A maldição do petróleo?
O petróleo venezuelano volta ao centro da política imperial dos EUA, exposta por intervenções militares, sanções e narrativas
O sequestro ilegal do ditador venezuelano, Nicolás Maduro, pelas forças especiais dos EUA é uma violação do direito internacional e um precedente sério, que deveria preocupar todos os Estados soberanos da América Latina.
Sabemos que o governo dos EUA utilizará, para o julgamento de Maduro em terras estadunidenses, a alegação de que Maduro seria o chefe do Cartel de Los Sóis e que as drogas da Venezuela estariam inundando os EUA, o que é meramente uma narrativa para esconder o real objetivo do Império: apropriar-se do petróleo venezuelano.
A maioria das drogas ilegais que chegam aos Estados Unidos provém principalmente dos cartéis mexicanos. Eles são os principais fornecedores, sendo a fronteira sul a principal rota de entrada. O México que coloque as barbas de molho.
As principais origens e rotas variam de acordo com o tipo de substância: fentanil e metanfetamina, drogas sintéticas, são produzidas diretamente no México, utilizando precursores químicos frequentemente provenientes da China. Elas são então traficadas através da fronteira terrestre sul dos EUA, muitas vezes em carregamentos misturados ou escondidos em túneis; a cocaína é predominantemente produzida em países da América do Sul, como Colômbia e Peru. De lá, a droga é transportada por várias rotas marítimas e terrestres através do Equador e da América Central até o México, onde os cartéis assumem o controle e a movem para os EUA. A rota do Pacífico é uma das mais utilizadas para o contrabando de cocaína, e a heroína que chega aos EUA também tem origem majoritariamente no México ou em países como o Afeganistão, chegando por meio de rotas indiretas que podem passar pela África e Europa.
Os cartéis de Sinaloa e Jalisco Nueva Generación são identificados pela DEA (Administração de Controle de Drogas dos EUA) como o “coração” da crise de drogas no país, devido ao seu domínio no fornecimento e distribuição de fentanil e metanfetaminas. O tráfico ocorre principalmente por terra, mas também por vias aéreas e marítimas, com o objetivo de burlar a segurança das fronteiras.
Ou seja, a Venezuela não é fornecedora de drogas aos EUA, mas o país tem 303 bilhões de barris de petróleo, o que equivale a cerca de 17% de todas as reservas do mundo. A Venezuela fica à frente da Arábia Saudita e do Canadá, por exemplo.
É disso que se trata.
Talvez seja a “maldição do petróleo” que fez a Venezuela juntar-se a Iraque, Afeganistão, Líbia e Irã, países que sofreram intervenções militares por serem grandes produtores de petróleo. Essa é a lógica por trás dessas intervenções, especialmente no Golfo Pérsico: em nome da democracia e da liberdade, o que o Império busca é o controle e o acesso às reservas petrolíferas.
A ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela recoloca o petróleo no centro do debate sobre política externa e segurança econômica.
Um pouco de história.
A partir dos anos 1970, com o fim do padrão-ouro, a organização do mercado global de petróleo passou a se conectar de forma direta ao papel do dólar como principal moeda de reserva. Negociada majoritariamente em dólares, a energia tornou-se um fator relevante na estabilidade financeira internacional, influenciando fluxos comerciais, reservas cambiais e mecanismos de financiamento público. É isso que o Império busca. E Trump não se incomoda em confessar que os EUA vão se envolver fortemente no setor petrolífero da Venezuela, ou seja, vão roubar o petróleo venezuelano.
Como escrevi acima, intervenções militares, operações de segurança e sanções econômicas lideradas pelos Estados Unidos frequentemente coincidiram com disputas envolvendo países produtores. Podemos citar vários episódios em que o petróleo esteve presente na equação estratégica americana, ainda que ausente do discurso oficial. São eles:
- Apoio à Arábia Saudita e o Acordo de Quincy (1945) – No fim da 2ª Guerra, o presidente Roosevelt selou um pacto com o rei Ibn Saud: os EUA forneceriam proteção militar perpétua à monarquia saudita em troca de acesso preferencial ao petróleo. Esse acordo é a base de quase todas as intervenções dos EUA no Oriente Médio desde então; por isso, a ditadura sanguinária saudita não emociona os americanos do Norte.
