapso da candidata da direita tradicional na Colômbia é de tal maneira acentuado que exige uma leitura da complexa formação da pulsão anti-sistema.  Neste período de interregno, a direita tradicional só tem uma opção: a de unir-se à extrema-direita na esperança de poder salvar o sistema que ao longo de décadas serviu os seus interesses. Acontece que a candidata da direita, Paloma Valência, pretendeu misturar dois sinais incompatíveis da pulsão anti-sistema. Por um lado, a sua genealogia uribista apontava para a extrema-direita, mas, por outro lado, ao escolher um vice-presidente abertamente homossexual (Juan Daniel Oviedo Arango), deu um sinal de pulsão anti-sistema não só hostil à extrema-direita e à direita conservadora, como também identificado com a esquerda, que tem vindo a legitimar as diferentes sexualidades. Com isto confundiu os seus seguidores e muitos ter-se-ão mesmo considerado traídos. Por isso, desertaram do seu campo e entregaram-se ao campo da extrema-direita – abertamente misógina, homofóbica, transfóbica, xenófoba.

Os extremos só vêem extremos

O objectivo da pulsão anti-sistema nunca é a construção de um sistema alternativo. Isso explica que, quando chega ao poder, a extrema-direita apenas saiba destruir, nunca construir. O objectivo de um extremismo é imaginar outro extremismo e convertê-lo em inimigo. Com o inimigo não se dialoga, há apenas que destruí-lo. 

Para a extrema-direita não há direita ou centro senão para os absorver e, sobretudo, não há esquerda. Toda a esquerda é extrema esquerda. Nisto consiste a falsa polarização com que a política actual nos ilude. As populações não estão polarizadas, os seus telemóveis é que estão. Ou seja, estamos perante a uma fabricação massiva de polarização assente no pressuposto de que produzirá apenas extrema-direita. A fabricação do inimigo assume hoje duas formas, uma secularista e outra religiosa.

O extremismo secularista

Para a extrema-direita originária da direita tradicional secularista, toda a esquerda é extrema-esquerda – é comunista, neocomunista ou castro-chavista (um neologismo inventado pelo antigo presidente de (extrema) direita da Colômbia, Álvaro Uribe). Num contexto midiático completamente dominado pela direita, ser esquerdista torna-se um insulto, uma estigmatização que cria repúdio, enquanto ser fascista é por agora um termo não-dito, que se usa apenas em privado e entre correligionários.

O extremismo religioso

Nas Américas, e crescentemente em África e na Índia, o uso político da religião é um instrumento cada vez mais eficaz de inculcar extremismo. Nas Américas, o evangelismo, sobretudo o evangelismo pentecostal defensor da teologia da prosperidade, é, em grande parte, responsável pelo atual charme indiscreto dos bilionários. O evangelismo pentecostal é hoje uma força política poderosa, tanto a nível do poder legislativo, como do poder executivo e do poder judicial.

Enquanto para o extremismo secularista a esquerda é comunismo, para o extremismo religioso a esquerda é a encarnação do diabo. 

O fim dos golpes brandos

A primeira característica do interregno que vivemos é a produção massiva de extremismo político. A segunda é a interferência intensa, violenta e violadora de toda a normatividade internacional da potência hegemônica na política interna dos países situados na sua área de influência. Depois do fim da União Soviética, os EUA tornaram-se a única potência mundialmente hegemônica. A sua área privilegiada de ingerência sempre foi a América Latina. A ingerência sempre existiu, mas em tempos recentes assumiu duas formas que disfarçavam os seus verdadeiros objetivos com a suposta defesa da democracia. Ao mesmo tempo, os seus objetivos eram conduzidos de modo a ocultar a violência do impulso que os movia. 

Essas duas formas foram as revoluções coloridas e os golpes brandos.  Enquanto na Europa e na África do Norte dominaram as revoluções coloridas, na América Latina dominaram os golpes brandos. Foram assim designados por serem golpes de Estado conduzidos dentro da aparente normalidade constitucional e com recurso às instituições democráticas. O objectivo real de todos eles foi provocar a destituição ou deposição de Presidentes da República democraticamente eleitos, mas considerados hostis aos interesses dos EUA. A manipulação do sistema judicial foi fundamental para levar a cabo com êxito os golpes brandos. O primeiro ocorreu nas Honduras em 2009 com a destituição do Presidente Manuel Zelaya. Seguiram-se os golpes no Paraguai em 2012, para destituir o Presidente Fernando Lugo, o golpe no Brasil em 2016, para destituir a Presidente Dilma Rousseff, e o golpe, também no Brasil, em 2018, para inabilitar o candidato às eleições Lula da Silva.

