China finca a bandeira vermelha
Para Pequim, a “Missão de Justiça 2025” foi concluída com sucesso — a operação militar em torno de Taiwan apresentada como um aviso aos separatistas
Doze dias depois de os Estados Unidos anunciarem um pacote de venda de armas a Taiwan no valor de US$ 11 bilhões, a China colocou em marcha um intimidador exercício militar ao redor da ilha, com um desdobramento coordenado de forças terrestres, navais, aéreas e de foguetes que rompeu com a lógica das demonstrações simbólicas no estreito. A operação, batizada de “Missão de Justiça 2025”, foi apresentada publicamente como um “severo aviso” aos grupos separatistas que buscam a independência de Taipé e às interferências externas — leia-se Estados Unidos e Japão —, mas seu alcance, sincronização e o uso de fogo real em alguns simulacros revelaram que Pequim está disposta a escalar caso alguém se atreva a cruzar, ainda que meio passo, a linha vermelha do “princípio de uma só China”.
A operação militar — inesperada para alguns, previsível para outros — estendeu-se por dois dias e incluiu patrulhas de prontidão para combate marítimo-aéreo, bloqueio de portos e áreas-chave, aproximação de navios e aeronaves, assaltos conjuntos de tropas de múltiplos serviços e simulações de ataques com fogo real, informou reiteradamente o porta-voz do Comando do Teatro de Operações Oriental do Exército Popular de Libertação (EPL), Li Xi.
O professor da Universidade de Defesa Nacional, Zhang Chi, destacou o valor estratégico dos exercícios com fogo real porque, segundo explicou, combinaram o poder dos canhões navais, foguetes de longo alcance e mísseis convencionais; atacaram o transporte de energia essencial e bloquearam os principais portos e bases militares; além de permitirem uma orientação multidirecional ao cercar a ilha de norte a sul e de oeste a leste.
“Isso demonstra nossa capacidade de agir a qualquer momento. Por meio de disparos com fogo real e ataques conjuntos, cortaremos completamente suas linhas de energia, linhas de suprimento e rotas de fuga, esmagando seus delírios e conspirações de ‘usar a força para resistir à reunificação’ e de ‘apoiar-se em forças externas para buscar a independência’”, afirmou Zhang, em declarações ao Global Times.
Nesse contexto, e enquanto se desenrolava o segundo dia da operação, o governo chinês não apenas reivindicou os exercícios militares como também redobrou os alertas sobre as “firmes contramedidas” que adotará, doravante, em resposta às “provocações” das forças separatistas de Taiwan e ao que considera manobras “intoleráveis” vindas do exterior.
“A questão de Taiwan é um assunto interno da China e está no núcleo de nossos interesses, razão pela qual nos opomos firmemente a qualquer tentativa de avançar em direção à sua independência ou de reforçar sua capacidade militar com apoio externo. As vendas de armas por parte dos Estados Unidos alimentam as tensões e constituem uma ingerência nos assuntos internos do país”, afirmou o ministro das Relações Exteriores, Wang Yi.
Wang referia-se à decisão do Departamento de Estado dos EUA, de 17 de dezembro passado, de aprovar um pacote de armas a Taiwan avaliado em cerca de US$ 11 bilhões. O “aporte” incluiu sistemas de foguetes de artilharia HIMARS, mísseis ATACMS, obuseiros autopropulsados M109A7, drones táticos ALTIUS, mísseis antitanque Javelin e TOW, software militar, redes e sistemas de missão tática, além de peças de reposição e suporte logístico, segundo documentos da Defense Security Cooperation Agency (DSCA).
A medida não foi um fato isolado. Entre 2020 e 2022, Taiwan foi o maior comprador de armas dos Estados Unidos e, em 2024, o orçamento militar da ilha quase dobrou em comparação com 2016. A projeção para 2026 é que represente 3,32% de seu Produto Interno Bruto (PIB) regional, o que significa um recorde desde 2009, segundo relatório da Xinhua.
“As vendas de armas dos Estados Unidos a Taiwan — avaliou a agência oficial de notícias — não oferecem um escudo protetor para a ilha; servem apenas como um caixa eletrônico para os vendedores de armas americanos.”
Para além da magnitude do que foi considerada a maior venda desse tipo de Washington a Taipé, os Estados Unidos não tiveram exclusividade nas críticas de Pequim. A “Missão de Justiça 2025” também foi vista como um recado indireto à nova primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, que no mês passado irritou o governo chinês ao insinuar que Tóquio poderia intervir militarmente no conflito de Taiwan.
“O Japão, que lançou a guerra de agressão contra a China, não apenas não reflete sobre os inúmeros crimes que cometeu, como seus atuais líderes também desafiam abertamente a soberania territorial da China, as conclusões históricas da Segunda Guerra Mundial e a ordem internacional do pós-guerra”, afirmou o chanceler chinês.
Da Bloomberg à agência Associated Press e ao jornal japonês Asahi Shimbun, houve uma evidente convergência informativa sobre quais países a China qualificou como “interferências externas”, somando-se, no Ocidente, a uma ampla difusão de questionamentos internacionais à operação.
O atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, minimizou o episódio e sustentou que a China vem realizando esse tipo de exercício “há 20 ou 25 anos”; Taiwan denunciou uma intimidação militar que põe em risco a estabilidade regional; o Japão falou em um ato perigoso que aumenta as tensões e desestabiliza a segurança no estreito; e a União Europeia (UE) também considerou que a paz e a estabilidade internacionais foram colocadas em risco.
A resposta oficial chinesa, conhecida quase ao final de 2025, qualificou esses comentários como “irresponsáveis” e “hipócritas”, ao mesmo tempo em que destacou o apoio aos exercícios militares por parte de países como Rússia, Cuba, Sérvia, Venezuela, Zimbábue e Paquistão, entre outros.
Cabe um parágrafo à parte para a reação da embaixada chinesa no Reino Unido, que não apenas condenou os pedidos britânicos de “moderação”, como acusou Londres de manipular a verdade e de se imiscuir em assuntos que não lhe dizem respeito. “Taiwan é uma província chinesa, e os exercícios do EPL foram uma ação dissuasória frente ao separatismo e à ingerência externa”, afirmou a representação diplomática, em uma definição sobre soberania e território difícil de ignorar na Argentina, pelas históricas semelhanças que permeiam as reivindicações pelas Ilhas Malvinas e por Taiwan.
Confúcio ensinava que governar é, antes de tudo, ordenar o mundo sem precisar elevar a voz. Mas quando essa paciência se esgota, entra em cena a outra tradição, a de Sun Tzu, para quem a melhor batalha é a que se vence antes de começar. Conhecedor dessas questões, o presidente Xi Jinping aproveitou sua mensagem de Ano Novo de 2026 para lembrar, a amigos e adversários, que os chineses de ambos os lados do estreito de Taiwan estão unidos por sangue e parentesco. “A reunificação de nossa pátria, uma tendência dos tempos, é imparável”, foram suas palavras finais.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




