Maria Paula Meneses (1963-2026)
"Maria Paula Meneses foi uma investigadora brilhante"
Morreu Maria Paula Meneses, investigadora-coordenadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Nasceu no Maputo em 1963. Foi Professora da Universidade Eduardo Mondlane (Moçambique) e desde 2003 era investigadora e professora no CES. Integrava a linha de investigação sobre a “Europa e o Sul global: patrimónios e diálogos” e o grupo de trabalho sobre Epistemologias do Sul. Foi durante vários anos professora e coordenadora do Programa de Doutoramento “Pós-colonialismo e Cidadania Global”. Leccionou em vários outros programas de doutoramento do CES e co-coordenou, com Karina Bidaseca (CLACSO), o curso internacional “Epistemologias do Sul” (CLACSO-CES). Era doutorada em Antropologia pela Universidade de Rutgers (EUA) e Mestre em História pela Universidade de S. Petersburgo (Rússia). Em 2022 foi investigadora visitante da Universidade de Paris 8, França. De entre os temas de investigação sobre os quais se debruçou destacam-se os debates pós-coloniais em contexto africano, o pluralismo jurídico – com especial ênfase para as relações entre o Estado e as “autoridades tradicionais” no contexto africano –, e o papel da história oficial, da(s) memória(s) e de “outras” narrativas de pertença nos processos identitários contemporâneos. Participou em vários projetos de investigação que resultaram na organização e publicação de vários livros e artigos. O seu trabalho está publicado em diversos países, incluindo Moçambique, Espanha, Portugal, Brasil, Senegal, Estados Unidos, Inglaterra, Argentina, Alemanha, Holanda e Colômbia. Durante o ano de 2026 será publicado pela Edições 70 o livro em dois volumes intitulado Moçambique e o Sul Global: Uma perspetiva a partir das epistemologias do Sul. Trata-se de uma obra monumental que sintetiza de maneira única o trabalho desenvolvido por Maria Paula Meneses nos últimos vinte e cinco anos. O objectivo principal desta obra é estabelecer as bases para uma compreensão mais ampla do que constitui o estudo histórico da educação como ciência para a cidadania no Sul global. Mais especificamente: como construir um projecto educativo pós-colonial para além das heranças deixadas pela colonização portuguesa em países onde a diversidade epistémica e linguística é uma característica dominante.Moçambique e o Sul Global visa construir e comunicar narrativas e argumentos sobre o passado e o presente assentes em metodologias que vão muito além das metodologias de investigação tradicionais. Uma investigação activista, crítica e atenta aos conhecimentos próprios sobre o passado e o presente das sociedades do Sul global abre um mundo de novas interpretações, ao mesmo tempo que revela narrativas e experiências que não são incluídas nas concepções dominantes sobre a história e a natureza das sociedades em análise. Mais especificamente, trata-se de compreender o longo e complexo período que se iniciou com a independência de Angola e Moçambique. O primeiro volume centra-se na investigação de diferentes processos históricos à luz das novas perspectivas epistemológicas e metodológicas. O segundo volume desenvolve as ecologias de saberes jurídicos (pluralismo jurídico), de saberes médicos e de saberes ambientais. Este livro mostra bem a vitalidade e as potencialidades das epistemologias do Sul.
Maria Paula Meneses foi uma investigadora brilhante. Os muitos estudantes de doutoramento que ela orientou e os colegas com quem contactou mais de perto são testemunhas do seu profundo e interdisciplinar conhecimento do Sul global, da exigência que punha no estudo e na argumentação dos temas que tratava.
Em Março de 2023, foi vítima de uma ignóbil difamação que tinha por alvo principal a minha pessoa e o próprio CES, mas que atingia mais dois investigadores, sendo Maria Paula Meneses um deles. É apodada de Wachtwoman (a vigilante) num capítulo infame, inexplicavelmente incluído em livro publicado pela prestigiada editora inglesa Routledge. Da autoria de Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Miya Tom, o capítulo não passava de uma fachada pseudo-científica para um insulto a investigadores e ataques a uma instituição que na altura era responsável por 17% dos doutoramentos realizados na Universidade de Coimbra. O capítulo foi imediatamente desmascarado por cientistas feministas de vários países, pelo que a editora acabou por retirar o livro de circulação. Certamente por esta razão, Viaene, a autora principal, incluiu brevemente o capítulo no seu curriculum vitae, para de seguida o retirar.
