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Fábio Maia Sobral

Professor da UFC, economista com doutorado em Filosofia pela Unicamp. Analista econômico e geopolítico.

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A Guerra no Irã e as Supostas “Leis de Mercado”

Chegou a era de construir mecanismos de proteção de nossa população e de seu futuro. A procrastinação exigirá preço muito alto e causará sofrimento ao povo

É preciso fortalecer a indúistria nacional (Foto: Leonardo Lucena)

Desde 28 de fevereiro de 2026 acompanhamos os ataques promovidos pelos Estados Unidos e por Israel ao Irã. E também as duras respostas iranianas a esta agressão. Agressão que começou quando os Estados Unidos supostamente negociavam com o Irã, ou seja, uma trama ardilosa para tentar pegar as forças iranianas de surpresa. 

Esse conflito inaugura uma nova era das relações internacionais com reflexos profundos na vida econômica e social do mundo. O principal impacto é sobre o custo de duas das principais fontes de energia utilizadas na produção e na vida cotidiana: petróleo e gás. Mas não esqueçamos o colapso no fornecimento de fertilizantes, gás hélio (essencial para resfriamento de ímãs de supercondutividade, ressonância magnética, fabricação de supercondutores, solda industrial) e alumínio. 

O mundo se aproxima rapidamente de um colapso econômico de proporções inimagináveis. O setor já afetado é a aviação comercial. Os preços e a falta de querosene de aviação estão provocando milhares de cancelamentos de rotas. Serviços como aeroportos, hotelaria, turismo podem vir a seguir, afetados pela queda do número de deslocamentos. 

A redução dos embarques de fertilizantes pode provocar uma queda na produção de alimentos com uma crise alimentar mundial. 

A indústria eletrônica será afetada sem o gás hélio, com uma provável paralisação de suas atividades. 

O setor de seguros de viagens navais deve entrar em um processo recessivo. Isto afeta o preço das ações das companhias nas bolsas de valores, além de encarecer o custo do seguro e, consequentemente, dos preços das mercadorias transportadas pelos oceanos. As companhias de seguros representam cerca de 7% do PIB mundial. 

As receitas obtidas pelos países do Golfo Pérsico nas suas vendas desses produtos eram recicladas nas principais bolsas de valores do mundo. O planejamento desses países previa investir US$ 100 bilhões em projetos, infraestrutura e startups até 2030, sendo uma das principais fontes de alavancagem das empresas de alta tecnologia negociadas em bolsa. Os países do Golfo Pérsico se tornaram acionistas centrais na bolha especulativa que mantém em funcionamento a valorização das empresas de inteligência artificial (IA). 

Os impactos desta guerra estão ainda no começo e sua continuidade pode produzir situações catastróficas em múltiplos níveis. 

Do ponto de vista econômico podemos observar que a teoria tradicional, que afirma que os preços são formados por mercados livres e em concorrência perfeita, naufraga sem deixar vestígios. 

Os preços estão sendo formados não em liberdade de mercado, mas em movimentos geopolíticos profundos, que estão alterando os centros de poder mundial. 

O Brasil precisa compreender essa nova dinâmica. É preciso eliminar as ideias de que: a) setores estratégicos devem ser privatizados; b) podemos abrir mão de uma indústria forte e de alta tecnologia; c) de que podemos contar com o fornecimento de nossos bens com uma confiança plena na regularidade das compras internacionais. 

Chegou a era de construir mecanismos de proteção de nossa população e de seu futuro. A procrastinação nessa compreensão exigirá um preço muito alto e causará profundo sofrimento ao nosso povo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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