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Renata Medeiros

Mestre em Ciência Política. Advogada

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Fábrica de Consentimento

A frustração social não desaparece: ela é capturada e redirecionada para inimigos fabricados, desviando a indignação das estruturas que produzem desigualdade.

Representação de multidão manipulada como marionete por uma figura sombria (Foto: Gerada por IA/DALL-E)

Costuma-se imaginar que a miséria produz consciência política. Seria bonito se fosse verdade. Muitas vezes, o que ela produz é ressentimento — matéria-prima abundante para quem sabe transformá-la em força política. Karl Marx já notava algo semelhante em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, ao observar como a frustração social podia ser mobilizada contra os próprios trabalhadores.

É nesse terreno que prospera a política do ressentimento. A máquina funciona de forma relativamente simples. Primeiro, acumula-se frustração: desemprego, precariedade, sensação permanente de abandono. Depois, essa frustração é reorganizada em medo, indignação moral e sensação de ameaça. Por fim, oferece-se um culpado pronto.

O fascismo não cria o ressentimento do nada. Ele o coleta, organiza e redireciona. Para isso, precisa fabricar inimigos. Minorias, movimentos sociais, intelectuais, artistas ou qualquer grupo que possa ser apresentado como ameaça tornam-se alvos convenientes para uma frustração que tem origens muito mais profundas.

Mesmo quando a economia melhora, o mecanismo não desaparece. O Brasil já viveu momentos de crescimento, aumento do emprego e ampliação do consumo. Ainda assim, parcelas empobrecidas da população continuam presas aos tentáculos dessa fábrica do ressentimento. Porque o problema não é apenas renda: é também sensação de abandono, humilhação acumulada e a permanente oferta de inimigos prontos para explicar frustrações que têm origens muito mais profundas.

Nesse processo, a massa pobre e trabalhadora acaba mobilizada contra aqueles que, em tese, seriam seus aliados naturais. O conflito deixa de ser vertical — entre os que concentram poder e riqueza e aqueles que vivem sob sua pressão — e passa a ser horizontal, entre grupos igualmente vulneráveis.

Essa é uma mudança decisiva. A energia política que poderia questionar estruturas de dominação passa a alimentar disputas entre pessoas que enfrentam problemas semelhantes. Em vez de mirar nas engrenagens que produzem desigualdade e abandono, a indignação é canalizada para inimigos cuidadosamente escolhidos.

É assim que a política autoritária opera uma de suas manobras mais eficientes: transforma sofrimento social real em ressentimento politicamente útil. A miséria continua onde sempre esteve, mas agora vem acompanhada de um inimigo conveniente. Enquanto a fúria se dirige para alvos fabricados, as estruturas que produzem essa própria miséria seguem tranquilamente no comando.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.