Maria Paula Meneses não resistiu à infâmia. Entrou em depressão e foi sujeita ao tratamento indicado para tais condições clínicas. No regresso de Moçambique, em Janeiro de 2025, foi diagnosticada com cancro do pâncreas em estádio IV. O seu depoimento após o encontro com o médico da Fundação Champalimaud que a observou, aqui transcrito, é elucidativo:
MPM Depoimento (29 de Julho de 2025): Sou a Maria Paula Meneses, sou investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, e, neste momento, estou em casa com um tumor de grau 4 do pâncreas, e é por isso que estou a fazer esta gravação. Eu sou investigadora coordenadora no Centro de Estudos Sociais, centro que tenho muito orgulho ao qual pertencer. Entrei para o Centro de Estudos Sociais em 2003, numa altura em que o Professor Boaventura de Sousa Santos lançou um grande desafio às ciências sociais em Portugal, neste caso concreto, às ciências sociais na Universidade de Coimbra, de pensar um laboratório de ciências sociais que nos ajudasse a refletir sobre o presente e antecipar um pouco o futuro do mundo. E é com base nesta relação de trabalho que eu tenho mantido com ele, ao longo dos anos, que fui conhecendo o seu percurso, que fui conhecendo a sua obra, os seus objetivos e, sobretudo, os desafios e o grande impulso que ele nos deu para pensarmos, de facto, um mundo, um mundo para além da Europa, um mundo para além deste pequenino, muitas vezes, este pequenino mundo, que é o mundo onde nós pensamos que tudo tem resposta, que é o mundo das ciências. E o Boaventura, através das Epistemologias do Sul, das ecologias de saber, tem-nos desafiado a pensar que o conhecimento do mundo, o conhecimento que nós temos do mundo, é um conhecimento muito restrito, muito pequeno, e que é preciso conhecer muito mais e muito melhor o mundo em que nós vivemos, através destes diálogos com outras civilizações, com outras culturas, com outros povos. É este o desafio que me leva a estar no CES, que me tem levado a trabalhar em projetos de investigação, projetos de doutoramento, a ajudar colegas em formação avançada. Mas, entretanto, há três anos atrás, é publicado um artigo, um artigo difamatório – eu sou uma das pessoas envolvidas, o Professor Boaventura é outra –, em que somos acusados de extrativismo intelectual, de abusar de estudantes, etc. Nada foi provado, muito pelo contrário. Nós continuamos a ter estudantes, continuamos a fazer o trabalho, mas sob grande perseguição, sob uma grande pressão dentro do CES. Eu continuei a trabalhar, mas sofri vários momentos maus dentro da instituição, e isso levou a que eu desenvolvesse uma profunda depressão, de que comecei a ser tratada, na altura. E, este ano, em janeiro, fui finalmente diagnosticada, havia uma série de sintomas que não passavam, e é nessa altura que sou diagnosticada com estádio 4 do tumor do pâncreas. Como vocês sabem, os tumores têm várias origens, normalmente não há uma só raiz do problema. Mas na altura em que eu estou numa das maiores instituições de pesquisa do cancro do pâncreas em Portugal, que é a Fundação Champalimaud, eles, de facto, perguntam-me o que é que se passa, se eu teria tido alguma depressão, e é quando eu conto parte desta história que rapidamente aqui referi, e na altura o médico disse-me que parte da justificação para eu ter o cancro do pâncreas residia exatamente no facto de eu ter tido essa depressão e de ter estado a ser tratada para essa depressão, ao longo dos últimos três anos. Portanto, eu estou profundamente desiludida. Desiludida porque sou uma mulher moçambicana, uma mulher à qual, até hoje, não foi permitido contar o seu lado da história, porque a instituição à qual eu pertenço não quis saber do que é que se passava, pelo contrário, procuravam, inclusivamente, retirar-nos estudantes, procuraram que nós saíssemos da coordenação de programas, etc. Isto não são formas democráticas, nem formas de fazer justiça social às pessoas que trabalham na instituição. E, nessa altura, eu coloquei várias vezes esta questão do que é que se estava a passar, o resultado foi que, sobre o caso em si, continuamos à espera que haja respostas que satisfaçam ambas as partes, porque, como nós dizemos no continente africano, uma história tem sempre pelo menos dois lados de intervenientes, e, portanto, há duas versões da história que precisam de ser contadas. Mas sobretudo esta questão de nunca termos sido ouvidos. Eu, como mulher, nunca ter tido qualquer tipo de apoio dentro da instituição, a não ser agora que estou, como eu digo, com um cancro e em tratamento, e é por isso que eu estou aqui a contar parte desta história, porque acho que é muito importante que nós não deixemos passar estes momentos de injustiça social flagrantes que marcam a sociedade contemporânea.
Morreu Maria Paula Meneses. O seu trabalho e a sua desassombrada presença na academia e na vida incomodaram muita gente. A obra que nos deixa continuará certamente a incomodar – por diferentes razões.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



