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Ángeles Castaño Madroñal

Doutora em Antropologia Social pela Universidade de Sevilha (2003). Também é licenciada em Geografia e História, com especialização em Antropologia Cultural (1991). Atua como professora no Departamento de Antropologia Social da Universidade de Sevilha. É membro da Cátedra UNESCO de Diversidade, Gênero e Fronteiras da UFGD (Brasil) desde 2015

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À Maria Paula Meneses, a grande antropóloga africana

Há em sua escrita algo rebelde, algo crítico, algo nobre e algo poético

Maria Paula Meneses (Foto: Reprodução/YouTube/ALICE CES)

gelesQuero escrever com luz no meu olhar sobre a pessoa que foi Maria Paula Meneses e sobre a obra que nos deixou. Resisti por mais de um ano a escrever uma única palavra que pudesse ser percebida como uma despedida prematura.

Porque a amizade compartilhada com Paula me acompanhará pelo resto da minha vida.

Paula era um astro com luz própria. Bastava aproximar-se para perceber sua irradiação e seu calor humano. E bastava uma breve conversa para render-se ao fascínio de um conhecimento enraizado em uma longa e profunda experiência. A primeira vez que a conheci, ela havia iniciado sua caminhada no mais importante projeto científico que jamais voltará a ser realizado no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, o projeto ALICE (Espelhos estranhos, lições imprevistas: conduzindo a Europa a uma nova forma de compartilhar experiências do mundo), dirigido pelo professor Boaventura de Sousa Santos. Permitam-me essa licença retórica que temos os andaluzes, a dupla negação, para encerrar algo de forma definitiva e categórica: não se trata de redundância nem de hipérbole, mas de uma certeza absoluta que se impõe como sentença, uma temporalidade que não existirá novamente para os olhos dos mortais de hoje.

Um projeto único e uma equipe soberba. Foi durante um almoço de despedida de um encontro científico de outro projeto do CES do qual eu participava. Como muitos outros momentos vividos em sua companhia, aquele ficou ancorado na minha memória, nessa estante dos relicários da vida, onde guardamos o assombroso justamente porque é único. Esse lugar — que imagino que todas as pessoas possuam — onde o indizível é capturado para fixar na memória o próprio peso essencial da experiência.

Recordo sua conversa fluida em várias línguas ou, melhor dizendo, em uma língua feita de muitas línguas, para explicar coisas que pudéssemos entender nós, os comensais de vários países sentados perto dela, em uma conversa descontraída, mas de profunda intensidade e interesse. Ela possuía uma capacidade que encontrei apenas em raras ocasiões em mulheres africanas cultas e viajadas: a capacidade criativa de comunicação intercultural com uma linguagem transfronteiriça, transcultural, capaz de passar de um registro a outro com uma facilidade surpreendente.

Era uma linguagem tecida entre a experiência e o desejo de se comunicar com os outros, transbordando imaginação criativa e habilidade oral. Uma forma de expressão que só pode nascer de uma vivência intensa, transformando a oralidade em uma colcha de retalhos capaz de sustentar o instante compartilhado sem deixar ninguém de fora. Isso, só uma africana consegue fazer — ou, pelo menos, foi algo que eu só encontrei em mulheres excepcionais de contextos que existem naquele continente.

Ela falava de sua vida e de sua experiência etnográfica em Moçambique, de sua vida de estudante na Rússia e nos Estados Unidos e de suas viagens de pesquisa a Goa, respondendo às nossas perguntas — cada vez mais surpreendidos — com a naturalidade de quem fala de algo comum entre os mortais. Supus que uma moçambicana culta e academicamente comprometida parte da ideia, comum a muitos africanos, de que percorrer o planeta para encontrar um lugar onde colocar e usar a própria voz é quase uma dívida inevitável com suas raízes. Naquela mesa, rodeada de espanhóis, portugueses, ingleses, um alemão e um uruguaio, aquela africana era, sem dúvida, um caso único. Ou pelo menos, para mim, era uma pessoa única, tão difícil de encontrar no universo acadêmico quanto hoje seria encontrar um datil-do-mar no Mediterrâneo.