A Nova Política de Segurança dos EUA, adotada durante o segundo mandato do presidente Donald Trump, pôs de parte os golpes brandos e passou a legitimar ingerências mais violentas e explicitamente violadoras do direito internacional. Essas ingerências têm dois pilares fundamentais: o pilar militar e o pilar financeiro. 

O pilar militar reside, por exemplo, na onipresença de navios de guerra nas costas dos países objecto de intervenção, neutralização das informações por satélite necessárias para activar defesas antiaéreas, reforço das bases militares existentes no continente, bombardeio de lanchas de pescadores a navegar em águas territoriais desses países, captura e sequestro de presidentes democraticamente eleitos e levá-los para prisões nos EUA onde serão sujeitos a julgamento. Para uso interno dos EUA, inventou-se o termo Estado narco-terrorista para legitimar estas ingerências violentas. Em tempos recentes, o país que mais violentamente foi atingido com a maior variedade de medidas foi a Venezuela.

O pilar financeiro inclui embargos, congelamento de ativos e reservas no exterior, tarifas, punição de empresas do país-alvo e de outros países que negociam com elas, interferência nos sistemas financeiros nacionais sob o pretexto de possível corrupção ou existência de fundos do narcotráfico. Cuba é o país que desde o início da Revolução cubana foi objecto de mais golpes militares e financeiros durante mais tempo.

As rivalidades imperiais agudizadas

O fim dos golpes brandos decorre da agudização das rivalidades imperiais. Como disse, depois da queda da União Soviética os EUA tornaram-se o único país hegemônico no sistema mundial moderno. Durou pouco tempo essa solidão. As contradições próprias do capitalismo levaram a que a China se desenvolvesse exponencialmente nos últimos trinta anos e se convertesse no que é hoje: a fábrica do mundo. Isoladamente ou no contexto dos BRICS, a China tem vindo a converter-se numa potência hegemónica rival. A rivalidade tem vindo a intensificar-se e assume várias formas. Na Europa, a guerra da Ucrânia visa impedir o acesso da China à Europa e enfraquecer o seu maior aliado, a Rússia. No Médio Oriente, a conversão de Israel num Estado tecno-fascista sub-imperialista visa cortar o acesso da China ao Mediterrâneo e privá-la dos recursos naturais do Médio Oriente. 

Na América Latina, a mão dura é particularmente pesada porque a China tornou-se neste continente o principal parceiro comercial de muitos países. Além disso, está na América Latina um dos maiores países fundadores dos BRICS, o Brasil. O mais recente símbolo da mão dura é a criação de uma nova aliança militar entre os EUA e os países “amigos” do subcontinente, uma aliança significativamente celebrada em Miami, em 2026. Neste momento O Escudo das Américas é constituído por 12 países: Argentina, Bolívia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá Paraguai Trindade e Tobago, EUA. Gritantemente estão ausentes três países importantes de desenvolvimento intermédio: Brasil, Colômbia e México.  Estes são os países que devem permanecer em alerta máximo se não querem cair nas mãos da extrema-direita (e dos EUA) nos próximos tempos.

O extremismo Hi-Tech

Depois da pulsão anti-sistema, do fim dos golpes brandos, do uso da religião política e da agudização das rivalidades imperiais, a característica mais importante do interregno em que vivemos é a utilização das mais sofisticadas tecnologias de manipulação das consciências por parte da extrema-direita, agora com o recurso massivo à inteligência artificial e ao modo como os algoritmos conseguem dirigir-se a milhões de pessoas como se estivessem a dirigir-se a cada uma delas individual e personalizadamente com mensagens personalizadas. Trata-se de algo muito mais sofisticado e eficaz que a infame Cambridge Analítica, a máquina informática de manipulação de deliberação política responsável pelo Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia). 

Este tipo de investimento capitalista nos partidos e candidatos de extrema-direita tem um custo e isso explica, em parte, por que razão os partidos de extrema-direita são, em geral, os mais bem financiados. O caso da Colômbia confirma plenamente este facto. A orgia Hi-tech de Abelardo de la Espriella está bem descrita no artigo de Lucas Ospina publicado en La Silla Vacia de 29 de maio de 2026. Trata-se do mesmo processo que levou ao poder outros políticos de ultradireita ou de extrema-direita na América Latina: Trump en Estados Unidos (2016), Bukele em El Salvador (2019), Bolsonaro no Brasil e Milei na Argentina (2023), Noboa no Ecuador (2023), Mulino no Panamá (2024), Asfura nas Honduras (2025), Kast no Chile (2025), Fernández na Costa Rica (2026). Por estes dias é possível que a este grupo se junte Keiko Fujimori no Peru.

A eficácia do extremismo Hi-Tech não pode ser subestimada de modo nenhum. Nas eleições da Colômbia em 2022, muitos comentadores consideraram que, se a campanha eleitoral durasse mais uma semana, talvez o candidato da extrema-direita, Rodolfo Hernandez, tivesse ganhado as eleições.  

Os dados estão lançados

Noutro texto tratarei do futuro da esquerda neste novo contexto em que ela se tornou no único baluarte de defesa da democracia contra a extrema-direita. Será importante perguntar então: como construir uma concepção de democracia que não se suicide ao eleger recorrentemente fascistas?

No actual contexto americano e europeu, não resta aos democratas outra opção do que votar no partido ou no candidato presidencial de esquerda. A extrema-direita usa a democracia para chegar ao poder, mas, uma vez no poder, não tem nenhuma intenção de o exercer democraticamente. O populismo é hoje o seu melhor disfarce. Por exemplo, em Portugal, o partido Chega, o segundo maior partido, é de extrema-direita. No momento em que escrevo, está contra a reforma do direito laboral proposto pelo governo de direita tradicional actualmente no poder. Mas é evidente que, uma vez no poder, o partido Chega proporá a mesma lei ou outra ainda mais danosa para os trabalhadores. Em face disto, votar hoje na esquerda significa, acima de tudo, salvar o que resta da democracia para depois a tentar fortalecer de modo a poder resistir com mais convicção contra os falsos democratas. Se a esquerda “se esquecer” da condição de fortalecer a democracia, estará a cometer suicídio.

No futuro há que abordar outros temas. Qual o futuro da esquerda se a direita tradicional desaparecer totalmente? Como construir uma concepção de democracia que não se suicide ao eleger recorrentemente fascistas? Como será a esquerda do futuro? São os temas de um próximo texto.

Por agora, a opção que se impõe aos democratas está expressa em duas mensagens que foram dirigidas por personalidades importantes aos candidatos que disputarão a segunda volta das eleições na Colômbia.

A mensagem de Donald Trump ao candidato Abelardo de la Espriella na sua rede social:

Parabéns ao candidato presidencial colombiano, «EI Tigre (O TIGRE)», Abelardo de la Espriella, um líder inteligente, forte e determinado, pela sua vitória decisiva na primeira volta das eleições presidenciais colombianas! Abelardo luta incansavelmente pelo seu grande país e pelo seu povo, e ama-os, tal como eu nos Estados Unidos da América. Como presidente, Abelardo seria extremamente bem-sucedido a liderar a Colômbia para fazer crescer a economia, criar empregos, promover o comércio, travar a imigração ilegal, combater o crime e as drogas e restaurar a LEI E A ORDEM! Abelardo irá enfrentar um marxista de esquerda radical na segunda volta, a 21 de Junho – os resultados desta eleição são muito importantes para o futuro da Colômbia e para a sua relação com os Estados Unidos. Devido às suas enormes realizações na vida e ao seu apoio político a mim, pessoalmente, é uma honra para mim dar a Abelardo o meu apoio total e incondicional. «EL TIGRE» ABELARDO DE LA ESPRIELLA NÃO IRÁ DECEPCIONAR O MARAVILHOSO POVO DA COLÔMBIA!

Presidente DONALD J. TRUMP

Mensagem a Ivan Cepeda do Padre jesuíta Pacho de Roux, que foi presidente da Comissão da Verdade criada depois dos Acordos de Paz com a guerrilha em 2016, e a cujo Conselho Assessor tive a honra de pertencer: 

Iván, quem sou eu para te dar conselhos, mas aceita esta palavra de amigo.

Parabéns. Fizeste uma campanha muito boa. Mantiveste a esperança.

Dedicaste-te de corpo e alma.

É hora de aceitar a verdade da realidade. É certo que façam a recontagem dos votos, mas essa não é a questão; a verdade que as urnas revelam é o grau de prostração moral e de escuridão em grande parte da nossa sociedade, independentemente das manipulações ou dos medos que causam esta situação

E é preciso avançar a partir dessa verdade. Tens razão quando falas de uma revolução moral, de uma mudança de consciência. O teu momento é agora, para transformar a verdade do resultado num apelo a retomar com entusiasmo aquilo que tu encarnas: a paixão audaciosa e a esperança, com o desafio e a generosidade, e a perseverança em meio às dificuldades, como tens feito; e neste momento crucial, essa mesma paixão ética esvazia-se se usares o seu valor para atacar o adversário pela sua baixeza moral de mafioso e corrupto que bem conhecemos.

Não deixes que a tua paixão se desvie para esse caminho, porque não vais mudar o corrupto, nem vais abalar a consciência obscura de quem o segue; pelo contrário, vais endurecer-lhes o coração no mal.

A tua integridade moral, o teu entusiasmo pela causa, o teu apelo à Esperança, o teu discurso transparente, ético, positivo e corajoso, é o que é necessário agora.

Tu tens isso. Não rebaixes a tua grandeza moral fazendo campanha CONTRA o abismo moral; dedica estas três semanas a entregar a todos o que há de melhor em ti.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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