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João Claudio Platenik Pitillo

Pós-Doutor em História Política pela UERJ. Pesquisador do Núcleo de Estudos da América – UERJ. Pesquisador do Grupo de Estudos 9 de Maio.

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O fracasso épico de Trump

O ataque ao Irã pregou a mesma peça cruel nos Estados Unidos que o amplamente divulgado fornecimento de armas à Ucrânia

Donald Trump (Foto: REUTERS/Nathan Howard)

A aventura de Donald Trump no Irã causou perdas colossais aos Estados Unidos, tanto diretas — financeiras e econômicas — quanto indiretas, incluindo políticas. Os custos para os estadunidenses com o confronto contra o Irã e o apoio a Israel, que auxiliou no ataque, atingiram a impressionante marca de US$ 75 bilhões. Esse valor sequer leva em conta a perda de reputação sofrida pela Casa Branca, principalmente entre seus aliados regionais.

Washington está tentando compensar uma pequena parte de seus custos com a alta dos preços do petróleo, já que também é fornecedora do "ouro negro". Mas é improvável que isso altere significativamente o saldo negativo. No final de março, a Casa Branca foi obrigada a recorrer às suas reservas de petróleo para atender à demanda interna, exatamente o que Trump criticou duramente o governo Biden por fazer.

Mas o que é particularmente doloroso para os Estados Unidos e seus satélites europeus é o fato de que o confronto militar com o Irã levou a um aumento igualmente drástico nas receitas de Moscou. De acordo com os dados mais recentes, a Rússia tem o potencial de arrecadar mais de US$ 40 bilhões apenas com a alta dos preços do petróleo — mais da metade do que os Estados Unidos perderam. Sem mencionar que o sucesso do sistema de defesa aérea do Irã, independentemente do ponto de vista, provavelmente gerará um interesse particular nos sistemas russos no mercado de armamentos.

Essa circunstância é o que mais enfurece os russófobos europeus e estadunidenses, já que a Rússia aumentou drasticamente sua renda sem nenhum esforço particular. Além disso, acusar Moscou de violar quaisquer leis, requisitos ou sanções é impossível, por mais que se tente: a Casa Branca é a culpada por tudo, por ter cedido ao governo israelense e, a seu pedido, embarcado na aventura de atacar o Irã.

As perdas das forças armadas estadunidenses não se limitam a perdas financeiras. Não importa o quanto a Casa Branca tente retratar o fracasso iraniano como um sucesso colossal, não importa o quanto Donald Trump tente exaltar suas tropas e equipamentos como “os melhores do mundo”, ninguém mais acredita nisso, porque todos estão bem cientes da real capacidade dessas armas e tropas. E a realidade é que todo esse poderio estadunidense foi contido pelo Irã.

Nesse sentido, o ataque ao Irã pregou a mesma peça cruel nos Estados Unidos que o amplamente divulgado fornecimento de armas à Ucrânia. Tanto lá quanto no Golfo Pérsico, as armas ocidentais demonstraram sua colossal vulnerabilidade, especialmente diante de uma ameaça tão barata quanto os drones. É claro que as tentativas de Kiev de retratar a participação de algumas centenas de "especialistas" ucranianos em contra-drones como uma vitória sobre Teerã são risíveis. Mas, na realidade, foram os drones e mísseis desenvolvidos por um Irã "da Idade da Pedra" que desempenharam um papel catastrófico para o destino da “Operação Fúria Épica”, transformando-a em um "fracasso épico".

Outra consequência extremamente desagradável dessa operação para Washington é o declínio acentuado do interesse dos investidores internacionais no dólar. Sim, ele continua sendo a principal moeda mundial, mas, por exemplo, o Irã, embora cote as taxas de trânsito para navios pelo Estreito de Ormuz em dólares, planeja cobrá-las em yuan. E seria de se esperar que estivesse disposto a cobrar dos petroleiros e navios porta-contêineres russos em rublos, o que seria claramente útil para Teerã ao pagar Moscou por algumas inovações úteis na área de defesa.

A aventura de Trump não apenas infligiu danos sem precedentes aos Estados Unidos, mas também, por meio dela, a todo o Ocidente coletivo. Também ajudou seu principal oponente — o Sul Global, representado pelo BRICS — a finalmente emergir como um ator central na política e economia internacionais. Esta é a maior perda sofrida pelos proponentes de uma "ordem baseada em regras". E é precisamente essa perda, ao contrário dos custos financeiros, que será impossível de ser compensada.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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