Com o passar do tempo nasceu uma amizade ancorada em profundo respeito e afeto mútuos, que proporcionou muitos encontros e longas conversas. Isso me permitiu conhecer aspectos de sua vida de luta desde a juventude pelos direitos individuais e coletivos em sua terra natal. Uma vida tão apaixonada em suas convicções só poderia resultar, em uma pessoa tão inteligente como ela, no desenvolvimento fértil de uma obra avançada com novos horizontes para a antropologia, profundamente enraizada nas pessoas e na cultura de sua terra natal e nos contextos que habitou e viveu. Uma obra construída ao longo de toda uma vida profissional, a partir da qual iluminou a teoria das Epistemologias do Sul, ao mesmo tempo em que também recebeu dela seu brilho. Um paradigma científico que estabelece, para a antropologia, as bases e os instrumentos para esculpir o camafeu da dignidade das lutas de libertação colonial e dos oprimidos.

Em um mundo que, neste século XXI, reedita novos imperialismos e colonialismos desumanizadores e exterminadores — favorecidos pelas novas tecnologias da comunicação e pelo avanço do armamentismo — a antropologia nas Epistemologias do Sul, construída por Maria Paula Meneses ao lado de Boaventura de Sousa Santos, torna-se uma pedra angular para compreender a diversidade incomensurável da plasticidade humana e seu valor nas lutas pela existência e pela dignidade. Ao mesmo tempo, as Epistemologias do Sul representam para a antropologia do século XXI um sopro de ar fresco, uma possibilidade de recuperação para uma ciência adoecida neste milênio, reencontrando o valor fundamental da diversidade que esteve em sua origem, ainda que atravessada pelos jogos coloniais de poder e saber dentro do próprio sistema ocidental.

A antropologia de Maria Paula Meneses representava uma sabedoria africana de vida para uma disciplina envelhecida prematuramente pela prostituição de seu valor essencial: o reconhecimento da diversidade e da especificidade cultural dos grupos e sociedades humanas. Isso ocorreu em nome de novas tendências voltadas para uma globalização suicida de uma ciência capturada pelo capital que a financia. Uma antropologia estéril, fruto da ciência colonial ocidental que ainda se perpetua nas formas de olhar deste século. Na jangada das Epistemologias do Sul podem flutuar todas as lutas contra exclusões e desapropriações coloniais que existiram e que se tenta apagar dos arquivos da história para que ninguém jamais as encontre.

Por isso, ela colocou em Moçambique a pedra nobre da escultura. Porque Paula foi e é, antes de tudo, uma antropóloga situada e enraizada. Sua obra mostra com brilho próprio que estamos diante da antropóloga africana mais brilhante deste momento histórico — justamente quando, na antropologia social e cultural, é realmente raro que se apresente algo verdadeiramente original sobre a diversidade humana e sobre aquilo que os seres humanos compartilham. Esse foi o grande pilar dessa antropóloga nas “Epistemologias do Sul” e sua grande contribuição para a antropologia contemporânea.

Nunca poderia ter tido mais sorte do que ter cruzado seu caminho. Aprendi sem sair do lugar aquilo que jamais teria aprendido em nenhuma universidade, em nenhuma estadia acadêmica, em nenhum templo do saber onde os minideuses não descem do frontão onde são esculpidos. Talvez porque pessoas fronteiriças como ela guardem conhecimentos de um limiar ao qual poucos chegam — ainda mais na academia e na ciência, onde essa natureza raramente é compreendida e onde sequer se desenvolveram instrumentos para lidar com ela. E a mim sempre atraíram as fronteiras. Não para observar suas linhas, mas para ultrapassá-las e atravessá-las, transgredindo suas fantasmagorias.

