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Olímpio Cruz Neto

⁠Jornalista e analista de Risco Institucional e Geopolítica. Foi consultor do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) em Xangai, diretor de Relações Institucionais da GAC Brasil e secretário de Imprensa da Presidência da República

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A guerra mineral abre uma janela

"Como o Brasil pode transitar entre o Project Vault e o 15º Plano Quinquenal"

A guerra mineral abre uma janela (Foto: Freepik)

O “Project Vault”, anunciado pelo governo Donald Trump em 2 de fevereiro de 2026, com um fundo de US$ 12 bilhões para estoques estratégicos de minerais críticos, reposiciona o tema no centro da segurança econômica. O recado é objetivo: a disputa entre Estados Unidos e China entrou na fase de contratos, financiamento e comando de cadeia. Para o Brasil, isso não é assunto externo. É uma janela para reorganizar sua estratégia industrial usando um ativo que passou a ser tratado como infraestrutura.

O Brasil tem reservas, produção e potencial de expansão em lítio, nióbio, terras raras, cobalto e outros insumos ligados à transição energética, defesa e semicondutores. O problema é conhecido: exporta-se matéria-prima, importa-se tecnologia e valor agregado. A nova corrida por minerais tende a empurrar o país para um de dois papéis: fornecedor rápido para o estoque americano ou peça secundária em cadeias já integradas pela China no 15º Plano Quinquenal (2026–2030). Há alternativa: arbitragem de Estado, com regras e condicionalidades para transformar minério em capacidade produtiva e tecnologia.

A reunião ministerial em Washington, presidida por Marco Rubio em 4 de fevereiro, confirma que o novo padrão será compra orientada por política pública, combinada com financiamento e coordenação entre governo e empresas. Nesse cenário, presença protocolar e discurso genérico não servem. O Brasil precisa levar um pacote técnico com um princípio simples: acesso a minerais brasileiros depende de valor agregado no território nacional. Não se trata de “fechar portas”. Trata-se de definir o preço real do ativo: processamento, engenharia e conhecimento em território nacional.

Arbitragem de Estado, neste caso, não é palavra de efeito. É método de negociação. O Estado fixa parâmetros mínimos e usa licenças, concessões, crédito e incentivos para fazer valer metas verificáveis: separação e refino no Brasil, cadeia de fornecedores, treinamento de mão de obra, plantas industriais, centros de P&D e transferência tecnológica com cronograma e auditoria. Sem metas, “transferência” vira cláusula vazia. Com metas, vira fábrica, laboratório e emprego qualificado.

O projeto Serra Verde, em Goiás, é um alerta prático. Quando o ativo é considerado crítico, o capital aceita negociar condições. A questão não é comemorar o anúncio do dinheiro. É transformar esse dinheiro em padrão: o que será processado aqui, com qual tecnologia, em que prazo, sob quais exigências de conteúdo produtivo. Se o Brasil tratar cada operação como caso isolado, perde força. Se tratar como modelo, ganha escala.

Para isso, o país precisa de coordenação institucional. BNDES, Finep e FNDCT devem operar como eixo de uma política de adensamento tecnológico: financiar não só extração, mas separação, refino, metalurgia avançada, materiais, certificação, reciclagem e engenharia de processos. Se o Estado financiar apenas a parte primária, sustenta emprego de curto prazo e compra o valor agregado depois. O centro da política precisa ser a etapa em que o valor se concentra.

A disputa tem uma frente tarifária e uma frente financeira. Se 2026 consolidar tarifas e restrições como instrumentos de pressão, minerais críticos não podem virar moeda para resolver impasses pontuais. Isso é trocar futuro por alívio momentâneo. O Brasil precisa usar minerais como alavanca para negociar participação em cadeias industriais complexas e ampliar fontes de financiamento para projetos estratégicos, inclusive com o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), desde que a carteira esteja conectada a metas de indústria e tecnologia, com critérios e governança.

Esse é o ponto que muda o jogo: minerais críticos deixam de ser agenda setorial para se tornarem política de Estado. Isso exige governança para reduzir ruído e judicialização, integrar ministérios, agências e bancos públicos e dar previsibilidade às regras. Sem previsibilidade, não há industrialização; há corrida por concessões. Com previsibilidade, há planejamento, investimento e cadeia local.

A janela de 2026 não garante ganho automático. Mas é um intervalo raro: potências reorganizam cadeias, formalizam estoques e aceitam negociar condições. O Brasil pode ser disputado por volume, se aceitar o papel de exportador de rocha. Ou pode ser disputado por contratos que deixem tecnologia, processamento e indústria no país, se agir como árbitro do seu próprio ativo.

O Project Vault e o 15º Plano Quinquenal colocaram as cartas na mesa. O Brasil não precisa escolher lado. Precisa escolher método.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.