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Alexandre Machado Rosa

Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

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A mitologia e o labirinto do poder masculino

Como os mitos fundadores da cultura ocidental ajudaram a construir a ideia de superioridade masculina que ainda ecoa no presente

Dia Internacional da Mulher (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Em pleno 2026, as mulheres continuam sendo empurradas para papéis secundários em diferentes dimensões da vida social. E, quando resistem a esse destino, muitas vezes são confrontadas pela violência de uma masculinidade que se tornou tóxica e obsoleta. Uma masculinidade que ainda promove agressões, mortes e feminicídios contra mulheres em nome de um suposto mito de superioridade masculina.

Esse mito continua sendo sustentado por estruturas de poder que, ao longo da história, se organizaram em torno de privilégios masculinos, muitas vezes reservados, em escala global, a homens brancos. Estruturas religiosas e políticas sustentam o mito do patriarcado como polo de poder, mesmo diante da inexorável presença cada vez maior das mulheres na gestão da vida. 

A mitologia grega ocupa um lugar central na formação do pensamento e da cosmovisão do Ocidente. Por meio da tradição intelectual europeia, esses mitos atravessaram séculos e passaram a integrar o repertório simbólico que molda nossas ideias sobre poder, sociedade e natureza humana. Nos poemas épicos atribuídos a Homero, especialmente na Ilíada e na Odisseia, encontramos não apenas narrativas de guerra e heroísmo, mas também elementos de uma ordem simbólica que ajudou a consolidar a centralidade masculina na organização do mundo.

As batalhas, alianças e decisões narradas nesses poemas colocam o homem como sujeito da ação histórica. Às mulheres, em grande parte das narrativas, são atribuídos papéis ligados ao desejo, à sedução ou ao cuidado. A própria Guerra de Troia, eixo central da Ilíada, nasce do conflito provocado pela disputa em torno de Helena, considerada a mulher mais bela do mundo. Seu rapto por Páris desencadeia uma guerra que mobiliza reis, heróis e exércitos durante 10 anos. Assim, enquanto os homens aparecem como protagonistas da guerra e da política, o feminino surge frequentemente associado à origem do desejo e, muitas vezes, à própria causa dos conflitos.

Não por acaso, o próprio desejo aparece personificado em uma figura feminina. Afrodite nasce da espuma do mar formada quando Cronos decepa a genitália de Urano e a lança nas águas, episódio que marca a separação entre Céu e Terra, surgindo o espaço para a vida social. O eros (desejo) surge, portanto, de um ato de violência primordial. Posteriormente, essa força será incorporada à ordem olímpica organizada sob a soberania de Zeus.

A nova ordem do Olimpo

É nesse contexto que a ascensão de Zeus ao poder ganha um significado mais amplo. Quando Zeus lidera seus irmãos e irmãs contra seu pai, Cronos, inicia-se uma ruptura que reorganiza o cosmos e redefine as bases simbólicas do poder. Zeus reúne Héstia, Deméter, Hera, Hades e Poseidon e conduz a revolta contra o pai e o exército dos Titãs. Antes da batalha decisiva, liberta seus irmãos do estômago de Cronos, que os havia devorado para impedir o cumprimento da profecia que anunciava sua queda por um de seus filhos.

A guerra que se segue, conhecida como Titanomaquia, termina com a derrota de Cronos. Zeus e seus aliados aprisionam os Titãs no Tártaro, encerrando o domínio das forças arcaicas e inaugurando uma nova ordem. A partir desse momento, Zeus assume o trono do Olimpo e passa a governar o céu e a ordem do cosmos.

O panteão olímpico é composto por doze deuses, sendo seis homens e seis mulheres. À primeira vista, parece haver equilíbrio. No entanto, o poder decisório concentra-se no masculino. Zeus governa o céu, Poseidon domina os mares e Hades assume o mundo subterrâneo. As três grandes esferas do universo ficam sob autoridade masculina.

Essa reorganização simbólica também representa um afastamento da antiga centralidade de Gaia, a Mãe Terra. Nos mitos mais antigos, Gaia encarna a força primordial que gera e sustenta a vida. Sua potência é matricial e terrestre. Com a consolidação da ordem olímpica, essa força não desaparece, mas é deslocada para uma posição secundária diante da soberania celeste representada por Zeus.

A nova ordem olímpica não elimina o feminino, mas o reorganiza dentro de uma estrutura hierárquica que coloca o poder masculino no centro da decisão.

O labirinto do poder masculino

O papel reservado às mulheres do Olimpo carrega forte dimensão simbólica. As deusas representam não apenas forças divinas, mas também modelos que projetam sobre o mundo humano expectativas sobre o lugar social das mulheres. Cada uma delas parece encarnar uma etapa da vida feminina.

Afrodite simboliza a adolescência e a descoberta da paixão. Atena representa a juventude associada à inteligência e à ação. Deméter expressa a maturidade vinculada ao cuidado e à nutrição da vida. Hera, por sua vez, figura a maturidade plena, associada ao casamento, à estabilidade e à unidade familiar.

Essa organização simbólica não é neutra. Ela sugere uma trajetória feminina marcada por funções previamente definidas. O feminino permanece presente no Olimpo, mas dentro de limites bem estabelecidos.

Nesse sentido, a mitologia grega não apenas narra histórias divinas. Ela também projeta uma determinada ordem social. As deusas ajudam a estruturar um imaginário no qual o poder masculino ocupa o centro da soberania, enquanto às mulheres são atribuídos papéis específicos na manutenção dessa ordem.

É nesse ponto que a imagem do labirinto se torna particularmente sugestiva. As mulheres não são excluídas do sistema, mas seus caminhos parecem previamente traçados. Como em um labirinto, há percursos permitidos, funções esperadas e limites invisíveis que delimitam os movimentos possíveis.

Esse sistema funciona como um caminho simbólico. Seus caminhos tortuosos procuram conduzir as mulheres a trajetórias previamente definidas, limitando sua autonomia e restringindo suas possibilidades de existência. O machismo tenta transformar esse labirinto em regra, como se fosse a própria ordem natural do mundo, que mais se assemelha a uma prisão. 

No entanto, assim como nos mitos antigos, todo labirinto carrega em si a possibilidade de um fio de Ariadne que permita atravessá-lo. Reconhecer os caminhos da masculinidade tóxica talvez seja o primeiro passo para desmontar essa arquitetura de poder e abrir novas saídas para além do mito da superioridade masculina.

Talvez seja hora de finalmente encontrar o fio de lá  e sair desse labirinto.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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