Talvez dessa disposição venha também sua habilidade de transitar entre as nove línguas que falava, cinco delas europeias — várias com fluência quase nativa. Assim criava espaços inclusivos de comunicação para quem quisesse compreender. Suas etnografias em Moçambique e Goa, e seus estudos de longa duração sobre as relações pós-coloniais de Portugal com seu espaço colonial lusófono, contribuíram significativamente para ampliar os estudos sobre o (anti)colonialismo e sobre os saberes que emergem das lutas, especialmente os das mulheres, frequentemente esquecidas nos contextos coloniais de desumanização.

Há em sua escrita algo rebelde, algo crítico, algo nobre e algo poético. Como um espírito que recompõe sabiamente sua essência a partir de complexas batalhas vividas — políticas, pessoais, profissionais, emocionais e espirituais — sua voz e sua escrita parecem tecer a gema formada por todas as cristalizações de uma vida intensa e muitas vezes incompreendida.

Na escrita de Paula está a poética dos sentidos, algo profundamente africano, que leva dos sabores aos saberes o lugar epistêmico das lutadoras africanas que encontrou em suas pesquisas etnográficas. Em seu Facebook havia um multicolorido africano de saberes e engenhos extraordinários — políticos, econômicos, produtivos, artísticos, musicais, têxteis, aromáticos, cromáticos. Seus 2.129 amigos em seu perfil sabiam disso muito bem. O mais surpreendente é que essa mesma riqueza estava em suas conferências, em seus textos, em suas aulas, em seu escritório, em sua casa, em sua família e em seu coração. Ela conseguia levar sua luta pelo invisibilizado a todos os espaços por onde passava, com uma sagacidade, inteligência e domínio da palavra que eu jamais havia visto antes.

Levava e trazia, como conchas deste mar de sentidos, os dons da amizade que apenas uma africana sabe fazer circular. Tecidos africanos multicoloridos dos mercados por onde caminhava com seu coração acabavam nas mãos de amigas muito queridas. Mas o melhor presente de todos sempre foi sua proximidade, suas histórias e sua hospitalidade — além da curiosidade e do espírito investigativo nas longas e brilhantes conversas sobre os problemas contemporâneos dessa loucura que parece dominar o nosso presente. Conversas que tanto sinto falta e continuarei sentindo, nas quais muitas vezes bastavam os subentendidos, porque não eram necessárias mais palavras. Posso dizer que a vejo, que a vi, para além da aparência material que nos torna mortais.

Ela dedicou um dos maiores esforços de sua vida à formação de jovens pesquisadores capazes de pensar por si mesmos e melhor. Sempre lembrando que eles são o futuro de uma velha academia cujas estruturas estão desgastadas e cheiram a podridão. Ainda assim, transmitia a ideia de que o futuro existe — e são esses jovens, a esperança de que algo melhor possa surgir.

Nos próximos meses será publicada uma obra monumental em dois volumes reunindo sua produção: Moçambique e o Sul Global. Uma perspectiva a partir das Epistemologias do Sul, pela editora Almedina. No primeiro volume, Teoria e História, Paula estabelece uma metodologia interdisciplinar baseada nas relações e no reconhecimento dos saberes de profissionais locais — algo que representa o futuro da pesquisa histórico-antropológica, não apenas para seu Moçambique, que era seu mundo investigado, mas para os múltiplos mundos de diversidade ontoepistemológica que constituem a humanidade. No segundo volume, As ecologias de saberes, ela articula três eixos fundamentais para a existência e a sobrevivência de qualquer sociedade — apresentados a partir de Moçambique: a ecologia dos saberes jurídicos, médicos e ambientais.

