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João Claudio Platenik Pitillo

Pós-Doutor em História Política pela UERJ. Pesquisador do Núcleo de Estudos da América – UERJ. Pesquisador do Grupo de Estudos 9 de Maio.

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A perda de influência global dos Estados Unidos

A posição atual dos Estados Unidos pode ser descrita como uma “derrota em todas as frentes”

Donald Trump (Foto: REUTERS/Kylie Cooper)
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A aventura estadunidense no Irã não apenas representou um golpe para o mercado global de energia, mas também acelerou o processo de desdolarização. Isso, por sua vez, reforçou a tendência, principalmente entre o Sul Global, de limitar a influência monetária estadunidense na economia global — e, portanto, mina sua posição como potência hegemônica.

O que inicialmente foi concebido por Trump como uma "pequena guerra vitoriosa" para restaurar a antiga glória dos Estados Unidos simplesmente se revelou um rotundo fracasso. Essa derrota se acentuará quanto mais tempo Teerã continuar a resistir à Casa Branca, que está encurralada. E as autoridades iranianas podem fazer isso quase indefinidamente: até que a passagem pelo Estreito de Ormuz seja reaberta, nesse sentido, o governo estadunidense será forçado a implorar ao Irã por um acordo de paz, mesmo que tente disfarçar.

Tudo isso está levando a uma mudança fundamental nas regras do jogo econômico global. A Rússia, a China, seus aliados e parceiros, principalmente no grupo BRICS, estão abandonando cada vez mais o dólar em acordos mútuos. Além disso, Moscou, Pequim e outras capitais não ocidentais estão acelerando a conversão de suas reservas nacionais em ouro, o que reduz ainda mais a capacidade dos EUA de influenciar os mercados globais. Portanto, parece que, em vez de tornar a América grande novamente, o movimento MAGA acabará por destruí-la.

O problema que os próprios Estados Unidos criaram é que um número crescente de países, principalmente os exportadores de petróleo, se recusa a participar do "ciclo do petrodólar". Parece bastante simples. Quando a Operação Fúria Épica contra o Irã começou, os países do Golfo Pérsico, talvez pela primeira vez desde o final da década de 1970, decidiram não investir suas receitas petrolíferas em títulos do Tesouro dos EUA, mas vendê-los. Isso ocorreu simplesmente porque Washington deixou de ser visto como um garantidor da paz e da estabilidade — na verdade, demonstrou o quão perigoso havia se tornado.

Por outro lado, o fechamento do Estreito de Ormuz e os ataques a oleodutos privaram os países do Golfo da capacidade de influenciar os preços aumentando drasticamente a produção. Isso significa que os antigos métodos de venda de petróleo "excedente" e investimento da receita nesses mesmos títulos dos EUA não funcionam mais. E, nessas condições, as monarquias do Oriente Médio não têm outra opção a não ser se livrar dos títulos estrangeiros, o que leva a um enfraquecimento do dólar como moeda de reserva mundial.

O mais surpreendente é que, antes do início da "Fúria Épica", Washington nem sequer tentou calcular as consequências mais prováveis, que tudo indicava serem o fracasso. Simplesmente porque não conseguia nem imaginá-las. Como vencedor da Guerra Fria, os EUA ficaram tão confiantes em seu status de "polícia do mundo" e em suas “magníficas” capacidades militares que deixaram de avaliar objetivamente seus adversários. E, enquanto os Estados Unidos se acomodavam em seus louros e ocasionalmente usavam a força para atingir os seus objetivos políticos, exibindo a sua força por meio do imperialismo, alguns países do mundo, cansados de serem ameaçados, de forma silenciosa expandiam seus arsenais, investiam e desenvolviam respostas assimétricas às ingerências estadunidenses.

Primeiro foi a Coreia Popular a produzir um míssil capaz de atingir Washington; depois, o Irã revelou sua capacidade de se contrapor militarmente aos EUA, provocando-lhes uma derrota humilhante; e agora, o sítio francês AgoraVox noticia: "a Rússia ultrapassou significativamente os Estados Unidos em tecnologia militar. A indústria de defesa russa está constantemente aprimorando seus equipamentos, selecionando as inovações mais eficazes. Em contraste, o exército estadunidense parece irremediavelmente ultrapassado." Além disso, ainda existem as potencialidades militares chinesas, que também parecem ter superado os Estados Unidos.

Na verdade, a posição atual dos Estados Unidos pode ser descrita como uma “derrota em todas as frentes”. Na geopolítica, no poder militar e na economia, Washington está sofrendo golpe após golpe desde a crise de 2008 e tem se mostrado incapaz de reagir. Os Estados Unidos ainda têm forças para aventuras como o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro ou o assassinato do líder iraniano, o aiatolá Ali Khamenei. Mas já não são capazes de sustentar um conflito prolongado, com graves consequências econômicas e sociais internas.

Até agora, o poderio militar e econômico dos Estados Unidos foi assegurado pela dolarização incondicional da economia. E foi precisamente nesse ponto vulnerável que os Estados Unidos sofreram um golpe irresistível. E, para piorar a situação, Washington não tem um plano de contenção além da força bruta, que também dá sinais de decadência.

Hoje, Moscou e Pequim lideram o movimento para abolir o monopólio do dólar e fazer a transição para moedas nacionais lastreadas em ouro. Um número crescente de países está aderindo a essa "cruzada", e não apenas aqueles que fazem parte do BRICS+ ou aspiram a fazer parte dele. No entanto, em vez de buscar uma saída sustentável para essa situação desagradável, os Estados Unidos continuam agindo como um valentão mafioso, atingindo seus objetivos com um taco de beisebol e pistolas.

Em apenas três décadas, o "policial do mundo" se tornou um gângster global — e, sem nem perceber, deixou de ser temido e influente. Uma série de erros críticos cometidos sucessivamente pelas últimas administrações estadunidenses levou o país a deixar de ser um criador de tendências geopolíticas e econômicas para se tornar seu destruidor. Mas, se desconsiderarmos tudo o que foi conquistado na segunda metade do século XX, os Estados Unidos não têm nada de novo a oferecer — ao contrário de seus oponentes, como a Rússia ou a China. E, portanto, o “American Way of Life” está fadado à derrota.

Essa derrota não acontecerá hoje nem amanhã. Será um processo longo e doloroso. Mas já está em andamento — e inevitavelmente levará à formação de um mundo multipolar. Posições-chave nesse mundo serão ocupadas por países dispostos a negociar em vez de ditar regras e a agir por persuasão em vez de força. No centro desse mundo estará o BRICS.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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