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Carlos Carvalho

Doutor em Linguística Aplicada e professor na Universidade Estadual do Ceará - UECE.

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A marcha e a Marsha

Que tipo de trabalhador é liberado pelo patrão para empreender uma marcha que deve durar pelo menos seis dias?

Nikolas Ferreira ao lado dos deputados André Fernandes e Gustavo Gayer (Foto: Reprodução)

Ao longo da canção “A cara do Brasil”, Celso Viáfora traça um paradoxo de tudo aquilo que muito bem representa nosso país, ou seja, o Brasil gordo, o Brasil com fome, o pobre, o rico, as ilhas, as favelas, os trens do subúrbio, os trens da alegria de Brasília... Muitos anos se passarão, mas a canção de Viáfora, por tudo o que ela nos diz e da maneira como diz, será sempre atual. E assim será, pois a contradição da qual seus versos tratam nos habita de uma forma que se entranha em nosso ser. 

Penso na contradição que é nosso país, quando converso com meus botões e eles me perguntam que tipo de trabalhador é liberado pelo patrão para empreender uma marcha que deve durar pelo menos seis dias? Rapidamente, lembro das moças que trabalham como caixa em um supermercado próximo à minha casa, as quais só podem ir ao banheiro se o gerente autorizar, trabalhando de domingo a domingo, pois o único dia que a tal senzala, digo, supermercado não funciona é no primeiro dia do ano.

Assim, se você pode fazer uma caminhada de seis dias, de Minas Gerais até Brasília, é porque você se esforçou e mereceu e, parafraseando Tim Maia: “A meritocracia é a coisa mais linda do mundo!”. Mas cá entre nós, quem é mesmo que paga as contas de todos esses fofos? Seriam as mesmas pessoas que bancaram com carne, cerveja e gasolina a bandidagem que acampou por meses nas calçadas dos quarteis do exército e que até hoje não sabemos quem são?

E assim, caminhando e tramando, vários parlamentares lideram uma marcha em direção ao Planalto Central, cujo objetivo é “protestar” contra a prisão dos bandidos que tentaram derrubar a democracia brasileira por meio de um golpe de estado. O chefe da quadrilha, preso em uma espécie de apart-hotel, tão doentinho, coitado, continua a insuflar seus seguidores contra as instituições e o Estado Democrático de Direito. Uma vez bandido, sempre bandido! A tal da marcha deverá chegar ao DF no domingo. Meus botões, que acham que marcha de extrema direita é esterco de vagabundo, me relembram que foi num domingo, 08 de janeiro, que tudo aconteceu. Pois sim. Não foi um passeio no parque. É déjà vu, que chama?

No domingo (25), além da marcha dos cidadãos de bem, ocorrerá a 3ª Marsha Trans Brasil, cujo nome é em referência à ativista afro-americana Marsha P. Johnson (1945-1992). A Marsha, conforme Bruna Benevides, presidenta da Antra: “não se apresenta como uma celebração, mas como uma denúncia”. Em entrevista ao Brasil de Fato, em 21 de janeiro, Benevides disse: “O Brasil já era um país extremamente violento com a população trans antes mesmo da extrema direita assumir o poder. Nós já enfrentávamos desemprego, expulsão escolar, dificuldades de acesso à saúde e uma violência cotidiana brutal”. Continua Bruna: “Queremos um Brasil forte, com instituições funcionando, mas que não deixe ninguém para trás. Caso contrário, essa soberania é falha”.

Das duas marchas, caro leitor, de qual delas você não ouviu falar nem leu sequer uma linha na mídia comercial brasileira? As pessoas que estarão na Marsha não se hospedarão em hotéis de luxo, assim como nenhum helicóptero pousará irregularmente em via pública trazendo-lhes qualquer forma de apoio. Nenhuma participante gastará dinheiro público, pois não recebem emendas parlamentares, por exemplo. Nenhuma delas estará tramando contra o país nem contra a democracia. E sabe a razão? Não? Bruna responde: “Não queremos apenas diminuir a violência. Queremos erradicá-la como projeto político. Retirar a violência de todos os campos, inclusive dos campos progressistas, para construir um futuro possível para todas as existências”. É isso. Existem marchas e existem Marshas. Não é uma escolha difícil. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.