A série clichê da Netflix e a destruição da política brasileira

Não encontrando um filme historiográfico sério, imaginei ao menos que se tratasse de um bom programa de entretenimento. Nem uma coisa, nem outra. Trata-se de uma peça publicitária estrategicamente encomendada por “alguém” para desgastar ainda mais a já depurada imagem do ex-presidente Lula

Não encontrando um filme historiográfico sério, imaginei ao menos que se tratasse de um bom programa de entretenimento. Nem uma coisa, nem outra. Trata-se de uma peça publicitária estrategicamente encomendada por “alguém” para desgastar ainda mais a já depurada imagem do ex-presidente Lula
Não encontrando um filme historiográfico sério, imaginei ao menos que se tratasse de um bom programa de entretenimento. Nem uma coisa, nem outra. Trata-se de uma peça publicitária estrategicamente encomendada por “alguém” para desgastar ainda mais a já depurada imagem do ex-presidente Lula (Foto: Marconi Moura de Lima Burum)

Minha namorada me convida para assistirmos a série “da Lava-Jato”, essa nova na Netflix intitulada de “O Mecanismo”. Não sei se para atender ao convite da companheira, ou se por curiosidade estreita, resolvi começar a ver o tal programa. Que decepção!

Eu esperava encontrar um documentário sério sobre essa importante operação que mudou (parece que para pior) a História do Brasil, a Lava-Jato. Não encontrando um filme historiográfico sério, imaginei ao menos que se tratasse de um bom programa de entretenimento. Nem uma coisa, nem outra. Trata-se de uma peça publicitária estrategicamente encomendada por “alguém” para desgastar ainda mais a já depurada imagem do ex-presidente Lula. Dessas peças piegas dignas dos “fake news” do MBL. Trata-se de uma campanha bem clichê à antipolítica, à despolitização das pessoas.

Não me interessa aqui advogar em favor de Lula. Ele tem os melhores do Brasil para defendê-lo. O que trago aqui é a vergonha que sinto de um cineasta tão renomado que se sujeita a um sub-papel histórico de apequenamento ainda mais intenso da já bastante ridicularizada democracia brasileira.

Não que tenhamos de nos cegar diante da corrupção. Jamais diria isso. Todavia, se José Padilha (e a Netflix) de fato tivessem interesse em auxiliar na construção do imaginário da população brasileira e de uma nova cognição político-eleitoral, não deveriam parcializar tanto seu pseudo-documentário clichê, entretanto, buscar referentes realmente históricos da construção do Brasil enquanto estrutura social, seu tecido complexo e desigual, seu conteúdo civilizatório, sua formação cultural e os elementos que pautam o domínio de certos agentes políticos desde que o mundo é mundo [neste País].

É fundamental avisar aos navegantes da Netflix que a corrupção não foi inventada no Governo Lula e refundada no Governo Dilma. Aliás, nos tempos de Lula e Dilma o aparelho do Estado Brasileiro foi colocado à disposição a fim de inibir os processos históricos de corrução. A própria Polícia Federal passou a ter valor nestes governos, e tecnologia e insumos suficientes para ir atrás dos crimes de “colarinho branco”. O Ministério Público, antes um puxadinho (dentro dos prédios da Justiça) dos governos estaduais e dos que os indicavam em âmbito federal, teve uma autonomia de fato (antes relegada ao direito somente) a partir de Lula e Dilma. Lula e Dilma nomearam possíveis “inimigos” deles com vistas ao interesse maior dos aspectos jurisdicionais e do povo.

A Lei da chamada Delação Premiada, a Lei da Transparência Pública e tantas outras que são vetores no combate à corrupção, delinearam seu diapasão prático nos governos dos últimos anos (à exceção de 2016 e 2017 em que os descendentes de Pedro Álvares Cabral e de todos que sempre mandaram no País, retornam com toda a força ao Poder).

Portanto, cara pálida, há que se ter, mesmo em programas de entretenimento, a honestidade intelectual. Cultura é coisa séria. Precisa ser feita com responsabilidade. Lula e Dilma tiveram ministros corruptos, é verdade! E os demitiram ao saber de seus desmandos. Foram obrigados à sentar para debater com parlamentares historicamente bandidos a fim de aprovar leis ao bem do povo brasileiro e à redução das desigualdades sociais, para gerar oportunidades aos jovens e empregos aos pais pobres desse Brasil. Contudo, é em Lula e Dilma que o olhar do Estado se volta para uma espécie de implosão do sistema corrupto, por óbvio, uma autoimplosão sistêmica que “permitiu” suas eleições, respectivamente. Forem eleitos nos moldes “antigos”, do financiamento maldito de todas as campanhas presidenciais desde que o Brasil é Brasil. E lutam contra isso a que um dia a democracia seja de fato fonte de intimidade e representação a todos e todas deste País.

O sistema é corrupto. Não é um indivíduo, ou dois que pautam a lógica desse conteúdo que, aliás, é histórico-cultural.

Ademais, parei ontem no quarto episódio da tal série. Por indignação com a meia verdade que se impôs ali, a verdade enviesada, eu não tomei ainda a decisão de largar para lá e não mais assistir “O Mecanismo”. Fico entre a necessidade de boicotar um programa tão rudimentar, e a insistente pesquisa para ver onde isso vai parar.

(P.s. Quando ouvi pela primeira vez “O Mecanismo”, pensei que falavam ao meu entendimento “O Comunismo”, só para constar minha confusão mental para entender todo o jogo da política brasileira e seus trocadilhos estratégicos. Vejam que vivemos tempos complexos e difíceis, em cuja compreensão das coisas necessita de muita atenção e crítica inteligente.)

 

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