A lista suja da educação chinesa
Pequim redefine seu sistema educacional com 20 proibições que visam aliviar pressões e eliminar discriminações, abusos e esquemas ilícitos
Um vídeo de uma estudante do ensino médio sendo espancada por quatro colegas na saída da escola viralizou há alguns dias nas redes sociais chinesas. O caso chocou pelo nível de violência das adolescentes e, além disso, pela atitude negligente da escola na cidade de Dali, província de Yunnan, que tentou ocultar o ocorrido meses antes, especificamente em 11 de dezembro de 2025. Até hoje, ninguém sabe dizer o que provocou mais indignação.
O que parece mais claro é que a comoção pública causada pelo escândalo foi aproveitada politicamente para acelerar a entrada em vigor da Lista Negativa para a Gestão da Educação Básica 2026, um programa que pretende organizar o sistema educacional com 20 novas linhas vermelhas que escolas e professores não devem ultrapassar nem em sonho.
A lista negra, como foi apelidada pelos meios de comunicação chineses, representa uma normativa rigorosa que vem evoluindo ao longo dos anos, considerando que a versão atual de 20 proibições amplia as 16 de 2025 e as modestas 12 de 2024.
As regulamentações estritas têm um duplo objetivo: aliviar a pressão sobre os estudantes e eliminar irregularidades arraigadas em creches, escolas primárias e nos primeiros anos do ensino secundário. “As normas traçam limites muito precisos, abrangendo desde a transparência na gestão até a segurança que deve ser garantida em todo o ambiente escolar”, afirmaram fontes do Ministério da Educação.
Linhas vermelhas
As proibições não são interpretadas como um regulamento. Elas são lidas como uma radiografia. Do que sobra, do que falta e, sobretudo, do que se tolera.
A primeira preocupação é a sobrecarga. Durante anos, estudar na China foi uma prova de resistência. Agora, ao menos no papel, isso deveria mudar. Nada de conteúdos fora do currículo oficial, nada de aulas prolongadas, nem fins de semana transformados em extensões da sala de aula.
As tarefas escolares deixam de ser punição — uma inovação em si — e os intervalos voltam a ser intervalos: ninguém deveria ficar preso na sala quando a proposta é descansar fora dela. Até mesmo disciplinas que a obsessão por exames havia relegado ao esquecimento, como arte ou educação física, recuperam um espaço que nunca deveriam ter perdido. A questão, claro, é quanto disso sobreviverá à cultura chinesa de desempenho extremo.
Outras regulamentações direcionam seus esforços ao campo de batalha da sala de aula — ou, mais precisamente, ao que acontece dentro dela. A lista proíbe o que, na prática, nunca deveria ter sido permitido: violência entre alunos, castigos físicos, humilhações públicas ou abusos verbais. Também combate a discriminação, embora nem todas as suas formas sejam igualmente visíveis.
A isso se soma um forte alerta ético: professores não poderão monetizar sua posição, seja por meio de transmissões ao vivo, plataformas pagas ou qualquer outro mecanismo que transforme o ensino em um negócio paralelo. Ensinar, parece dizer a norma, não deveria ser uma fonte de renda extra.
Outra questão difícil de resolver é a competição em torno do ingresso dos estudantes. As escolas não poderão aplicar exames de admissão nem selecionar alunos com base em certificados, prêmios ou cursos extracurriculares. Em outras palavras, tenta-se desmontar, ao menos formalmente, uma máquina meritocrática que transforma cada matrícula em uma corrida antecipada de pressões e frustrações.
Também não será permitido pressionar famílias a comprar livros, dispositivos ou materiais por meio de canais “sugeridos”, uma prática tão difundida quanto discretamente lucrativa. A educação obrigatória não deveria vir acompanhada de custos ocultos.
Como costuma ocorrer na China, há também regulações mais difíceis de assimilar para um observador estrangeiro. Não se trata apenas de quanto os alunos estudam, mas do que podem pensar — ou, mais precisamente, do que não devem. Fica proibido qualquer conteúdo que questione o Partido Comunista da China (PCCh), o socialismo, seus líderes ou a narrativa histórica oficial. Não importa o formato: aulas, exames, livros, fóruns ou plataformas digitais — tudo segue a mesma lógica. Para o Ocidente, a palavra que surge rapidamente é censura. Na China, por outro lado, isso é apresentado como uma forma de ordem e, sobretudo, de coerência educacional explícita.
Aprovado, mas…
Embora as 20 proibições representem um reconhecimento implícito de problemas, a China chega a esse novo ciclo de reformas com uma avaliação positiva em educação, segundo destacou o ministro da área, Huai Jinpeng, ao apresentar os resultados do 14º Plano Quinquenal (2021–2025).
“Em nível global, o sistema educacional da China é o maior e de maior qualidade, o que garante firmemente que as gerações mais jovens tenham acesso equitativo à educação”, declarou Huai, lembrando que o país conta com 440 mil escolas de todos os níveis, 280 milhões de estudantes e 18,7 milhões de professores.
A educação básica chinesa — informou o ministério — alcançou o nível médio dos países de alta renda, e 2.895 localidades distritais atingiram desenvolvimento equilibrado no ensino obrigatório. A taxa bruta de matrícula na educação pré-escolar chegou a 92%, superando a meta de 90%, enquanto o ensino superior atingiu 60,8%, também acima do objetivo de 60%.
Em termos de investimento social, o Estado ampliou subsídios para estudantes de baixa renda, destinando mais de 1,2 trilhão de yuans (cerca de 169 bilhões de dólares) a 630 milhões de beneficiários entre 2021 e 2024. As universidades chinesas formaram mais de 55 milhões de pessoas nesse período e receberam mais de 75% dos prêmios nacionais em ciências naturais e inovação tecnológica.
O ministro destacou especialmente os avanços das universidades em áreas como ciências da vida, tecnologia quântica, inteligência artificial, ciência dos materiais e exploração espacial. A China também construiu a maior plataforma de educação inteligente do mundo, oferecendo serviços de alta qualidade a mais de 170 milhões de usuários em mais de 200 países e regiões.
No plano internacional, o país estabeleceu cooperação educacional com 183 nações e regiões, firmou acordos de reconhecimento de diplomas com 61 países e colaborou com 42 nações na operação de instituições e programas conjuntos. A Unesco também instalou em Xangai seu Instituto Internacional para a Educação em CTIM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) em setembro de 2025, reconhecendo explicitamente a liderança chinesa nessas áreas.
Pequim, portanto, não parte do zero. Chega a 2026 com estatísticas impressionantes, um sistema educacional invejado por muitos e um grupo de autoridades acostumadas a exibir números recordes. Mas o caso de Dali — da adolescente agredida em uma escola que preferiu ignorar o ocorrido — serviu como lembrete de que números frios não salvam ninguém.
Por isso, as 20 proibições não são um simples ajuste técnico. A lista negra é uma declaração de guerra. E na China, isso nunca é apenas metáfora.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



