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Cibele Amaral

Defensora do Direito Constitucional do Acesso à Alimentação e Nutrição

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A segurança alimentar como direito e o mito da inércia: O papel dos programas sociais no Brasil

Os programas sociais são o que separa o Brasil de um colapso social ainda maior. Defender a nutrição da população vulnerável é defender a soberania nacional

A segurança alimentar como direito e o mito da inércia: O papel dos programas sociais no Brasil (Foto: Lyon Santos/MDS)

A segurança alimentar e nutricional é um direito humano fundamental, previsto no Artigo 6º da Constituição Federal de 1988. No entanto, o Brasil atravessa um cenário de profundas desigualdades, onde a fome não é uma fatalidade biológica, mas uma construção política e econômica. Programas como o Bolsa Família e o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) surgem não como "caridade", mas como mecanismos indispensáveis de Estado para mitigar a insegurança alimentar severa que atinge milhões de lares.

Para quem vive na linha da pobreza, a escolha diária não é entre "trabalhar ou receber auxílio", mas entre comer ou passar fome. Os programas sociais garantem o aporte calórico mínimo para que crianças se desenvolvam cognitivamente e adultos tenham condições físicas de buscar inserção no mercado.

A nutrição adequada é o alicerce de qualquer projeto de desenvolvimento nacional. Sem o Estado intervindo na distribuição de renda, o ciclo da pobreza se perpetua: a desnutrição gera doenças, que geram afastamento do trabalho e custos elevados ao Sistema Único de Saúde (SUS).

É recorrente, em discursos de setores da extrema direita, a afirmação de que "o povo não quer trabalhar porque o governo dá muito benefício". Essa retórica, além de elitista, carece de base empírica.

  • Complementaridade, não substituição: A grande maioria dos beneficiários de programas sociais está inserida no mercado informal ou em subempregos. O auxílio não substitui o salário; ele complementa uma renda que é insuficiente para cobrir o custo da cesta básica.
  • Dinamização Econômica: O recurso do benefício circula imediatamente no comércio local — na padaria, no mercado do bairro —, gerando demanda e, consequentemente, empregos.
  • A Falácia da Desistência: Estudos do IPEA e de diversas universidades demonstram que o "efeito preguiça" é um mito. O que afasta o trabalhador do mercado formal é a precarização do trabalho, os baixos salários e o custo do transporte, e não o valor do benefício social, que mal cobre as despesas básicas de subsistência.

A extrema direita utiliza essa narrativa para justificar o desmonte do Estado de Bem-Estar Social e para desumanizar a classe trabalhadora, tratando a fome como uma escolha individual e não como uma falha estrutural do sistema capitalista periférico.

Os programas sociais são o que separa o Brasil de um colapso social ainda maior. Defender a nutrição da população vulnerável é defender a soberania nacional. A crítica que prega a "acomodação" do povo é, no fundo, uma tentativa de silenciar a responsabilidade do Estado perante os mais pobres e manter privilégios históricos. É imperativo que a política de segurança alimentar seja fortalecida e protegida contra o revisionismo ideológico que prefere ver o povo com fome a vê-lo assistido por direitos.

Referências Bibliográficas

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 2024.IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Os efeitos do Programa Bolsa Família sobre o mercado de trabalho. Brasília: IPEA, 2023.SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. 7. ed. São Paulo: Edusp, 2014.SILVA, José Graziano da. Segurança Alimentar e Nutricional: Um desafio para o século XXI. São Paulo: Editora Unesp, 2021.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.