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Cibele Amaral

Defensora do Direito Constitucional do Acesso à Alimentação e Nutrição

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A fome como projeto de poder: o diálogo atemporal entre Josué de Castro e Carolina Maria de Jesus

"O diálogo entre Josué de Castro e Carolina Maria de Jesus revela que o combate à fome é uma guerra contra estruturas seculares"

Carolina Maria de Jesus

Enquanto Josué de Castro, através da "Geografia da Fome", sistematiza a carência como uma patologia social derivada da estrutura colonial e latifundiária, Carolina, em "Quarto de Despejo", oferece a fenomenologia da fome sob a ótica da exclusão urbana e do racismo estrutural. A insegurança alimentar contemporânea, embora dotada de novas faces (como a obesidade por ultraprocessados), permanece como um instrumento de controle político e negligência estatal.

A fome no Brasil nunca foi um acidente de percurso ou uma fatalidade climática. Como bem pontuou Josué de Castro em meados do século XX, ela é um "produto de uma economia de exploração" (CASTRO, 1946). Quase na mesma época, Carolina Maria de Jesus escrevia, em papéis catados do lixo, que o Brasil era o "quarto de despejo" do mundo, onde a fome era a visitante mais assídua.

Em 2026, o Brasil atravessa um momento de reconstrução institucional, mas as cicatrizes desses dois autores permanecem expostas. O país, que figura como o maior produtor de grãos do planeta, ainda não resolveu o paradoxo de ter milhões de cidadãos em situação de insegurança alimentar moderada ou grave. A nutrição, portanto, não pode ser discutida apenas sob o viés bioquímico; ela é, essencialmente, uma ferramenta de soberania e justiça social.

Em sua obra seminal Geografia da Fome, Josué de Castro desafiou as elites brasileiras ao desnaturalizar a carestia. Ele categorizou a fome em duas frentes:

  1. Fome Total: A ausência completa de calorias (a fome que mata).
  2. Fome Oculta: A carência de micronutrientes essenciais (a fome que debilita).

Castro argumentava que o sistema de monoculturas exportadoras e o latifúndio criavam "zonas de fome" artificiais. No Brasil de hoje, essa tese se atualiza na crítica ao modelo de agronegócio hegemônico. Embora o PIB agropecuário sustente a balança comercial, ele frequentemente o faz à custa do encolhimento da diversidade produtiva local. A soja e o milho para exportação ocupam terras que poderiam produzir o arroz e o feijão da cesta básica, elevando os preços e empurrando a nutrição de qualidade para longe das classes populares.

Se Castro olhava para o mapa, Carolina olhava para o prato vazio. Em Quarto de Despejo, ela relata a "cor amarela" que a fome imprime na visão de quem não come há dias. A escrita de Carolina é a prova viva de que a fome tem gênero e raça: é a mulher negra e periférica quem primeiro sente o impacto da inflação dos alimentos.

"A democracia está perdendo os seus adeptos. No nosso país tudo é substituído. O povo está perdendo a paciência. [...] A fome é um professor muito cruel" (JESUS, 1960).

A atualidade de Carolina em 2026 reside na periferização da fome. Se o Plano Safra e os programas de transferência de renda são vitais, eles ainda lutam contra os "desertos alimentares" urbanos — regiões onde é mais barato e fácil comprar um macarrão instantâneo do que uma fruta fresca. A "fome amarela" de Carolina hoje veste a roupagem da desnutrição por ultraprocessados: calorias vazias que saciam momentaneamente, mas adoecem permanentemente.

Para facilitar a compreensão das continuidades e rupturas, a tabela abaixo sintetiza os eixos temáticos discutidos pelos autores e sua manifestação no presente:

Eixo Analítico

Josué de Castro (Perspectiva Técnica)

Carolina Maria de Jesus (Perspectiva Vivida)

Realidade Brasil 2026

Causa Primária

Estrutura latifundiária e monocultura.

Descaso estatal e exclusão urbana.

Financeirização de alimentos e crise climática.

Manifestação

Patologia social e deficiência nutricional.

Sofrimento físico, vergonha e revolta.

"Fome Oculta" e doenças crônicas (DANTs).

Solução Proposta

Reforma agrária e planejamento econômico.

Dignidade, trabalho e voz política.

Soberania alimentar e economia solidária.

A síntese entre Castro e Jesus nos ensina que não haverá democracia plena enquanto a nutrição for tratada como mercadoria e não como direito. O Brasil de 2026 precisa ir além da assistência. É necessário:

  • Taxação de Ultraprocessados: Desincentivar o consumo de "não-alimentos" que sobrecarregam o SUS.
  • Fortalecimento do PAA e PNAE: Garantir que a produção da agricultura familiar chegue às mesas das escolas públicas.
  • Reforma Agrária Popular: Proporcionar o acesso à terra como meio de baratear o custo da comida de verdade.

O diálogo entre Josué de Castro e Carolina Maria de Jesus revela que o combate à fome é uma guerra contra estruturas seculares. Castro nos deu o diagnóstico científico; Carolina nos deu o imperativo moral. No Brasil de 2026, a coluna "Nutrição como Política" reafirma que comer é um ato político. Superar a fome brasileira exige coragem para enfrentar os interesses que lucram com a escassez alheia e sensibilidade para ouvir os "diários" que ainda são escritos nas periferias do país.

Referências Bibliográficas 

ABREU, Alice R. de P. A atualidade de Josué de Castro. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2001.CASTRO, Josué de. Geografia da fome: o dilema brasileiro: pão ou aço. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1946.CASTRO, Josué de. Geopolítica da fome. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1953.JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Francisco Alves, 1960.REDE PENSSAN. II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia de COVID-19 no Brasil. São Paulo: Fundação Friedrich Ebert, 2022.SILVA, José Graziano da. O que é segurança alimentar. São Paulo: Brasiliense, 1985.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.