A Revolução Verde ia acabar com a fome no mundo. Mas...

Com a Revolução Verde vieram os agrotóxicos, as sementes geneticamente modificadas, os alimentos transgênicos, a monocultura. Hoje em dia questiona-se, e muito, os benefícios da Revolução Verde, que, entre outras coisas, utiliza um altíssimo nível de água para sustentar seus métodos, produz um alto nível de degradação ambiental e o aumento da concentração de renda

agricultura familiar e desenvolvimento rural da Bahia
agricultura familiar e desenvolvimento rural da Bahia (Foto: Ascom/SDR)

Como se sabe, o mundo, hoje, produz alimentos suficientes para alimentar toda a humanidade. Mas também, como se sabe, tem muita gente passando fome no mundo, inclusive no Brasil. E por quê?

Primeiro porque a comida virou um negócio, e nem sempre é um bom negócio alimentar as populações pobres da Índia, da África, da Ásia e do Brasil, por exemplo. Segundo porque há muito desperdício de comida, principalmente nos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Terceiro porque a tal da monocultura bagunçou o coreto da produção agroalimentar. Há outros fatores, mas vamos ficar nesses, por enquanto.

Se dependesse da famosa Revolução Verde, implantada na década de 1950 no México, e depois adotada pelo mundo inteiro, com o objetivo de acabar com a fome no planeta, estaria tudo resolvido. Mas a questão é que a tal da Revolução Verde amarelou.

(Resumindo: a Revolução Verde é um conjunto de técnicas químicas capazes de dar maior resistência às plantações, além de otimizar os métodos de produção agrícola. A Revolução Verde baseou-se, principalmente na modificação genética de sementes, mecanização da produção, uso intensivo de produtos químicos - fertilizantes e pesticidas/agrotóxicos - e produção massificada de produtos iguais como forma de otimizar a produção. Foi criada pelo engenheiro agrônomo Norman Borlaug, financiado pela Fundação Rockefeller. Ele ganhou o Nobel da Paz em 1970)

Realmente, a partir da Revolução Verde o aumento da produção de alimentos no mundo foi muito grande, mas... pessoas continuam passando fome; e quem se alimenta envenena-se com agrotóxicos.

Com a Revolução Verde vieram os agrotóxicos, as sementes geneticamente modificadas, os alimentos transgênicos, a monocultura.

Hoje em dia questiona-se, e muito, os benefícios da Revolução Verde, que, entre outras coisas, utiliza um altíssimo nível de água para sustentar seus métodos, produz um alto nível de degradação ambiental e o  aumento da concentração de renda.

A monocultura é um verdadeiro desastre agrícola e ambiental

No prefácio do recém-lançado livreto “Novas biotecnologias, velhos agrotóxicos: um modelo insustentável que avança e pede alternativas urgentes”, de autoria do agrônomo Gabriel Bianconi Fernandes, a diretora da Fundação Henrich Böll no Brasil (que financiou o trabalho), Annette von Schönfeld, alerta: “Mais monoculturas atraem pragas com mais facilidades, prejudicam fortemente o solo e demandam agrotóxicos cada vez mais fortes e diversos. As promessas de reduzir os agrotóxicos pela implementação de sementes geneticamente modificadas não foram cumpridas e acabaram por desenvolver novas pragas. E assim o ciclo continua...”

Já o autor diz que “o modelo dominante no Brasil impulsiona o uso crescente de agrotóxicos bastante antigos, alguns dos quais já banidos em outros países. Volume significativo desses produtos é aplicado em lavouras transgênicas, oficialmente introduzidas no país há cerca de 15 anos e exatamente com o propósito de reduzir o uso de agrotóxicos”.

E alerta: “Falhas com agrotóxicos são respondidas com mais agrotóxicos; falhas com sementes transgênicas são respondidas com mais sementes transgênicas”.

Ainda sobre monocultura e citando outro livro – “O dilema do Onívoro”, de Michael Pollan – fica-se sabendo, por exemplo, que se a população do estado norte-americano de Iowa dependesse da produção agrícola local, morreria de fome. Isso porque, com exceção da uma pequena produção local, só se cultiva ali milho e soja, destinados à exportação e à indústria de alimentos. O que o povo de lá consome vem de fora.

Houve um tempo em que a comida era apenas um meio para a nossa sobrevivência ou para o nosso prazer. Depois, a comida virou um bem de consumo, algo com que se podia ganhar dinheiro, preferencialmente muito dinheiro. Hoje, a comida ganhou até nome bonito, estrangeiro, virou commodities (que pode ser traduzido como mercadoria). Soja, milho, açúcar, café, suco de laranja, carnes bovina e de frango estão entre as principais commodities brasileiras, ao lado do petróleo, do ferro e do algodão, exportadas para o mundo todo.

Ganhar dinheiro com comida, muito dinheiro, acabou gerando uma série de distorções no sistema agroalimentar mundial, que está de cabeça pra baixo. Sistema esse que, devido às suas características de produção em larga escala de alguns alimentos, impede, por exemplo, o desenvolvimento da agricultura de base agroecológica.

A verdade é que, como já disse o ex-diretor-geral da FAO (órgão da ONU para a alimentação e a agricultura), o brasileiro José Graziano, “o foco no aumento de produção a qualquer custo nos últimos 50 anos não foi suficiente para erradicar a fome no mundo”.

O que me conforta é que, felizmente, não é graças à Revolução Verde, que baseou seu esquema de produção na monocultura e no lucro exorbitante, que o mundo se alimenta, pois a maior parte dos alimentos in natura continua sendo produzida por milhões de camponeses, pequenos produtores, ao redor do mundo, inclusive no Brasil. 

Portanto, repito o óbvio: o grande negócio da alimentação deveria ser o investimento maciço no pequeno produtor, na agricultura familiar. O ideal, no meu entendimento, seria: produção local, consumo local. Quem sabe, um dia não chegaremos lá?

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