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Fernando Capotondo

Jornalista argentino. Chefe de redação da revista Contraeditorial e diretor do site cultural Llibres

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O chá virou negócio — e a China não deixa esfriar

Como produtor de 45% do chá mundial, China reinventa sua indústria mais tradicional com usos inimagináveis da matéria-prima e um conceito de "chá inteligente"

Trabalhadora em colheita de chá na China (Foto: Xinhua)

"Não me interessa a imortalidade, apenas o sabor do chá". A frase resume o espírito do "Poema das Sete Xícaras de Chá", que o mestre Lu Tong escreveu nos tempos da dinastia Tang (618-907 d.C.), um dos períodos mais brilhantes da história chinesa. Recluso durante anos nas montanhas de Henan, o poeta descobriu que o imenso prazer que sentia diante de uma xícara, quase fervendo como se preparava então, lhe dava uma sensação de transcendência que nenhuma outra experiência terrena conseguia proporcionar.

Mais de mil anos depois, enquanto os versos de Lu continuam definindo a alma da cultura chinesa, o país decidiu apostar forte na reindustrialização dos extratos do chá — polifenóis, catequinas, óleos essenciais e compostos bioativos —, como ingredientes centrais de um circuito produtivo que opera longe daquelas xícaras fumegantes do passado.

Produtos químicos de uso cotidiano, soros antioxidantes, detergentes biodegradáveis, suplementos metabólicos, bebidas, cosméticos e alimentos saudáveis são apenas alguns dos setores que se beneficiarão com essa expansão do uso das matérias-primas e componentes do chá, segundo as previsões do Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação e outros 4 departamentos governamentais. Para os especialistas chineses, a imagem do chá já não remete a camponeses curvados em uma plantação interminável, mas a um biotecnologista de jaleco em um laboratório silencioso.

Como repete o governo em seus documentos oficiais, a meta é fortalecer a inovação científico-tecnológica do chamado "chá inteligente", um sistema produtivo que hoje utiliza sensores 5G nas áreas de cultivo, robôs coletores com visão artificial e códigos QR que permitem ao consumidor saber de qual encosta veio seu chá e até quais fertilizantes foram usados no cultivo. "A cerimônia do chá agora conversa com a nuvem e ninguém parece se escandalizar", admitem de Pequim, nessa mistura tão chinesa de orgulho tecnológico e melancolia cultural.

No ano passado, os números acompanharam essa nova tendência. A China foi um dos principais fornecedores de extratos de chá, em um mercado global avaliado entre 3 e 4,7 bilhões de dólares, com uma taxa de crescimento anual entre 7,7% e 8,2% até 2030, segundo estimativas do setor levantadas pelo Tea Extracts Market. Esses números dialogam com o protagonismo que a China tem hoje no cenário internacional, como produtora de quase 45% do chá mundial, com 75% do volume concentrado em chá verde, 20% em chá preto e 5% no chamado oolong.

Nada disso ocorre por iluminação tardia de algum funcionário. Por trás da digitalização dos cultivos e da diversificação dos extratos está presente a "mão visível" de um rígido planejamento estatal que conduz todos os setores da economia. Precisamente nesse contexto se insere o recente anúncio das "Diretrizes para a Melhoria e Atualização da Indústria do Chá 2026-2030", que pretende alcançar nesse período nada menos que 1,5 trilhão de yuans, o equivalente a cerca de 217 bilhões de dólares.

O plano estabelece uma série de metas que têm como ponto de partida o ano de 2025, quando a indústria do chá na China atingiu um valor de US$ 145 bilhões em toda a sua cadeia industrial, com mais de 60 milhões de pessoas empregadas no setor e receitas das empresas de processamento superiores a 17 bilhões de dólares. Como meta intermediária para 2028, a intenção é desenvolver 5 setores industriais com receitas anuais de quase US$ 15 bilhões cada, e um grupo de empresas líderes com lucros superiores a 7 bilhões de dólares. Em qualquer outro país, seria um programa de várias décadas. Na China, apenas um lustro.

Para atingir esses objetivos, o documento estrutura 19 tarefas-chave em torno de 6 áreas estratégicas, que buscarão impulsionar a criação de fábricas inteligentes com inteligência artificial e fomentar a "segunda transformação" de produtos voltados para os consumidores mais jovens.

No Fórum Internacional de Consumo Haihe, realizado no ano passado em Tianjin, o cofundador da Chi Forest, Wang Pu, contou uma anedota reveladora. Em 2023, sua empresa de bebidas saudáveis lançou um produto com ingredientes da medicina tradicional que, só nos primeiros meses, conseguiu vender cerca de 14 milhões de dólares, tornando-se "um dos novos produtos de crescimento mais rápido" do mercado, segundo reconheceu o empresário à agência de notícias Xinhua.

No mesmo cenário, o diretor-geral do Boston Consulting Group, Roger Hu, explicou que até a hidratação pode se tornar uma boa estratégia de posicionamento: "Se partirmos do princípio de que um consumidor bebe 8 copos de água por dia para se manter alerta, relaxar, socializar e encurtar distâncias, não é absurdo propor que cada um desses copos pode ser ocupado por uma versão diferente de chá — engarrafado, com gás, enriquecido com ingredientes funcionais ou apresentado como alternativa saudável às bebidas açucaradas". E o mercado sabe disso.

Do lado de fora, as possibilidades também parecem ilimitadas, como vem demonstrando o desembarque de diferentes marcas no mercado americano, com estética pop e filas de clientes que já não distinguem turistas de consumidores locais, enquanto a concorrência observa. A MIXUE Ice Cream & Tea se instalou há meses em Hollywood, a Heytea passou de 2 para 35 lojas em apenas um ano, a Molly Tea abriu 5 unidades e a Chagee inaugurou outras 2 na área de Los Angeles em menos de 3 meses.

Por trás dessa expansão comercial — tão silenciosa quanto eficaz — se desenha uma narrativa diferente da que costuma circular em muitos países do Ocidente, onde o chá chinês ainda é associado a antigas cerimônias de vapor silencioso. As folhas que acompanharam o poeta Lu Tong hoje se multiplicam em sensores, códigos QR e franquias americanas, como se o tempo fosse uma atualização de software.

Quando se trata de se reinventar, a China não toma com calma nem mesmo seu milenar chá. E muito menos o negócio que o cerca. Porque por trás de cada folha há algo mais do que antioxidantes. Há Estado.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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