Fernando Capotondo avatar

Fernando Capotondo

Jornalista argentino. Chefe de redação da revista Contraeditorial e diretor do site cultural Llibres

34 artigos

HOME > blog

Paris não foi uma festa: China colocou os EUA sob escrutínio

O ruído persiste

Scott Bessent e He Lifeng (Foto: Xinhua)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Para além da versão oficial sobre as recentes conversas comerciais, Pequim considerou que houve apenas um “consenso preliminar sobre certos assuntos”, apresentou “sérias queixas” a Washington e expôs sua posição sobre o adiamento da cúpula Xi-Trump.

Quando as delegações da China e dos Estados Unidos se sentaram à mesa em Paris, os comunicados oficiais falaram em diálogos “francos, profundos e construtivos”. As qualificações, um clássico do jargão diplomático, sugeriam que tudo esteve sob controle durante o encontro de dois velhos parceiros de negócios. Mas, nas entrelinhas, nos corredores e sobretudo nas declarações posteriores, surgiu outro enredo: o de um parceiro comercial que já não se contenta em ser mero espectador.

Porque, se algo ficou claro nas reuniões de 15 e 16 de março na capital francesa — a sexta rodada de consultas econômicas e comerciais bilaterais desde maio do ano passado — é que Pequim decidiu levar sua própria calculadora e deixar de confiar nos números desenhados em Washington.

O vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng chegou a Paris com um roteiro que seus interlocutores americanos — o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o representante comercial, Jamieson Greer — certamente conheciam de memória. A China valoriza o diálogo e respeita a “orientação estratégica” acordada nas reuniões anteriores entre Xi Jinping e Donald Trump. Mas também tem memória, tão vasta quanto seu território.

E a memória, neste caso, registra que a Suprema Corte dos EUA declarou ilegais as tarifas que Donald Trump impôs invocando a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional. Registra que, apesar disso, Washington aplicou uma sobretaxa adicional de 10% às importações de todos os seus parceiros comerciais sob a Seção 122 da Lei de Comércio de 1974. E registra, sobretudo, que os Estados Unidos lançaram investigações com base na Seção 301 contra 60 economias — incluindo a China — acusando-as de ter “excesso de capacidade” e permitir “trabalho forçado”.

Nesse último ponto, Pequim não se limitou a responder: apresentou “sérias queixas” e expressou sua “grave preocupação” com esse tipo de investigação unilateral. Não foi uma fórmula retórica, mas uma forma de elevar o tom sem romper a mesa de diálogo. “A China tomará as medidas necessárias para salvaguardar firmemente seus direitos e interesses legítimos”, afirmou He Lifeng. A frase, destacada pela agência chinesa Xinhua, não foi um adorno, mas o núcleo da mensagem.

Horas depois, outro funcionário do Ministério do Comércio chinês, Li Chenggang, elogiou as consultas realizadas entre as equipes técnicas e destacou que haviam alcançado “um consenso preliminar sobre certos assuntos”. A expressão, aparentemente inofensiva, continha uma chave que os comunicados oficiais não dissiparam totalmente. Falar apenas em consenso preliminar sobre certos assuntos não é o mesmo que destacar um acordo geral. Aí reside o abismo.

Curiosamente, enquanto a atenção se concentrava na mesa de negociações em Paris, o Ministério do Comércio chinês divulgava em Pequim um comunicado de dureza incomum para o contexto. “Instamos os Estados Unidos a corrigirem imediatamente seus erros”, dizia o texto, após destacar que a investigação sob a Seção 301 é “unilateral, arbitrária e discriminatória” e constitui “um erro sobre outro erro” que mina as cadeias globais de suprimento.

Na mesma linha, Pequim lembrou que a República Popular da China é um dos membros fundadores da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificou 28 convenções internacionais e possui um sistema abrangente de leis trabalhistas para prevenir o trabalho forçado e outras práticas ilegais.

Também argumentou que os Estados Unidos não ratificaram a Convenção sobre o Trabalho Forçado de 1930 e, ainda assim, utilizam o tema como ferramenta política. Sob essa lógica, a investigação da Seção 301 não seria apenas uma medida comercial, mas uma tentativa de erguer novas barreiras, “extremamente unilateral, arbitrária e discriminatória”, segundo destacou o jornal oficial chinês Global Times.

Para entender Paris, convém olhar o tabuleiro completo. China e Estados Unidos conversam há quase um ano. Desde a primeira rodada em Genebra, em maio de 2025, passando por Londres, Estocolmo, Madri e Kuala Lumpur, alcançaram acordos pontuais: a suspensão de tarifas adicionais de 24%, um consenso-quadro sobre o TikTok, a ampliação do comércio agrícola e avanços na cooperação contra o fentanil.

Mas alguns acordos, afirma Zhou Mi, pesquisador sênior da Academia Chinesa de Comércio Internacional e Cooperação Econômica, “ainda não se transformaram em resultados formais”. Em outras palavras: há consensos verbais que nem sempre se traduzem em fatos concretos.

“A China conta com um ambiente estável e previsível para o investimento”, aponta Daryl Guppy, ex-membro do Conselho Empresarial Austrália-China. “Mas isso deve se estender às áreas comuns de cooperação. E isso requer uma decisão política por parte dos Estados Unidos”, acrescenta.

Talvez por isso o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, tenha escolhido cuidadosamente suas palavras em uma coletiva dias antes da cúpula de Paris. “Nenhuma das partes pode mudar a outra, mas podemos escolher como queremos nos relacionar”, disse. Tradução: não vamos pedir permissão, mas podemos conversar.

O encontro de Paris terminou com um comunicado conjunto que fala em “novos consensos”, avanços “significativos” e o compromisso de “seguir consultando”. Também menciona a possibilidade de estabelecer um mecanismo de cooperação para fomentar o comércio e o investimento bilaterais. Nos Estados Unidos, falou-se em “um passo modesto, mas significativo”, segundo informou o correspondente em Washington do China Daily. Tudo soa como um plano. Outra coisa é funcionar.

No final, outro sinal de alerta surgiu com o adiamento da cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump, prevista para o fim de março. Inicialmente, Financial Times e The New York Times relacionaram o fracasso do encontro à negativa chinesa de aderir à estratégia americana no estreito de Ormuz. Diante disso, a reação inicial de Pequim foi um sugestivo silêncio, até que o porta-voz do governo, Lin Jian, afirmou que os rumores jornalísticos eram “completamente falsos”, desmentido posteriormente compartilhado em Washington pelo próprio Scott Bessent.

Mas o ruído persiste.

Enquanto isso, o país asiático continua tomando nota — das investigações unilaterais, das tarifas, das sanções e também das promessas. “A China se reserva o direito de tomar todas as medidas necessárias para salvaguardar firmemente seus direitos e interesses legítimos”, repetiu o Ministério do Comércio. A frase apareceu duas vezes.

Na nova geopolítica comercial, as conversas deixaram de ser apenas um espaço de entendimento para se tornarem um mecanismo de registro. O que se diz importa. Mas o que se anota, mais ainda. China e Estados Unidos falaram em Paris. Disseram que foi construtivo. Pode ser. Embora, a esta altura, o termo “construtivo” pareça significar apenas que ninguém se levantou da mesa.

A diferença é que Pequim já não interpreta a cena. Ela a documenta. E, quando necessário, a transforma em queixa. Não para encerrar a negociação, mas para redefini-la. Porque, nesta etapa — e na melhor tradição chinesa — negociar também é decidir quem define o sentido do que está sendo dito.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados