"Projeto 101", a arma da China na corrida da IA
Por trás de suas patentes de IA, Pequim desenvolve uma reforma educacional que alcança 5 milhões de estudantes de 77 universidades
As informações divulgadas pela China sobre seus avanços em Inteligência Artificial costumam destacar que o país concentra cerca de 60% das patentes generativas globais, conta com mais de 5.300 empresas do setor (15% do total mundial), detém o recorde de mais de 1.500 grandes modelos e possui desenvolvimentos de código aberto, como o Deep Seek, capazes de disputar a liderança com as principais plataformas ocidentais. No entanto, uma questão que, por algum motivo, passa despercebida é a silenciosa revolução impulsionada pelo chamado “Projeto 101”, uma profunda reforma curricular do ensino universitário que hoje tem a IA como seu eixo estratégico indiscutível. “A China está fazendo a diferença”, reconheceu o cientista norte-americano John Edward Hopcroft, vencedor do Prêmio Turing de 1986 e uma das figuras centrais da informática moderna.
Hopcroft fez a afirmação durante a recente inauguração do Festival de Arte de IA de Hong Kong, onde sustentou que “os estudantes chineses têm a vantagem de viver em um país que aposta na educação em IA e compartilha todas as informações online para que os alunos possam acessá-las, assim como os professores e qualquer outra pessoa interessada”.
“As universidades chinesas contam com muitos dos melhores estudantes do mundo”, insistiu o acadêmico, que tem um histórico conhecido no país asiático, já que não apenas apoiou o Projeto 101 lançado pelo Ministério da Educação em 2021, como também liderou um programa de capacitação de professores em 2018 e lecionou nas mais prestigiadas instituições de ensino superior.
O Projeto 101 começou há cinco anos como um programa piloto na área de informática, com o objetivo explícito de alcançar padrões de excelência na formação de engenheiros, cientistas e desenvolvedores que sustentassem o salto tecnológico chinês. Em 2023, foi ampliado para outras oito disciplinas acadêmicas, entre elas matemática, física e química, e em 2024 incorporou uma especialização em IA que unificou conteúdos, gerou bibliografia de alta qualidade em mandarim (disponível online) e promoveu a articulação entre universidades de elite e instituições regionais, com o objetivo de reduzir as desigualdades educacionais entre diferentes regiões.
Mais do que a evolução formal do programa, é fundamental compreender que a IA foi um dos pilares indiscutíveis desde o lançamento, como destacou o vice-ministro da Educação, Wu Yan, ao apresentar a iniciativa. “Uma das tarefas prioritárias será a elaboração de novos planos de estudo para áreas estratégicas como a Inteligência Artificial”, afirmou à época.
Segundo os dados oficiais mais recentes, o Projeto 101 não é aplicado de forma uniforme nas mais de 3.000 universidades existentes na China. Seu núcleo central é composto por 77 instituições reconhecidas pela excelência de suas ofertas acadêmicas, entre elas Tsinghua, Pequim, Zhejiang, Shanghai Jiao Tong, Nanjing e a Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong.
A Universidade de Tsinghua — uma das mais prestigiadas do mundo e a melhor posicionada da Ásia — já introduziu 117 cursos piloto e 147 disciplinas que integram métodos pedagógicos baseados em IA, desenvolvendo assistentes de ensino inteligentes, ferramentas de apoio ao planejamento de aulas e sistemas automatizados de avaliação. Já a Universidade de Fudan, em Xangai, apresentou o Instituto de Inteligência Artificial Incorporada Confiável (ITEAI, na sigla em inglês), dedicado à pesquisa de ponta e às aplicações práticas de tecnologias inteligentes.
Embora o número de universidades possa parecer pequeno em comparação com o total existente no país, estima-se que o Projeto 101 alcance mais de 5 milhões de estudantes de graduação, segundo levantamentos do Ministério da Educação. As autoridades avaliam que esse número pode crescer de forma significativa no médio prazo, caso o programa seja ampliado para universidades provinciais e regionais, como parte de um esforço de aprimoramento do sistema de ensino superior.
Além do alcance específico do Projeto 101, cerca de 600 universidades chinesas já ensinam conteúdos relacionados à IA a dezenas de milhões de estudantes, de acordo com dados do China Daily. Isso se deve ao Plano de Inovação em IA para Faculdades e Universidades, lançado em 2018 com o objetivo estratégico de formar pesquisadores e criar pelo menos meia centena de programas de especialização em instituições de ensino superior.
A essa oferta pedagógica soma-se o fato de que, em meados de 2025, mais de 15 milhões de crianças de 6 anos começaram a estudar os princípios básicos da IA em 184 escolas piloto, em uma medida que reafirmou a vontade política de inovar tudo o que for necessário para transformar a China em líder global do setor até 2030, conforme as metas do Plano Nacional de IA de 2017.
Cidades como Pequim e Hangzhou avançaram ainda mais, com planos até 2027 que estabeleceram a educação obrigatória em IA para todas as escolas primárias e secundárias, embora com uma carga mínima ainda modesta, de 8 e 10 horas anuais, respectivamente.
“A Inteligência Artificial é a chave de ouro do sistema educacional”, afirmou o ministro da Educação, Huai Jinpeng, expressando a posição oficial de um país que promove a IA em todos os setores da sociedade, conforme já indicado pela Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (CNDR).
Enquanto outros países discutem regulações, limites éticos ou simplesmente ignoram tecnologias que já estão nos celulares dos alunos, a China aprofunda sua revolução educacional, tendo o Projeto 101 como eixo central. Para Pequim, a verdadeira corrida pela IA não se decide apenas nos algoritmos, mas na forma como são formadas as pessoas que os criam.
Depois, naturalmente, virá o momento de debates mais incômodos, pois nenhum futuro — por mais inteligente que se proclame — pode se sustentar se a educação for reduzida a uma simples fábrica de programadores.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



