A responsabilidade da imprensa no caso do Banco Master
Aplicando essa reflexão ao campo do jornalismo, percebe-se que a atividade da imprensa também exige virtude
O consultor imobiliário Paulo Victorino, meu amigo há mais de duas décadas e meia, e eu fomos tomar um cafezinho na Kopenhagen do Platz Mall aqui em Sousas.
Depois de falarmos do que importa, filhos, netos, futebol e das nossas dificuldades nesse mundo cada vez mais digital, chegamos ao escândalo do Banco Master.
O Paulo, que sempre votou no finado PSDB, se reconhece de direita e, para minha tristeza, assumiu-se simpático ao bolsonarismo, criticou, com razão, os excessos de alguns ministros do STF, especialmente a reprovável conduta do ministro Toffoli no caso do MASTER.
Empolgado ele fez um discurso raso sobre ética, Deus, pátria e família, uma tristeza... Chegou o cafezinho e ele parou de falar para degusta-lo, então perguntei a ele: “Mas você não fica com o pessoal da direita e da extrema-direita, que mandaram bilhões de reais para o Banco Master, você não acha que essa indignação seletiva é antiética?” Ele disse que não sabia que o pessoal que ele apoia - Claudio Castro, governador do RJ, o carioca que governa São Paulo e outras dezenas de governadores e prefeitos de direita - enviaram bilhões para o MASTER, quando todos sabiam que a quebra do banco era inevitável.
Falamos sobre o tema, com abrangência maior do que aquela que a imprensa e as bolhas bolsonaristas das redes sociais apresentam; é triste ver como tem gente que só se informa pelo “Whatsapp News”, que quase sempre altera a verdade ou traz conteúdos mentirosos, foi quando chegamos à "Ética a Nicômaco”.
Em "Ética a Nicômaco", Aristóteles desenvolve a ideia de que a virtude ética está no justo meio, sendo resultado do hábito e da prática deliberada do bem. Para o filósofo, a ética não é mera teoria, mas ação orientada pela prudência (phronesis), pela justiça e pela responsabilidade diante da comunidade. A finalidade da vida ética é a Eudaimonia - a realização plena do ser humano por meio da excelência moral.
Aplicando essa reflexão ao campo do jornalismo, percebe-se que a atividade da imprensa também exige virtude. A informação é um bem público e, portanto, deve ser tratada com responsabilidade, equilíbrio e compromisso com a verdade. Quando a cobertura de determinado caso seleciona alvos específicos e ignora deliberadamente outros atores relevantes, há um afastamento da justiça enquanto virtude.
No caso envolvendo o Banco Master e seu proprietário Daniel Vorcaro, observa-se uma narrativa que tenta associar o episódio exclusivamente a ministros do Supremo Tribunal Federal e a pessoas de alguma forma ligadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Essa abordagem, quando desconsidera que governadores, prefeitos, deputados, senadores e presidentes de partido de direita e extrema-direita figuram como importantes parceiros de negócios do Banco Master, revela possível parcialidade na construção da narrativa pública.
A ética aristotélica ensina que a justiça consiste em dar a cada um o que lhe é devido. Se a imprensa direciona sua atenção apenas a determinados grupos políticos, ignorando outros envolvidos com peso semelhante ou até maior nas relações comerciais com a instituição financeira, deixa de agir com equidade. A prudência exige investigação ampla e análise contextualizada, não recortes seletivos que reforcem determinadas disputas ideológicas.
Além disso, Aristóteles destaca que a virtude depende do caráter. O jornalismo, como prática institucional, constrói caráter coletivo. A insistência em vincular o caso apenas a um espectro político específico pode contribuir para distorções no debate público, enfraquecendo a confiança social na informação. A ética da imprensa, portanto, não se resume à veracidade formal dos fatos apresentados, mas inclui a responsabilidade sobre o enquadramento, a proporcionalidade e a completude das informações.
A busca pelo sensacionalismo ou pela confirmação de narrativas prévias afasta-se do ideal aristotélico de excelência moral. A boa prática jornalística deveria aproximar-se da phronesis: avaliar circunstâncias, considerar todos os agentes relevantes e agir com equilíbrio. Quando a cobertura ignora a participação de agentes políticos de diferentes orientações que mantêm relações com o Banco Master, cria-se uma percepção seletiva da realidade.
Sob a perspectiva da Ética a Nicômaco, a imprensa virtuosa é aquela que promove o bem comum por meio da informação justa e equilibrada. A omissão sistemática de determinados atores e a ênfase reiterada em outros comprometem a finalidade ética da atividade jornalística. A virtude, nesse contexto, exige imparcialidade substantiva, investigação ampla e compromisso com a totalidade dos fatos.
Portanto, a reflexão aristotélica oferece um critério claro: agir com justiça, prudência e responsabilidade. A imprensa que busca cumprir seu papel democrático deve orientar-se por esses princípios, evitando reducionismos e seletividades que distorçam o debate público. A ética não é apenas um ideal abstrato; é prática concreta, inclusive no modo como se narra e se contextualiza um caso envolvendo instituições financeiras e agentes políticos diversos.
Que todos os envolvidos em negociatas e lobbys maldosos sejam investigados, denunciados, processados e, em havendo provas, condenados, garantindo-se a todos o devido processo legal; quando digo todos me refiro a todos, da esquerda à extrema-direita, passando pelo centrão de Ciro Nogueira e Rueda.
Essas são as minhas reflexões.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