Trata-se do estudo das relações complexas entre sistemas de conhecimento científico e saberes populares, comunitários e indígenas — entendendo o conhecimento como uma entidade viva, na qual diferentes epistemes se encontram nas práticas cotidianas entre o humano e o natural, intimamente ligados. Uma contribuição monumental que articula história e antropologia de forma inovadora e única. Em um momento histórico em que o humano parece diluir-se no império dos objetos e das máquinas, essa obra representa uma das maiores contribuições para revitalizar a ciência antropológica.

E embora ressoe em meu coração o verso “não há extensão maior que a minha ferida”, de Miguel Hernández — poeta da dor causada pelas violências assassinas e pelo sofrimento dos inocentes — tento aqui fazer brilhar um gênio singular cuja trajetória deixará um impacto que as brutais investidas do racismo acadêmico não poderão ocultar.

Vivemos em uma sociedade que tende a reproduzir violências difusas nas instituições, executadas coletivamente, que matam de forma indireta e facilitam a invisibilidade de quem as comete. As novas tecnologias não apenas facilitam isso, como também permitem que os perpetradores da injúria e da desqualificação infundada se escondam no anonimato tecnológico e institucional, aproveitando-se dos mecanismos de direito e ética em benefício próprio. A violência acadêmica é talvez a mais refinada, mas não deixa de ser tão irracional e desumana quanto qualquer outra.

Não sei se este é o momento ou o lugar para dizer tudo isso. Mas não posso ignorar o dano que rompeu seu coração e destruiu seu espírito lutador diante da barbárie que muitas vezes reina na academia. Hoje dominada novamente pelo extremismo brutal destes tempos: um racismo patriarcal exercido por acadêmicas pseudofeministas que não sabem que não são feministas. Capazes, como colonos do chicote, de afastar negros e negras que atrapalham seu caminho ascendente, quando, como Paula, enfrentam seus abusos com absoluta honestidade e franqueza.

Não posso deixar isso de lado porque não há justiça. Há um silêncio indigno e desumano no centro onde ela trabalhava. Apesar de suas linhas de pesquisa sobre direitos humanos e justiça social, a teoria não é aplicada na prática na defesa das pessoas mais vulneráveis do próprio espaço onde produzem conhecimento. Foi o que aconteceu com Paula Meneses.

Só posso registrar aqui meu abraço emocionado de amigo e meu grito rebelde diante de algo que nunca terá reparação suficiente. Não nesta academia ainda dominada por homens e mulheres patriarcais, racistas e coloniais.

Posso imaginar seu pavor — aquele que apenas quem já sentiu o racismo na própria pele pode compreender. Tão vulnerável e indefesa. Talvez tenha revivido o terror de sua juventude. Talvez tenha se sentido novamente paralisada sob o peso de um corpo de soldado morto, como naquela trincheira onde quase ninguém sobreviveu ao seu lado. Posso imaginar seu estupor. Porque quando se acredita estar entre companheiros de luta, descobrir o racismo em quem se supunha colega pode ser, como foi, mortal.

E ninguém pediu desculpas pela dor profunda infligida injustamente a ela. Nem pelo sofrimento causado à sua família e aos seus amigos. Ninguém em seu local de trabalho teve a honestidade de pedir perdão por participar daquela caça indignificante. Ninguém renunciou pela má gestão do mal. Nenhum juiz pediu desculpas por ceder à pressão mediática. Nenhum jornalista publicou um artigo de arrependimento reconhecendo a má investigação. Nenhuma acadêmica feminista denunciou a infâmia de uma falsidade destrutiva contra uma colega africana. Todos permanecem presos ao medo — o medo da ausência prática de direitos, o medo da matilha cibernética, o medo do próprio medo. E todos acabam fazendo parte da mediocridade desta sociedade que nos torna mais vulneráveis, mais expostos e mais fracos diante da barbárie.

Paula nos deixou no último dia 8 de fevereiro. E nós continuaremos aqui, construindo com as pedras que ela talhou — para que as novas gerações recebam algo do brilho que emana da razão emotiva, a mais inteligente.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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