A quem interessa a obesidade?

O capital e a obesidade
O capital e a obesidade

O ser humano foi “programado” para ingerir cerca de 1,8 quilos de comida diariamente. Tiro essa informação do excelente livro “O dilema do onívoro”, bestseller do jornalista e escritor norte-americano Michael Pollan, lançado em 2006, no qual ele aborda, dentre outros assuntos, o problema da obesidade nos Estados Unidos, onde já virou uma questão de saúde pública.Hoje em dia a obesidade não é uma exclusividade norte-americana, mas sim um problema globalizado, que atinge, principalmente, os países desenvolvidos. Segundo o Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional na América Latina e Caribe, elaborado em conjunto pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) e a Organização Pan-americana de Saúde (OPAS), divulgado em 2017, a obesidade também já é um problema no Brasil.

O documento, baseado em dados da organização Mundial da Saúde, de 2014, apontava que mais da metade da população brasileira estava com sobrepeso, saltando de 51,1% em 2010 para 54,1% em 2014.  Em relação à obesidade, em 2010, 17,8% da população era obesa; em 2014, o índice chegou aos 20%. das pessoas adultas. Além disso, o relatório estimava que 7,3% das crianças menores de cinco anos estavam acima do peso.

O relatório apontava, ainda, que muitas famílias tinham deixado de consumir pratos tradicionais e saudáveis, aumentado a ingestão de alimentos ultraprocessados e de baixa qualidade nutricional. 

E é aí que mora o perigo.

Para lucrar com comida, a indústria de alimentos tem, basicamente, três alternativas, que podem agir juntas ou separadamente: aumento da população, fazer com as pessoas paguem mais caro pela comida, ou fazer com que as pessoas comam mais, bem mais do que os necessários 1,8 quilos diários. E isso ela sabe fazer como ninguém.

A população, principalmente nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, não tem crescido num ritmo que possa dar à indústria de alimentos o lucro esperado e desejado. E em muitos países, Brasil inclusive, a tendência é de queda no número de habitantes. 

Fazer com que as pessoas paguem mais caro pela comida também pode ser um complicador, pois depende de fatores econômicos, como o poder financeiro para aquisição de alimentos. Resta, então, fazer com que as pessoas comam mais do que o necessário e, por conseguinte, gastem mais. E engordem. 

Se a gente pensar racionalmente, ninguém precisa de um Bic Mac (dois hambúrgueres industriais, três fatias de pão, queijo, alface e molho engordativo) ou de um Triplo Cheeseburger para se alimentar bem. Pois bem, no momento em que escrevo esse texto o McDonald’s está com a promoção “Escolha 2 clássicos por R$ 14,90”. Convenhamos que é um preço relativamente baixo. Além dos já citados sanduiches, o cliente tinha à sua escolha cinco outros “clássicos”. Considere, ainda, o refrigerante que vai acompanhar essa “refeição” e, quem sabe, uma batatinha frita. Já viu né...

Apetite elástico

A indústria de alimentos descobriu que “o apetite humano é surpreendentemente elástico”, com aponta Pollan, que acrescenta: “pesquisadores descobriram que pessoas (e animais) quando apresentados a porções grandes de comida, costumam comer 30% a mais que de outro modo comeriam”. De acordo com especialistas, a principal causa da obesidade é: se a comida é abundante a barata as pessoas vão comer mais.

A indústria de alimentos não é a única vilã da história, mas é a principal, pois a ingestão de alimentos ultraprocessados é, talvez, a grande causa da obesidade, aliada à ingestão demasiada e não balanceada de comida, como eu dissera em artigo anterior, e o sedentarismo.

Mas, é aquela história: como resistir ao marketing televisivo e global do McDonald’s ou à propaganda maciça da Coca-Cola. Eu, confesso, adoro Coca-Cola, mas raramente consumo; uma latinha a cada dois, três meses.

De qualquer maneira é bom ficar sabendo que a cultura alimentar do fast-food engorda, e muito.

Depois de instalado o problema entra em cena outro setor que lucra com a obesidade: a indústria farmacêutica, com os seus perigosos moderadores (ou inibidores) de apetite.

Se eles ganham, certamente quem perde, somos nós, seres humanos, que passamos a sofrer de uma série de doenças e problemas de saúde causados pela obesidade, que, em muitos casos, requerem tratamento nutricional. E lá se vai dinheiro com médicos e remédios.

Também o estado perde. Ainda de acordo com o livro de Michael Pollan, em 2006 a obesidade já era um problema de saúde pública nos Estados Unidos, que gastava cerca de 90 bilhões de dólares/ano par cuidar dos obesos.

Há saídas

Mas nem tudo está perdido. Há coisas que podemos fazer para evitar a obesidade. A primeira é mudar os nossos hábitos alimentares, procurando praticar uma alimentação saudável e natural, evitando, ao máximo, a ingestão de alimentos ultraprocessados.

Governos também podem ajudar nesse processo, praticando políticas públicas. Dentre as várias “ações saudáveis do poder público”, cito o exemplo recente da prefeitura de Pomerode, no Vale do Itajaí (SC), que proibiu, no início deste ano, as secretarias municipais de comprarem biscoitos recheados, salgadinhos, frituras, sucos industrializados e refrigerantes, entre outros itens ultraprocessados. A meta para este ano é diminuir em pelo menos 50% o consumo de açúcar. A a população da cidade tem índice de sobrepeso acima da média nacional.

Em julho de 2009, o governo federal já tinha proibido refrigerantes e sucos artificiais na merenda escolar.

E em julho de 2018, o governo do Rio Grande do Sul sancionou a lei que estimula a alimentação saudável e proíbe a comercialização de produtos que colaborem para doenças como obesidade, diabetes e hipertensão em cantinas e similares instalados em escolas públicas e privadas do estado.

Conheça a TV 247

Ao vivo na TV 247 Youtube 247