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Fernando Capotondo

Jornalista argentino. Chefe de redação da revista Contraeditorial e diretor do site cultural Llibres

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Duas Sessões: China transforma a IA em infraestrutura estratégica

A IA chinesa já não é o futuro, mas o presente

Duas Sessões: China transforma a IA em infraestrutura estratégica (Foto: Diário do Povo)

A Inteligência Artificial dominou as Duas Sessões, com mais de 7.000 iniciativas e sugestões vinculadas ao setor. O objetivo de Pequim é transformá-la em base tecnológica para gerar uma indústria de 1,45 trilhão de dólares ao final do XV Plano Quinquenal.

Quando o ministro da Indústria e Tecnologia da Informação, Li Lecheng, se colocou diante da imprensa no Grande Salão do Povo, muitos esperavam que falasse sobre o rumo econômico, o PIB ou novos investimentos. Em vez disso, destacou que o setor chinês de Inteligência Artificial já vale mais de 1,2 trilhão de yuans (cerca de 174 bilhões de dólares), reúne mais de 6.200 empresas e ultrapassa 300 produtos robóticos humanoides. A declaração teve contexto. Durante as Duas Sessões — a reunião anual da Assembleia Popular Nacional e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês —, a IA não foi apenas mais um tema da agenda, mas um dos assuntos centrais, com mais de 7.000 propostas de legisladores para desenvolver as chamadas novas forças produtivas de qualidade.

Por trás dos anúncios oficiais, porém, os números começaram a contar outra história: uma transformação estrutural. O país asiático caminha para encerrar o XV Plano Quinquenal (2026–2030) com uma estratégia que prevê que as indústrias ligadas à IA ultrapassem 10 trilhões de yuans (aproximadamente 1,45 trilhão de dólares). Isso significaria multiplicar o setor por oito em apenas cinco anos. Para efeito de comparação, apenas 17 países possuem atualmente um PIB superior a esse valor. Pequim busca, assim, transformar a IA em uma nova infraestrutura estratégica, em um momento em que a tecnologia se tornou um dos principais campos de competição entre as grandes potências.

Enquanto a China registra cerca de três quintos das patentes mundiais de IA e dois terços das patentes em robótica, o governo introduziu o conceito de “novas formas de economia inteligente”, uma mudança terminológica que, segundo analistas, marca um ponto de inflexão na estratégia tecnológica do país. Na prática, isso coloca a China no centro da corrida tecnológica global.

Para compreender a dimensão da mudança, basta lembrar que, embora a iniciativa “IA Plus” tenha sido lançada em 2024, a partir de 2026 a tecnologia deixará de ser apenas uma ferramenta setorial para se tornar a própria estrutura do modelo econômico chinês.

Até 2030, a IA será utilizada para impulsionar a ciência básica, transformar indústrias tradicionais e de ponta, criar novos cenários de consumo, inovar a governança e melhorar a vida cotidiana, segundo estabelece o XV Plano Quinquenal, que ainda está em seus primeiros passos. A centralidade da tecnologia também se reflete nos recursos destinados ao setor. Para os próximos cinco anos, a China pretende aumentar em cerca de 10% o orçamento anual voltado à ciência e tecnologia e elevar em pelo menos 7% os investimentos em pesquisa e desenvolvimento. O plano menciona o termo “inteligência artificial” mais de 50 vezes, indicando seu papel central na estratégia econômica nacional.

Os números sustentam o otimismo oficial. Segundo a plataforma OpenRouter, três modelos chineses — MiniMax, Moonshot e DeepSeek — estão entre os cinco mais utilizados do mundo. A chave, afirmam especialistas do setor, é uma relação custo-benefício que nenhum concorrente consegue igualar.

Zhou Li’an, professor da Universidade de Pequim e membro da Conferência Consultiva, afirma que a “economia inteligente” não é um novo setor, mas a própria base do sistema econômico. A Inteligência Artificial estaria reorganizando internamente a forma como bens são produzidos e distribuídos. Se a infraestrutura digital é o sistema nervoso, a IA é o cérebro, descreveu um analista citado pelo Diário do Povo.

No plano concreto, as províncias já começaram a se movimentar. “Com recursos abundantes e demanda crescente, regiões como Sichuan e o município de Chongqing estão bem posicionadas para desenvolver indústrias de computação inteligente dentro da estratégia nacional ‘Dados do Leste, Computação do Oeste’”, afirmou Ma Kui, legislador e gerente-geral da filial da China Mobile na província de Sichuan.

A escala da expansão já impressiona. O poder computacional da região da Mongólia Interior alcançou 220.000 PetaFLOPS, enquanto Guizhou atraiu mais de 150 parceiros do ecossistema de nuvem da Huawei.

Pela primeira vez, o relatório de governo incluiu medidas específicas para promover o emprego em resposta ao avanço tecnológico, refletindo expectativas de integração mais profunda da IA na economia e na sociedade. Liu Zhi, do Centro Nacional de Informação, interpretou a medida como a aplicação do princípio “IA para o bem”, orientando a tecnologia para um desenvolvimento benéfico, seguro e justo.

A governança também esteve em debate. O XV Plano Quinquenal destaca esforços para fortalecer o diálogo e a cooperação internacional em IA, além de acelerar a construção de um ecossistema tecnológico de código aberto com alcance global. Zhou Di, legislador e especialista do setor, afirmou que desafios como barreiras tecnológicas, fluxos transfronteiriços de dados e governança ética “exigem maior cooperação internacional, para que os benefícios do progresso tecnológico alcancem mais países e ajudem a enfrentar os desafios da humanidade como um todo”.

O ministro Li Lecheng foi direto ao abordar o tema: “A IA deve, em última instância, servir às pessoas, beneficiar as pessoas e permanecer sob controle humano”. Dias depois, um porta-voz do Ministério da Defesa declarou que “a primazia humana nas aplicações militares de IA deve ser preservada e todos os sistemas de armas relevantes devem permanecer sob controle humano, para evitar uma corrida tecnológica descontrolada”. A aposta na IA é forte, mas com limites, reafirmando o desenvolvimento pacífico em meio à crescente volatilidade global.

Além do debate político em Pequim, a revolução já avança no setor corporativo. Qian Gang, presidente do conselho do CITIC Pacific Special Steel Group e assessor político nacional, revelou que sua empresa desenvolveu mais de 100 modelos verticais de IA para apoiar a manufatura inteligente. Como resultado, uma de suas plantas tornou-se a primeira “fábrica farol” da indústria global de aço especial — reconhecimento concedido pela Organização Mundial de Economia Digital a instalações industriais de ponta que exemplificam o uso avançado de tecnologia.

Liu Qingfeng, presidente da iFlytek, resumiu ao afirmar que “o progresso de longo prazo depende da autossuficiência tecnológica” e que “a segurança real não vem da adaptação de sistemas importados”. Ele acrescentou que “surgirão assistentes mais avançados em forma de óculos, relógios, centros domésticos, dispositivos de mesa e robôs, todos conectados a uma camada de inteligência compartilhada”.

As administrações provinciais já haviam sinalizado antes das Duas Sessões que o debate deixou de ser apenas sobre crescimento econômico e passou a focar direção estratégica. Em um mundo em que a tecnologia se tornou instrumento de poder, a direção importa tanto quanto a velocidade. A China parece ter decidido ambas.

A IA chinesa já não é o futuro, mas o presente. Tem valor econômico, tem patentes e agora também possui um plano quinquenal. Na nova geopolítica tecnológica, Pequim busca que o cérebro da economia global pense, sinta e fale mandarim.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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