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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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A disputa de narrativas e o peso da verdade na eleição de 2026

Narrativas e histórico dos candidatos ganham peso decisivo na disputa presidencial

Fabrício Queiroz e Flávio Bolsonaro (Foto: Reprodução)

Uma campanha eleitoral é, antes de tudo, uma guerra de posições. Movimentos coordenados de construção e desconstrução de “verdades”. Não necessariamente no sentido filosófico da desconstrução derridiana, mas, sobretudo, na capacidade de iluminar o que o adversário tenta esconder nas sombras.

É sob essa lógica que deve ser compreendida a disputa eleitoral de 2026. Em um cenário marcado por forte polarização, cabe aos que defendem a democracia não apenas apresentar propostas, mas também expor trajetórias, revelar padrões e oferecer ao eleitor um retrato mais fiel dos que disputam o poder. E é nesse contexto que a chamada “biografia não autorizada” de Flávio Bolsonaro ganha relevância política.

Não se trata de um exercício de retórica, mas da reunião de fatos, investigações e denúncias que, ao longo dos anos, foram sendo acumulados e que desenham um padrão consistente. O caso mais emblemático segue sendo o das “rachadinhas”, investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. Segundo os órgãos de controle, assessores do então deputado estadual repassavam parte de seus salários ao ex-assessor Fabrício Queiroz, em um esquema que apresenta indícios claros de desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro.

Mas esse é apenas o ponto de partida. O eixo mais sensível dessa trajetória está nas relações com milicianos e agentes da segurança pública envolvidos em atividades criminosas. O caso de Adriano da Nóbrega é simbólico: visitado na prisão por Flávio Bolsonaro e homenageado com a Medalha Tiradentes, mesmo já respondendo por acusações graves. A presença de familiares de Adriano no gabinete do então deputado reforça a percepção de proximidade com estruturas associadas ao chamado “Escritório do Crime”.

Esse padrão não é isolado. Levantamentos indicam que ao menos 16 policiais denunciados por envolvimento em esquemas criminosos teriam sido homenageados pela família Bolsonaro. Há também registros de possíveis visitas a prisões de integrantes de grupos de extermínio, o que amplia a gravidade das conexões estabelecidas ao longo do tempo.

No campo patrimonial, as dúvidas também se acumulam. Transações imobiliárias com uso de dinheiro em espécie, movimentações bancárias fracionadas e operações com valorização atípica indicam possíveis estratégias de ocultação de patrimônio. A loja de chocolates da qual Flávio Bolsonaro foi sócio, apontada em investigações como possível instrumento de movimentação financeira irregular, reforça essa suspeita ao apresentar faturamento incompatível com seu porte.

Mais recentemente, chama atenção a operação envolvendo a compra de uma mansão em Brasília, financiada por um empréstimo milionário cuja quitação antecipada levanta questionamentos legítimos sobre a origem dos recursos. Soma-se a isso a presença, em seu gabinete, de pessoas ligadas ao “Careca do INSS”, pivô do escândalo do roubo a aposentados e pensionistas, ampliando o conjunto de indícios que orbitam sua atuação política.

O que se desenha, portanto, não é uma coleção de episódios desconexos, mas um padrão. Um modo de operar que articula poder político, relações controversas e práticas sob constante suspeita. E é justamente esse padrão que precisa ser trazido ao centro do debate público.

Isso porque a disputa eleitoral não se dá apenas no campo das propostas ou de entregas, mas também na construção de confiança. E confiança se constrói com transparência — ou se perde com contradições.

Nesse sentido, ganha força a leitura de que cabe aos partidos e lideranças do campo democrático assumir o protagonismo na disputa de narrativa. Não como ataque vazio, mas como exposição objetiva de fatos que ajudam o eleitor a tomar decisões mais conscientes.

Tenho acompanhado, pela imprensa, que este deverá ser o caminho adotado pelos partidos da base aliada do presidente Lula. E considero esse movimento um grande acerto. Ao antecipar o debate e trazer à tona elementos concretos dessa trajetória, desloca-se o eixo da discussão, o que deve reposicionar os números das pesquisas em seus devidos lugares.

Mais do que isso: trata-se de uma movimentação tática inteligente, capaz de reorganizar o cenário antes mesmo do período formal de campanha. Ao iluminar as contradições do adversário e reforçar a percepção de risco, cria-se um ambiente favorável à consolidação de uma escolha mais segura por parte do eleitor.

Se esse movimento for conduzido com consistência, estratégia e capilaridade — nas ruas, nas redes e nos meios de comunicação —, não será surpresa se o desfecho eleitoral for antecipado. A depender da execução, o que hoje se desenha como disputa em dois turnos pode, inclusive, resolver-se já na primeira volta.

A eleição de 2026 será, mais uma vez, uma disputa entre projetos. Mas também será, inevitavelmente, uma disputa entre luz e sombra. E, nesse jogo, quem ilumina melhor a realidade costuma sair na frente.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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