A ditadura do bio-capital: o fitness como fronteira final da mercantilização humana
A luta por uma sociedade pós-capitalista passa pela retomada dos nossos corpos
Hoje, o corpo humano tornou-se muito mais do que nossa morada; ele virou uma mercadoria a ser moldada e vendida. No ritmo do capitalismo atual, a indústria fitness e os algoritmos das redes sociais criaram uma espécie de "vigilância invisível", onde estamos o tempo todo nos comparando e consumindo promessas de perfeição. Este artigo utiliza as ideias de pensadores como Marx, Foucault e Byung-Chul Han para mostrar que, no mundo moderno, a saúde deixou de ser apenas bem-estar para virar uma forma de status e produtividade. O resultado é um ciclo sem fim: somos pressionados a produzir o "corpo ideal" como se fosse um produto, o que gera uma frustração profunda e um cansaço que nunca passa.
No cenário contemporâneo, o capitalismo transbordou as fronteiras da produção fabril para colonizar a própria biologia humana. O que outrora era o direito ao movimento e à saúde transformou-se em um nicho de mercado voraz: o "setor fitness". É fundamental compreender que o "corpo ideal" propagado nas telas não é um objetivo de saúde pública, mas um artefato ideológico desenhado para alimentar uma cadeia industrial que lucra com a insegurança e a autocrítica constante da classe trabalhadora.
Sob o neoliberalismo, o indivíduo é compelido a agir como o "empresário de si mesmo". Nesse regime, o corpo deixa de ser o local da existência para se tornar um ativo financeiro. O tônus muscular, a dieta restritiva e a performance atlética funcionam como currículos visuais: demonstram que aquele sujeito possui "disciplina" e "foco", atributos essenciais para a exploração laboral.
O capitalismo fitness opera o que Marx chamou de fetichismo da mercadoria. O objeto (o suplemento, a roupa de compressão, o aplicativo de treino) aparece como o portador de uma "mágica" capaz de transformar a realidade do indivíduo, ocultando o fato de que a fadiga e o corpo "fora do padrão" são reflexos de jornadas de trabalho exaustivas e da precarização da vida.
As plataformas digitais (Instagram, TikTok) não são apenas ferramentas de exibição, mas engrenagens de controle social. O algoritmo não é neutro; ele prioriza a estética da hiper-performance porque ela é inerentemente monetizável.
- A Comparação Destrutiva: Ao bombardear o usuário com recortes de rotinas impossíveis — muitas vezes sustentadas por recursos que o capital pode comprar (hormônios, personal trainers, chefs particulares) —, o sistema cria uma sensação de insuficiência.
- O Consumo como Alívio: A frustração gerada pela comparação é o motor do consumo. Vende-se a solução para uma angústia que o próprio mercado criou.
- A Despolitização da Saúde: A indústria fitness desloca o debate da saúde coletiva (saneamento, alimentação de qualidade, lazer público) para a responsabilidade individual. Se você não tem o "corpo dos sonhos", a culpa é da sua "falta de vontade", nunca do sistema que lhe rouba o tempo e a energia.
Como bem observa Byung-Chul Han (2015), o indivíduo da modernidade tardia é um "explorador de si mesmo". Não é mais necessário um chicote externo; o sujeito se chicoteia em nome da performance, acreditando estar exercendo sua liberdade enquanto obedece cegamente aos imperativos do mercado.
A quantidade de produtos desnecessários empurrados goela abaixo do consumidor é alarmante. De "detox" que desafiam a biologia a suplementos sem evidência científica, tudo é embalado em uma retórica de "estilo de vida". O objetivo não é o bem-estar, mas a manutenção da circulação do capital. A indústria fitness não quer que você seja saudável e satisfeito; ela precisa que você se sinta perpetuamente "em obras", um projeto inacabado que só pode ser avançado através do próximo cartão de crédito passado na maquininha.
A luta por uma sociedade pós-capitalista passa pela retomada dos nossos corpos. É preciso denunciar que a estética fitness atual é uma forma de disciplina laboral disfarçada de autocuidado. A verdadeira saúde é um ato político de resistência que exige tempo livre, segurança alimentar e o fim da ditadura da imagem. Enquanto o suor for transformado em dividendo, o corpo será apenas mais uma colônia do capital.
Referências Bibliográficas
BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso no Collège de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes, 2008.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
