A movimentação

O presidente da República tem uma fala sempre pronta (e equivocada) para homologar o caos

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Nada simboliza melhor o atraso mental de um povo, do que Jair Bolsonaro postando foto com gesto de atirar. O presidente da República tem uma fala sempre pronta (e equivocada) para homologar o caos. O tal do “eu quero todo mundo armado”, como disse o presidente em reunião ministerial do dia 22/4, ressalta que ideias como essa devem ser demolidas de forma imediata. 

Essa estupidez em doses generosas não deveria surpreender. Aliás, Bolsonaro assumiu o poder abraçado a uma agenda de violência, uma autêntica sinfonia de odores. E muita gente surfou animadamente no tsunami da bestialidade que tomou conta do país.

É que parte do nosso atraso começou com o golpe de 2016 e foi à catástrofe em 2018, com 58 milhões de pessoas votando em Jair Bolsonaro, e muita mentira disparada pelo gabinete do ódio, que bancou o flautista de Hamelin. “É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade”, lembraria José Saramago (“Ensaio sobre a cegueira”). 

Se antes da eleição se viu alguma sombra, com milhões de eleitores coniventes com o discurso tirânico de Bolsonaro, as coisas depois pioraram. Foi assim que deixaram um grupo capturar o Estado e o instrumentalizar ao querer, ao ponto de o Brasil gabaritar as 14 características do fascismo, que Umberto Eco enumerou no livro “O Fascismo Eterno”. 

Hoje, Bolsonaro é motivo de chacota aos quatro cantos do planeta. O ex-militar fracassado do Exército, conhecido por sua delinquência política, terá de responder extensivamente sobre os episódios em que violou a Constituição e outras agressões à lei de número 1.079/50. 

Sim, as coisas pioraram para Jair Bolsonaro. Atualmente ele preside um país onde 2/3 da população não o aceita no Alvorada. Há mais: todos sabem dos 36 pedidos de impeachment protocolados na Câmara contra ele e também da ação que tramita no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) quanto a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão.

Daí cabe um arco de reflexões, a começar pelos 42 milhões de brasileiros que anularam ou abstiveram do voto nas eleições de 2018, quando a opção ficou entre Bolsonaro e Haddad. Nesse conjunto de pessoas despolitizadas (ou mal politizadas pela propaganda de extrema-direita), boa parte nem sequer dá conta do recrudescimento do autoritarismo no Brasil atual, o que faz lembrar que ainda existe um silêncio bastante parecido com a estupidez. 

Bolsonaro é um projeto de horror fascista. Ele busca organizar massas e se entranhar nos setores do grande capital e da pequena burguesia urbana. Paradoxalmente, emprega um discurso antielite a pretexto de que as instituições estão corrompidas. Todavia, a maior curiosidade é que nada se vê debater sobre pobreza, distribuição de renda, exclusão social, as desigualdades mais brutais.

E na agonia aguda, qualquer apoio contra esse movimento autoritário (no limite, fascista) é indispensável. Nestes dias, para aumentar os teores de respeito às instituições e à democracia é necessário um sacolejo naqueles que votaram em Bolsonaro em 2018 apenas para impedir o retorno da esquerda (o não-petismo, o não-vermelho).

É preciso um chacoalho também nos já mencionados 42 milhões de brasileiros que anularam ou abstiveram do voto em 2018, a fim de que eles entendam que não vale a pena sacrificar décadas de esforço na construção de uma Constituição – projeto preocupado com a proteção aos direitos e garantias fundamentais individuais e coletivos – para apostar num discurso de salvação da pátria, com lastro na figura pessoal de Jair Bolsonaro.

Num outro giro, não dá para esperar muito de manifestos políticos amplos. Todavia, essas iniciativas suprapartidárias, que priorizam adesões virtuais em tempos de curvas pandêmicas ainda ascendentes, pode prestar colaboração e fortalecer o bloqueio do neofascismo. O ponto? Risco de essas inciativas virtuais serem viradas à direita. É aí é que mora o perigo.

Respeitando os leitores e leitoras que pensam diferente, o que aqui se quer é apenas abrir um parêntese. Veja-se. O deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) criou um grupo de WhatsApp com congressistas denominado “Democráticos” (aqui). Estão no grupo as ex-bolsonaristas Joice Hasselman (PSL-SP) e Janaina Pascoal (PSL-SP). É sempre bom recordar que essas pessoas pintaram um alvo de criminalização nas costas da esquerda. Mais: mobilizaram o golpe de 2016 e são os “antifascistas” de agora. Penso que é necessário considerar isso.

Afora esse reparo, talvez esses manifestos “pró-democracia” possam ajudar no encolhimento das hostes bolsonaristas, trazendo inclusive gente sem relação com partidos ou movimentos sociais para sustentar a defesa da democracia. É bom que se diga, que o mencionado grupo criado por Kataguiri, igualmente tem os principais nomes da esquerda, como Marcelo Freixo (Psol-RJ) e Alessandro Molon (PSB-RJ). 

Acrescente-se que os principais cientistas políticos estão comentando o tema das iniciativas das sociedade civil que pedem respeito pela democracia. A propósito, o destaque vai para os lúcidos posts de Luis Felipe Miguel (aqui), que ajudam a desfazer mal-entendidos e avançar num debate mais honesto sobre as propostas de movimentos pela derrubada do fascismo bolsonarista.

Tudo isso pode ser resumido pela seguinte ótica: bloquear o crescimento dos inimigos da democracia, ou impedir que eles implantem uma ditadura, requer o movimento de juntar “todo mundo”. Não há outra forma. Somente assim é possível fazer a remoção do neofascismo de forma lenta, gradual. Contudo, há que se demostrar inteligência tática para que as coalizões amplas não emudeçam a voz da esquerda, que pode trazer respostas e soluções aos transtornos atuais do país. 

Há um caminho duro pela frente, não é mesmo? Não pense que será fácil. É que “o fácil entendia, o difícil desafia”, dizia Paul Valéry.

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