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Michel Zaidan

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A minha viagem a Frankfurt

Reflexões sobre a trajetória intelectual do autor entre a Escola de Frankfurt e o pensamento de Habermas, com críticas à evolução recente do filósofo alemão

Vista de Frankfurt, Alemanha 01/10/2021. (Foto: REUTERS/Kai Pfaffenbach/File Photo)

Quando, em 1986, me transferi — através de concurso público — da UFCG para a UFPE, dei uma entrevista ao Jornal do Comércio, dizendo que estava transitando de uma teoria da revolução para uma teoria crítica da cultura, no capitalismo tardio. Ou seja, estava chegando à Escola de Frankfurt e seus filósofos. Essa mudança estratégica me colocava no centro das questões da crise da modernidade ocidental e de um repertório de conceitos que me permitia fazer uma análise crítica da cultura, pensada esta como forma de dominação social. Veio daí o conceito de indústria cultural, alienação, simulacro e outros tantos. Foi nesse meio que descobri o legado multifacetado do filósofo Walter Benjamin e sua visão profundamente crítica da modernidade. Foi sob sua influência que escrevi o livro Crise da Razão Histórica, em parceria com os alunos do curso da UnB, onde fui passar um semestre sabático. O instrumental da Escola foi de grande valia para a renovação da disciplina Teoria da História, engajando inúmeros alunos nesse projeto que, aliás, rendeu um pequeno livro chamado O Palco da História, que era a aplicação prática dos conceitos benjaminianos no ensino e na pesquisa da história.

Mas foi com o fim do socialismo real que fui apresentado ao filósofo Jürgen Habermas e à sua revolução recuperadora. Apresentação que mudou a minha visão sobre a crise do socialismo. Durante anos, os ensinamentos habermasianos foram fundamentais nas disciplinas de Ciência Política, sobretudo a mudança de paradigma, já anunciada em outras publicações. A teoria da ação comunicativa, com sua descrição dos atos de fala e sua influência social, e a crítica à ação contaminadora do Estado no chamado mundo da vida me abriram os olhos para a vitalidade do conceito de “sociedade civil” e suas possibilidades.

Confesso que Habermas foi o norte dessa nova abordagem da política e da sociedade. Mas a intrincada política da União Europeia e a influência da política externa americana capturaram a cabeça do nosso filósofo. Ao invés da visão cosmopolita e do cidadão do mundo defendida pelo filósofo, Habermas foi se tornando um pensador conservador, tal como Bobbio; uma certa visão social-liberal tomou conta do seu pensamento, e o alinhamento com a política externa americana foi revelando um pensador moderado, quase de acordo com essa política.

Habermas deixava de ser o filósofo que virava a chave da filosofia e se tornava um pensador liberal, defensor de uma democracia procedimental, de baixa intensidade, e um defensor da política americana para o mundo. O auge foi o genocídio de Gaza, quando Habermas apoiou a política sionista contra o povo palestino, sob a alegação de combate ao terrorismo. Perdia-se o filósofo kantiano da paz perpétua e ganhávamos um liberal numa cruzada contra a “barbárie do Oriente”. Habermas morreu antes de sua hora, quando abandonou sua teoria dialógica, procedimental da verdade.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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