A empatia como mercadoria escassa: habilidades sociais e as contradições do trabalho com mais IA
Avanço da inteligência artificial reduz interações humanas e amplia a demanda por habilidades sociais em atividades cognitivas
O avanço da inovação tecnológica na área da Inteligência Artificial (IA) apresenta vários paradoxos. No geral, observa-se uma tendência de redução de empregos em áreas cognitivas — e não apenas em tarefas físicas e manuais, como ocorreu na automação tradicional. Atualmente, nota-se que essa redução de tarefas no trabalho cognitivo vem acompanhada por demandas que exigem intelecto e maior qualificação. Esse processo complexo e muitas vezes dúbio exige observações e pesquisas mais profundas.
Porém, o paradoxo reside em outro ponto: os serviços cognitivos estão exigindo, cada vez mais, trabalhadores com maior capacidade de intervenção, relações interpessoais e, especialmente, habilidades sociais. Contraditoriamente, as transformações digitais têm empurrado os indivíduos para uma vida social mais pobre, onde preponderam o isolamento e o individualismo.
Surge, então, uma incongruência entre o que é proporcionado pela tecnologia (o uso acentuado de telas) e o que o trabalho sob o domínio digital exige na vida laboral. É notório que a comunicação e a empatia interpessoal estão sendo reduzidas, enquanto a estranheza social aumenta. Não é uma equação simples de resolver, embora as gestões de pessoas das companhias pensem o contrário.
A questão é estrutural: na contemporaneidade, já vemos a ampliação do uso de robôs humanoides (IA corporificada). A interação homem-máquina — um fenômeno sociotécnico — cresce em uma direção que tende a reduzir e afastar, ainda mais, a interação social entre humanos. Se as relações se reduzem, a empatia se abrevia e as habilidades sociais se esvanecem.
No mundo capitalista, a lógica vigente alterna entre a escassez e a fartura. Assim, se a empatia e as habilidades sociais se tornam escassas, logo ganham mais valor no mercado de trabalho. Isso talvez já esteja ocorrendo no universo online, no uso sistemático de modelos de linguagem e chatbots, sem que seja plenamente percebido.
À medida que vêm à tona casos de grande interação entre sujeitos e IAs — inclusive para interlocuções sobre o psiquismo —, o isolamento e a estranheza social tendem a aumentar, gerando ainda mais demanda por habilidades sociais humanas. Isso explica, em parte, a busca crescente por psicólogos e terapias como formas de suportar a perda do convívio social, um dos maiores bens da humanidade.
Não seria surpresa se, sob a hegemonia financeira contemporânea, as habilidades sociais passassem a ser chamadas de "ativos". Faltará apenas criarem uma inovação para vendê-las como commodities, ignorando que elas não existem artificialmente, pois são inerentes ao sujeito humano.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




