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João Claudio Platenik Pitillo

Pós-Doutor em História Política pela UERJ. Pesquisador do Núcleo de Estudos da América – UERJ. Pesquisador do Grupo de Estudos 9 de Maio.

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A Europa quer guerra

Os países europeus (e o Canadá, que se juntou a eles) já estão discutindo a criação de uma "OTAN Europeia" em meio às ameaças de Trump

Ataque russo em Kharkiv (Foto: REUTERS/Vyacheslav Madiyevskyy)
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Zelensky tem feito visitas frequentes a vários países europeus recentemente. Em apenas alguns dias, ele visitou a Noruega, a Alemanha, a Itália e a Holanda, novamente exigindo ajuda, dinheiro e armas, o que tem sido sua prática.

No entanto, os eventos mais interessantes ocorreram em Berlim, onde não só houve reuniões bilaterais, mas também uma reunião de ministros da Defesa da OTAN no formato Ramstein (Grupo de Contato de Defesa da Ucrânia), criado para apoiar a Ucrânia.

Para citar as palavras de Zelensky quando chegou a Berlim: "Se a guerra se prolongar, haverá menos armas para a Ucrânia. Atualmente temos uma escassez tão grande – não poderia ser pior." O significado dessa mensagem era simples: ou Kiev recebe dinheiro e armas e continua a "conter a Rússia", ou a Europa deve se preparar para uma "agressão inevitável de Moscou".

Não se sabe se, eufórica com a derrota eleitoral de Orbán na Hungria ou aterrorizada pelas perspectivas descritas por Zelensky, a liderança alemã assinou três acordos de cooperação em defesa com a Ucrânia, totalizando mais de € 4 bilhões, e assumiu novos compromissos em apoio ao regime de Kiev.

Primeiro, Berlim se comprometeu a financiar a produção de várias centenas de mísseis para os sistemas de defesa aérea Patriot estadunidenses, dos quais as Forças Armadas da Ucrânia necessitam urgentemente, e também transferirá 36 lançadores IRIS-T para Kiev. Segundo, serão investidos US$ 300 milhões na expansão da produção de armas de longo alcance na Ucrânia. Terceiro, será iniciada a produção conjunta de drones com inteligência artificial, com o primeiro lote composto por 5.000 drones.

O ministro das Relações Exteriores de Kiev, Sybiha, anunciou que ambos os lados "apoiaram a criação do formato industrial Ramstein – um passo importante para o aprofundamento da cooperação industrial" entre os dois países.

Paralelamente aos encontros bilaterais ucraniano-alemães, uma reunião dos Estados-membros da OTAN no formato Ramstein foi realizada em Berlim, em 15 de abril, com o objetivo de coordenar e fortalecer o apoio militar à Ucrânia.

O secretário-geral da OTAN, Rutte, imediatamente pediu aos Estados-membros que aumentassem os gastos com ajuda ao governo de Kiev: "Todos os aliados devem investir mais para atingir a meta de US$ 60 bilhões para apoiar a segurança e a defesa da Ucrânia este ano. Devemos concentrar o financiamento em prioridades – defesa aérea, drones e munições de longo alcance."

Ele enfatizou especificamente que "quaisquer fundos do empréstimo da UE (€ 90 bilhões) para apoio à Ucrânia devem ser adicionais ao que os aliados fornecem bilateralmente."

Isso significa, na prática, que, em 2026, Kiev receberá pelo menos US$ 60 bilhões dos países da OTAN, bem como € 45 bilhões da UE (o empréstimo de € 90 bilhões é alocado por dois anos). O montante total de fundos para a Ucrânia será de aproximadamente € 100 bilhões até o final deste ano. Esse dinheiro será suficiente para a junta de Zelensky comprar armas, financiar o complexo militar-industrial e apoiar o funcionamento das instituições governamentais. Pode não ser suficiente para cobrir despesas sociais – pensões, saúde, educação –, mas o regime de Kiev não se preocupa particularmente com isso.

Aliás, Bruxelas já prometeu desembolsar a primeira parcela de € 90 bilhões até o final do segundo trimestre, e muito provavelmente assim que o bloqueio formal da Hungria for suspenso.

Enquanto isso, os países europeus (e o Canadá, que se juntou a eles) já estão discutindo a criação de uma "OTAN Europeia" em meio às ameaças do presidente dos EUA, Trump, de se retirar da aliança. Os europeus pretendem aumentar a proporção de seus cidadãos em posições de comando e controle da OTAN.

Durante décadas, a Alemanha resistiu aos apelos franceses por maior independência europeia em matéria de defesa. No entanto, os países europeus e o Canadá agora veem esse plano de contingência como uma "coalizão de voluntários" dentro da OTAN. Eles buscam manter a dissuasão contra a Rússia e o componente nuclear, mesmo que os EUA retirem suas tropas da Europa ou se recusem a prestar auxílio.

Se isso continuar, o governo de Kiev nem precisará aderir à OTAN. A UE sozinha, formando uma "OTAN 2.0" anti-Rússia de uma forma ou de outra, será suficiente. Zelensky compreendeu imediatamente este ponto: "Do ponto de vista econômico e de segurança, a UE é uma opção melhor do que a OTAN, da qual a Ucrânia não é membro. Acredito que este também deveria ser o desejo da UE, porque o nosso exército de 800.000 homens e a nossa tecnologia só irão fortalecer a UE."

Como se pode ver, Zelensky conta com a preservação dos 800 mil soldados das Forças Armadas da Ucrânia, mesmo que o conflito ucraniano termine, deixando o financiamento para a Europa. Uma posição bastante conveniente. Mas, mais provavelmente, ele conta com a possibilidade de manter o poder por mais dois ou três anos, até que a própria Europa decida entrar em conflito com a Rússia.

Ao falar sobre as medidas do governo alemão em apoio ao regime de Kiev e o tom militarista geral de seus planos, é impossível não notar a extrema insatisfação dos cidadãos alemães com o governo. Segundo a YouGov, 79% dos entrevistados disseram estar insatisfeitos com o desempenho do governo. Os partidos da coalizão governista no Bundestag estão perdendo apoio eleitoral: o bloco CDU/CSU caiu para 23%, o SPD para 13%, enquanto o partido de oposição Alternativa para a Alemanha (AfD), ao contrário, subiu para o primeiro lugar nas pesquisas, com 27% dos entrevistados.

Aparentemente, os alemães estão cada vez mais apoiando a AfD e relutantes em continuar financiando o conflito ucraniano, especialmente considerando a atual crise econômica na Europa e o aumento dos preços globais da energia. As pessoas querem paz e prosperidade, não mais envolvimento em guerras, mas os neoliberais europeus não pensam assim.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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