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Fernando Capotondo

Jornalista argentino. Chefe de redação da revista Contraeditorial e diretor do site cultural Llibres

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A IA constrói seu futuro no Ano Novo chinês

Gigantes tecnológicos testam modelos de IA na maior festa de consumo do planeta, com o milenar "hongbāo" como peça-chave. Os bilhões em jogo

A IA constrói seu futuro no Ano Novo chinês (Foto: Xinhua)

Enquanto a China se prepara para celebrar mais um Ano Novo Lunar, conhecido como Festa da Primavera, com seus já habituais recordes de viagens e compras, a ancestral tradição de presentear com envelopes vermelhos contendo dinheiro, o hongbāo, transformou-se no novo campo de batalha dos gigantes tecnológicos. O que está em jogo não é pouco: trata-se do controle de uma nova forma de acesso ao consumo digital em um país que supera 515 milhões de usuários de ferramentas inteligentes. Para empresas como Tencent, Alibaba, Baidu e ByteDance, o hongbāo digital deixou de ser um simples ritual modernizado e passou a funcionar como uma porta de entrada para um negócio que, apenas neste próximo festejo, movimentará centenas de bilhões de yuans por meio de cerca de 50 bilhões de envios, segundo as estimativas mais conservadoras.

Nessa disputa, em que a boa fortuna antes invocada por meio dos ancestrais hoje parece depender de algoritmos, o pesquisador da Academia de Ciências Sociais de Pequim, Wang Peng, alerta que a corrida tecnológica de 2026 não se decide apenas no aprimoramento dos modelos de IA, mas em algo mais ambicioso. O verdadeiro objetivo, afirma, é transformar essas ferramentas em portas de acesso à vida digital cotidiana. “A disputa para se tornar essa ‘superporta’ é estratégica”, declarou ao jornal Global Times, porque quem conseguir instalar o hábito de consultar primeiro a Inteligência Artificial garantirá uma posição privilegiada na próxima etapa da internet.

“Neste momento”, explicou Wang, “as grandes empresas de tecnologia trabalham em agentes de IA voltados ao consumidor a partir das vantagens de seus próprios ecossistemas”. É aí que entram as buscas do Baidu (o Google chinês), a rede social WeChat (semelhante ao WhatsApp), os vídeos curtos do Douyin (TikTok) e o comércio eletrônico do Alibaba, plataformas que já concentram grande parte da vida cotidiana e agora aspiram a ocupar um espaço ainda mais central.

Em um país com mais de 1,4 bilhão de habitantes, a dimensão do negócio em disputa ficou evidente com o recorde alcançado pelo Yuanbao, o chatbot de IA da Tencent, que saltou em um único dia para o primeiro lugar entre os aplicativos gratuitos da Apple após se adiantar no lançamento de sua campanha de hongbāo de Ano Novo. A empresa anunciou que distribuirá até 1 bilhão de yuans, cerca de 144 milhões de dólares, em envelopes vermelhos digitais, com prêmios que podem chegar a 10 mil yuans.

Segundo explicou o fundador da Tencent, Pony Ma Huateng, o objetivo foi recriar o impacto da campanha do WeChat em 2015, quando a plataforma distribuiu 500 milhões de yuans em envelopes vermelhos durante a Gala de Ano Novo. Aquela iniciativa acabou por consolidar a empresa como um dos atores centrais do então incipiente mercado de pagamentos móveis.

A concorrência não ficou atrás em um 2026 que muitos analistas já descrevem como o ano dos aplicativos de Inteligência Artificial. O Ernie, assistente de IA do Baidu, anunciou que seus usuários poderão compartilhar 500 milhões de yuans em envelopes vermelhos. O Qianwen, do Alibaba, distribuirá recompensas de centenas de milhões de yuans. O Doubao, da ByteDance, lançará funções interativas especiais durante a Gala da Festa da Primavera, um dos eventos televisivos mais assistidos do planeta, com mais de 800 milhões de espectadores. A dúvida, segundo especialistas em marketing digital, é se essas campanhas conseguirão gerar tráfego genuíno e fidelização além do incentivo econômico imediato.

Muito antes de se tornar um gesto digital, o hongbāo foi um rito carregado de simbolismo. Sua origem remonta à China imperial, quando as famílias amarravam moedas com fio vermelho para proteger as crianças do espírito maligno Sui durante a virada do ano. Com o tempo, aquelas moedas deram lugar aos envelopes de papel vermelho, cor associada à prosperidade, à energia vital e à boa sorte. Entregar um hongbāo nunca significou apenas dar dinheiro, mas transmitir bênçãos, respeito e continuidade familiar em uma sociedade em que os vínculos têm tanto peso quanto as palavras.

Embora a Festa da Primavera seja seu cenário mais visível, o hongbāo não se limita ao Ano Novo. Ele aparece em casamentos, nascimentos, aniversários, inaugurações de negócios e visitas aos mais velhos, seguindo regras não escritas que sobrevivem mesmo em sua versão digital. Valores pares, cédulas novas, uma recusa simbólica antes de aceitar e a superstição intacta de evitar o número quatro, associado à morte. A chegada de plataformas como WeChat e Alipay não apagou essas normas, mas as reconfigurou. O envelope deixou de passar de mão em mão e passou a circular por chats, grupos e campanhas promocionais, até se transformar em uma ferramenta central do marketing digital e, agora, também na porta de entrada para as novas plataformas de IA.

Nada disso ocorre por acaso. A Festa da Primavera, celebrada neste ano em 17 de fevereiro, ativa a maior migração humana do planeta. As autoridades estimam que, durante esse período de alta temporada, serão realizadas cerca de 9,5 bilhões de viagens inter-regionais, um recorde absoluto impulsionado pela combinação de encontros familiares, turismo interno e férias prolongadas. Oito em cada dez deslocamentos ocorrerão em veículos particulares, enquanto o sistema ferroviário espera transportar 540 milhões de passageiros e o transporte aéreo outros 95 milhões, em uma operação logística que se estenderá até meados de março.

Paralelamente, o governo chinês lançou uma campanha especial para estimular o consumo durante os nove dias de feriado, com descontos, subsídios e promoções que vão da gastronomia e do turismo aos eletrodomésticos, ao entretenimento e à renovação do lar. A aposta é aproveitar a maior concentração anual de viagens, pagamentos e encontros para reativar a demanda interna e dinamizar um ecossistema de consumo cada vez mais digitalizado, no qual o envelope vermelho, real ou virtual, volta a funcionar como gatilho econômico.

Assim, enquanto centenas de milhões de famílias se reencontram ao redor de uma mesa, a antiga promessa de boa fortuna muda de formato. O vermelho continua o mesmo, mas agora a sorte viaja pela nuvem, é distribuída em tempo real e responde a uma lógica que já não passa de mão em mão, e sim por plataformas digitais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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