A pátria subtraída e a arte degenerada

Na avaliação da classe média a degenerescência dos costumes é o mais grave problema que o país enfrenta atualmente. Pouco importando o retrocesso e o assalto – escancarado- às riquezas do país, alienando a sua soberania e os direitos da sua população

Na avaliação da classe média a degenerescência dos costumes é o mais grave problema que o país enfrenta atualmente. Pouco importando o retrocesso e o assalto – escancarado- às riquezas do país, alienando a sua soberania e os direitos da sua população
Na avaliação da classe média a degenerescência dos costumes é o mais grave problema que o país enfrenta atualmente. Pouco importando o retrocesso e o assalto – escancarado- às riquezas do país, alienando a sua soberania e os direitos da sua população (Foto: Geniberto Paiva Campos)

(...) “a propaganda política quando apoiada pelas classes instruídas e quando não existe espaço para contestá-la, pode ter consequências importantes. Foi uma lição aprendida por Hitler e por muitos outros e que tem sido adotada até os dias de hoje.” (1)

  

O que mais comove e mobiliza os brasileiros de classe média, nos dias atuais?

Ver o seu país ser despojado de suas riquezas, alienar a sua soberania, comprometer o seu futuro? (como na canção do Chico a “pátria tão distraída, sem perceber que era subtraída?”).

Ou assistir impassível a pedofilia e o homossexualismo invadirem os museus e as exposições de arte (a “arte degenerada”, de Goebbels, na Alemanha Nazista)?  Ver a diabólica televisão em seu inexorável processo de destruição da família brasileira? Perceber, aflito, as escolas invadidas pelos (te esconjuro!) “partidos”?

Acertou quem escolheu a segunda alternativa.

Na avaliação da classe média a degenerescência dos costumes é o mais grave problema que o país enfrenta atualmente. Pouco importando o retrocesso e o assalto – escancarado- às riquezas do país, alienando a sua soberania e os direitos da sua população.

E como teria sido obtido, tão facilmente, esse estranho consenso?

Antes que algum mais apressado insinue que se trata de uma característica, de uma marca da ingenuidade inata do povo brasileiro, permitam manifestar nossa discordância. E explicitar nossas advertências.

Espera um pouco. Pois não é disso que se trata. Afinal, não se aplicaria aqui nosso abominável “complexo de vira-lata”.

Alguma coisa acontece no coração e na mente dos brasileiros. E está muito longe de constituir um defeito da “índole do nosso povo”.

É algo bem mais grave e mais sério, de abrangência ampla, e que acomete, ciclicamente, há mais de um século vários países do mundo.

Populações cultas, de países industrializados, desenvolvidos, ditos civilizados, têm sido facilmente vítimas dessa estranha síndrome: deixar de enxergar o que de mais grave acontece com o seu país, e ter a sua atenção sutilmente desviada para problemas habilmente inseridos nas suas preocupações cotidianas.

Do que estamos falando, então? De propaganda e manipulação, de (alto) nível profissional. Para a criação do consenso: “obter a concordância do povo a respeito de assuntos sobre os quais ele não estaria de acordo, por meio de novas técnicas de propaganda política.” (1)

Pois é disso que se trata. Para o bem e para o mal.

Em pronunciamento recente, o senador Roberto Requião (PMDB/PR) afirma com plena convicção: “Talvez fosse pedagógico, ou mesmo um exercício indispensável, que se estudasse a ascensão do Fascismo na Alemanha, Itália, Espanha, Portugal e o fenômeno do Macarthismo nos Estados Unidos”. (2)

É algo, percebe-se, que vem de muito longe.

E que implica no controle do pensamento da população. Da mesma maneira que se criam necessidades para incremento do consumo de produtos oferecidos nas prateleiras das lojas, é possível criar e controlar o pensamento político da população. De todos os países.

Para a exata compreensão do que acontece com o Brasil a partir da primeira década deste século, torna-se essencial refletir e assumir que o país foi, mais uma vez, objeto de manipulação político ideológica. Método infalível, aplicado nos mais diversos contextos. Para atender os mais diferentes objetivos. Às vezes sem qualquer sutileza, comandado por uma Mídia tosca e soberana.

E o tema, direto e operacional, escolhido pela enésima vez, foi o “combate à corrupção”. Por algum desconhecido motivo, ainda capaz de despertar incontida indignação da classe média.

Tamanha revolta, criada e alimentada pela Mídia, passou a influenciar as decisões do sistema judiciário. O qual, captando acriticamente os anseios punitivos da “opinião pública”, incorporou certos conceitos, no mínimo discutíveis. E à falta absoluta de provas concludentes, aplica suas convicções pessoais. Valor mais alto que se alevanta, e fala com mais ênfase que o conteúdo dos autos do processo.

Reforçando a tese da “convicção pessoal”, foram também incorporados às nossas leis o “domínio do fato”, a “literatura jurídica”. E, adicionalmente, a “delação premiada”. Conceitos inspirados na “novilíngua” orwreliana. Agora parte integrante do léxico jurídico brasileiro. Para satisfazer o ímpeto punitivo das massas. Pintadas para a guerra. E sedentas de sangue.

Nesse contexto, o Estado de Direito desaparece e em seu lugar surge o Estado Pós Democrático (3). O qual dará sustentabilidade à Teoria Neoliberal, para atender aos sonhos e desejos do Capitalismo Improdutivo e do Partido do Empresariado Rentista.

Na avaliação do professor Thomas de Toledo: “O Brasil pode estar caminhando para uma fase que no futuro chamaremos de 2º Período Colonial, no qual a soberania popular foi substituída pela partilha do país entre as grandes corporações estrangeiras, a escravidão foi reimplantada de forma mais sofisticada e as igrejas fundamentalistas passaram a doutrinar ideologicamente a massa emburrecida pelo jogo de aparências das redes sociais.” (4)

E assim, o país caminha em marcha acelerada ao encontro do seu novo destino, atravessando a chamada Ponte para o Futuro, que desagua nas delícias civilizatórias do século 19. Época em que o trabalhador não tinha direitos, era em sua maioria negro escravo, e conhecia o seu lugar.

Caminhamos, altaneiros, para um imprevisível período de trevas. Mas guardando todo respeito à moral e aos bons costumes.

 

(*) – Do Coletivo Lampião

(1)- Noam Chomsky, in “Mídia/ Propaganda Política e Manipulação” – Ed. Martins Fontes – SP, 2013

(2) Discurso do senador Roberto Requião – Senado Federal, outubro, 2017

(3) Rubens R.R. Casara, in “Estado Pós Democrático- Neo -  Obscurantismo e Gestão de Indesejáveis” – Ed. Civilização Brasileira – RJ, 2017

(4) Thomas de Toledo, in PRÓ-VÍTIMAS.ORG. –  outubro, 2017

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