A nossa elite continua sendo “portuguesa”

Consumimos exaustivamente a cultura dos outros. As outras civilizações são melhores que a nossa. Lá fora eles não roubam, a saúde funciona...

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Consumimos exaustivamente a cultura dos outros. As outras civilizações são melhores que a nossa. Lá fora eles não roubam, a saúde funciona... (Foto: Marconi Moura de Lima Burum)


O que faziam os portugueses nos primeiros dias (de 1500) aqui no Brasil? Expropriavam nossas riquezas e vazavam[-nas] daqui. Enviavam tudo o que "ganhavam" para Portugal. Os nobres europeus se banqueteavam com as dádivas das terras brasileiras – e aqui, mais pobreza, mais miséria se era institucionalizada.

O problema é que parte dessa elite ainda reside nas mentes nacionais. Não se veem como brasileiros. Chamo-os de "portugueses" brasileiros. Aqueles que cedem, gratuitamente (com algumas sobras para si mesmos e seus aparentados) os nossos minérios, alimentos, florestas, o nosso petróleo, as nossas commodities e a nossa própria vida (sacrificada pelo trabalho duro dos chãos das fábricas e das fazendas) para outras nações, outros povos.

Onde vou tentar chegar? O mundo enfrenta uma crise econômica poucas vezes vista. Talvez comparável à Grande Depressão, eclodida com a quebra da Bolsa dos Estados Unidos da América em 1929. Todas as angústias possíveis passou a civilização humana com a recessão estadunidense. Novamente eles são o pivô dessa degradação macro-sistêmica. Os problemas do mundo capitalista contemporâneo, para além de uma crise moral do paradigma do consumo moderno, ressurge com a Bolha Imobiliária de 2008 nos logradouros americanos... e se espalham para o restante do Planeta, reduzindo a quase "pó" economias mais sensíveis como as da Grécia e da Espanha (países nas marginais da União Europeia).

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Integradas cada dia mais, as nações sucumbem. A Rússia, que aglutina necessidade da energia produzida pela Ucrânia (quebrada), disputa com a Europa sua intervenção sobre este país. Envolta num embargo pouco razoável, afunda-se na recessão. A China, gigante do PIB por algum tempo acima dos dois dígitos, também tonteia por segundos duradouros. A Argentina passa-se à condição de nação protocolar, sem reservas, sem estabilidade e quase sem vergonha (no bom sentido), declara alguns calotes a seus credores. O Brasil se vê deslumbrado, sem ter mais margens de "sobrevivência" nesse mundo de "loucos" capitalistas esbaforidos. E se a economia vai mal, as pessoas comem menos, o empresário perde mais-valia e a política entra em cena. "Taca-lhe pau nesse carrinho, massa! Taca-lhe pau!".

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Embora minha análise da conjuntura econômica seja mais didática que técnica, o que pretendi foi debater um pouco sobre as tempestades nos mares afora invadindo a costa brasileira. A Petrobrás, uma das mais cobiçadas empresas do mundo – e quase privatizada na década de 90 –, agora sofre todos os desmandos possíveis para [se] conseguir aqueles que a querem vendida ao "estrangeiro", aí, sim, atingir o objetivo. Vítima de uma dilapidação sem precedentes a partir das veias corruptas dos políticos brasileiros (de todas as décadas), e do requinte de crueldade de empresários brasileiros que já intencionam a sua "doação", é vista esta empresa como uma salvaguarda para o equilíbrio econômico e energético, senão global, daqueles que agendam muito em Wall Street. Em resumo: o povo não "sabe de nada, inocente"!

Mas ainda não é disso que eu pretendia falar na reflexão. Não é reviver a falência propositalmente provocada na Vale do Rio Doce, a maior mineradora do mundo, para, finalmente, seu escambo digno de "feira do rolo" na década de 90, vendida por tostões não-razoáveis de seu real valor (vide os trilhões de dólares que a Vale vale). São símbolos. A Petrobras e a Vale guardam simetria. Esse é um apontamento de risco, caso não façamos nada (nós, as pessoas comuns, o povo). Porém, o povo está sendo ludibriado – faz muito tempo. Por dois motivos, ao menos: um, as pessoas assistem muita TV e, religiosamente, seguem os que estes jornalistas pregam como verdade; e, dois, o brasileiro não gosta muito do Brasil.