- Intervenção na Guatemala – Operação PBSuccess, em 1954 – O governo de Jacobo Árbenz aprovou leis de petróleo que prejudicavam empresas americanas. Os EUA queriam garantir que as leis de concessão fossem favoráveis às empresas, como a Ohio Oil Company, antes que o nacionalismo de Árbenz se consolidasse; os EUA intervieram.
- Intervenção de Estado no Irã – Operação Ajax, em 1953 – Após o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh nacionalizar a indústria petrolífera, então controlada pelos britânicos, a CIA e o MI6, os serviços de inteligência externa dos EUA e do Reino Unido, orquestraram a derrubada do governo local. O objetivo era garantir que o petróleo iraniano permanecesse acessível às empresas ocidentais e sob influência aliada.
- Apoio ao golpe de Suharto na Indonésia, em 1965–1967 – A transição de poder do nacionalista Sukarno para o general ditador Suharto foi um dos episódios mais sangrentos do século XX, com apoio da CIA. Sukarno estava pressionando as petroleiras americanas (Caltex e Stanvac) a renegociar contratos e ameaçava com a nacionalização. Após o expurgo dos comunistas e a ascensão de Suharto, as portas da Indonésia foram abertas para o capital estrangeiro, e o país tornou-se um dos pilares de suprimento de petróleo para os aliados dos EUA durante a Guerra do Vietnã.
- Conflito civil na Nigéria – Conflito de Biafra, em 1967–1970 – A Nigéria é o maior produtor de petróleo da África. Quando a região de Biafra tentou se separar, iniciou-se uma guerra civil brutal. Os EUA declararam neutralidade oficial, mas houve um intenso jogo de bastidores para garantir que as reservas de petróleo da região do Delta do Níger permanecessem acessíveis.
- Operação Earnest Will, em 1987–1988 – Durante a guerra Irã-Iraque, os EUA intervieram diretamente no Golfo Pérsico para escoltar petroleiros do Kuwait contra ataques iranianos. Foi a maior operação naval americana desde a 2ª Guerra Mundial, exclusivamente para proteger o fornecimento de energia. Ela foi um desdobramento da Doutrina Carter e da segurança do Estreito de Ormuz, de 1980, quando o presidente Jimmy Carter declarou que qualquer tentativa de uma força externa de ganhar o controle do Golfo Pérsico seria vista como um ataque aos interesses vitais dos EUA.
- Conflito do Golfo – Operação Desert Storm, em 1990–1991 – Quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait, passou a controlar cerca de 20% das reservas mundiais. A intervenção liderada pelos EUA visava libertar o Kuwait e também impedir que o Iraque avançasse sobre a Arábia Saudita, o que daria a Saddam o controle sobre o preço global do barril.
- Sanções e pressão na Venezuela, intensificadas a partir de 2000 – A Venezuela possui a maior reserva provada de petróleo do mundo. Os EUA mantêm um histórico de apoio a tentativas de derrubada do governo local e de sanções econômicas severas, com o objetivo de remover governos nacionalistas que restringem o acesso de empresas americanas ao petróleo venezuelano.
- Segundo Conflito do Golfo – Invasão do Iraque, em 2003 – Embora a justificativa oficial fosse a busca por armas de destruição em massa (nunca encontradas), historiadores e ex-oficiais, como Alan Greenspan, admitem que o petróleo era um fator central. O objetivo estratégico era remover um regime hostil em uma região que detém as maiores reservas do mundo.
- Intervenção na Líbia, em 2011 – A intervenção militar estadunidense na Líbia ocorreu em um contexto de tensões regionais em torno do controle do petróleo e da influência no Oriente Médio. A queda de Muammar Gaddafi envolveu o apoio dos EUA e da OTAN a rebeldes. A Líbia possui as maiores reservas de petróleo da África. E-mails da ex-secretária de Estado Hillary Clinton sugerem preocupações com os planos de Gaddafi de criar uma moeda lastreada em ouro, que poderia ameaçar a hegemonia do petrodólar.
- Intervenção na Síria, desde 2019 – Em 2019, o então presidente Donald Trump declarou abertamente: “Mantivemos o petróleo. Estamos protegendo o petróleo”. Tropas americanas continuam estacionadas em áreas estratégicas do nordeste da Síria, onde se localizam os principais campos de petróleo do país, para evitar que o governo sírio ou a Rússia os recuperem.
- Intervenção na Venezuela, 2026.
Qual será o próximo país a ser invadido pelo Império estadunidense?
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