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Quer saber: o título deste texto bem poderia ser trocado para "A síndrome do viralatismo brasileiro". Detestamos o nosso País. Consumimos exaustivamente a cultura dos outros. As outras civilizações são melhores que a nossa. Lá fora eles não roubam, a saúde funciona (embora, essa parte e outras guardem mesmo margem para críticas). É, lá as coisas são melhores. Esses são trechos de discursos que saem de nós cotidianamente. Foram impostos na construção de nosso imaginário. Está em nós o distanciamento do caráter que nos empodera – dá orgulho – para sermos, de fato, brasileiros.

Confesso que estou cansado de conviver com gente que "não se gosta". De assistir a políticos ambiciosos, semi-desgraçados, ladrões (em sua maioria) e egoístas; políticos que antes de pensar no seu eleitor, na sua mãe (ou filhos), no seu povo, dedicam suas falas sofistas e sua militância libada de enxofre às causas de seu próprio querer solitário. De saber que no meu País, boa parte dos empresários se rende às determinações dos mercados internacionais ao ponto de entregar – quase sem retorno – as riquezas de nossa terra-mãe (é o caso que acontecerá com a Petrobras). Mas talvez, o que mais me faça desalentar seja a inobservância do cidadão diário quanto à crença – e exercício ético – no zelo ao seu País, o Brasil; de até se enxergar como brasileiro, mas tem de ser rapidinho, antes que alguém saiba que é nesse lugar que tu vai ter que viver para o resto da tua vida – com algumas gerações futuras.

Pessoal (na intimidade que nos é própria; somos iguais), olhem! Não estou pedindo que deixem de denunciar as injustiças de nosso Brasil. Ainda são muitas, muitas mesmo. Entretanto, revejam conceitos. Acreditem que temos muita coisa boa, e que tudo pode ser melhor se assim, de fato, lutarmos. Qual país tem uma biodiversidade tão densa e rica (vide a Floresta Amazônica, o Pantanal, o Cerrado, a Mata Atlântica e todos os remédios, água, alimentos que ali existem)? Quantos países têm, ao mesmo tempo, rios caudalosos e petróleo de sobra? Em quais praias e cachoeiras do mundo encontramos tanta gente bonita, calor humano e alegria como nas nossas? Que nação tem esse povo tão belo?

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O Brasil é um dos maiores produtores – natural – de silício no mundo. O mineral é matéria-prima necessária para os chips dos computadores e dos celulares que estão nos ouvidos – ou nas mãos – de bilhões de seres humanos neste instante. Aqui ainda tem muita água (apesar de que estamos desprezando isso). O País é considerado a "fazenda do mundo" (tirando a ideologia, trata-se do maior produtor de alimentos da Terra). Para fabricar mísseis e armas tão poderosas, a França, a Alemanha, os EUA são obrigados, vou repetir: obrigados a negociar nióbio, um tipo de metal que o Brasil detém 98% das reservas e 90% do atual mercado. Podemos diminuir o discurso autoritário deles sobre nós – basta que os "portugueses" brasileiros estufem o peito, tenham coragem, se respeitem e respeitem nosso povo. Basta que busquemos novos meios de intercâmbio comercial que, primeiro, valorize nosso povo e nossas riquezas, para, a seguir, colaborar com as demais nações do Planeta. Basta que façamos uma [auto]crítica inteligente acerca da corrupção brasileira, hoje sob o olhar na fratura exposta da Petrobras.

Não dá para desprezar a História. De vez em quando ela vai se repetindo. Eu queria, sinceramente, acreditar que os arautos da ética na política: nossos Congressistas, que hoje bradam a nova "revolução" burguesa, os empresários delatores-heróis de contingência e a nossa sentinela tão servil, a imprensa brasileira, tivessem, de fato, querendo um País melhor. Não, minha gente, tenho certeza que para além de salvar as vísceras da nossa maior empresa no mercado internacional, a Petróleo Brasileiro S.A., essa gente a quer dar de presente para os seus sempre astutos membros da Metrópole: a elite estrangeira do mercantilismo moderno; o capitalismo oscilante da atualidade, não mais somente na Península Ibérica (para onde nossa elite correu), todavia, nas terras do Tio Sam... E ao que parece, vamos deixar barato!

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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