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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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A teoria do dominó voltou e vai chegar à peça mais preciosa

O Brasil é o teste decisivo

A teoria do dominó voltou e vai chegar à peça mais preciosa (Foto: Reuters)

A prisão de Nicolás Maduro, após a intervenção direta dos Estados Unidos na Venezuela, reabre um fantasma que parecia enterrado desde a Guerra Fria: a teoria do dominó. A pergunta que ecoa em toda a América Latina é simples e devastadora — qual país será o próximo? O Brasil está na fila ou será empurrado apenas depois das eleições presidenciais de 2026?

Quando o dominó volta a cair - Durante décadas, a chamada teoria do dominó serviu como justificativa ideológica para intervenções militares dos Estados Unidos no Sul Global. O argumento era sempre o mesmo: a queda de um país fora da órbita de Washington provocaria uma reação em cadeia, ameaçando toda a região. Foi assim desde o Vietnã. Foi assim na América Latina: Chile, Nicarágua, Guatemala, República Dominicana — o roteiro se repetiu com pequenas variações, mas com o mesmo objetivo estratégico. Controle político, econômico e militar.

A invasão da Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro, ocorridas sem resistência significativa, reativam esse imaginário geopolítico em pleno século XXI. Não se trata de um episódio isolado, mas de um marco simbólico: o momento em que Washington sinaliza que voltou a agir sem disfarces, sem mediações multilaterais e sem o constrangimento retórico da “defesa da democracia”.

A mensagem enviada ao continente é clara: quem sair da linha será removido.

O continente sob tutela - A teoria do dominó não é uma abstração acadêmica. Ela foi aplicada na prática, com brutalidade, ao longo das décadas de 1960 e 1970, quando os Estados Unidos impuseram ou sustentaram ditaduras militares em praticamente toda a América Latina, sob o pretexto de conter o “perigo comunista”.

No Brasil, o golpe de 1964 inaugurou uma ditadura de 21 anos, articulada com apoio direto de Washington, inclusive com planos militares prontos para intervir caso houvesse resistência.

No Chile, em 1973, a derrubada de Salvador Allende contou com ação direta da CIA e culminou no regime sanguinário de Augusto Pinochet.

Na Argentina, o golpe de 1976 instaurou uma junta militar responsável por cerca de 30 mil “desaparecidos” assassinados, em coordenação com a Operação Condor, a aliança repressiva continental patrocinada pelos Estados Unidos.

Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicarágua seguiram a mesma lógica: regimes autoritários, repressão sistemática, eliminação da esquerda e submissão geopolítica.

Era o dominó clássico — armado, sangrento e explícito.

A Venezuela como laboratório do novo século - A rapidez da operação na Venezuela, a ausência de confronto prolongado e o silêncio inicial de parte da comunidade internacional sugerem que o país foi tratado como um laboratório de restauração imperial. Um teste de método, custo político e reação global.

Mais do que petróleo ou Maduro, o alvo sempre foi estrutural: reorganizar a América Latina sob obediência automática aos interesses estratégicos dos Estados Unidos, em consonância com o Project 2025 e com a doutrina hemisférica defendida por Donald Trump. A queda da Venezuela não encerra um ciclo. Inaugura outro.

O golpe que falhou, mas acabou - Essa memória histórica é essencial para compreender o que ocorreu no Brasil em 8 de janeiro de 2023.

A extrema direita brasileira, aliada orgânica da ultradireita trumpista, tentou um golpe de Estado aberto, violento e televisionado. O objetivo era inequívoco. Derrubar o governo recém-empossado, criar caos institucional e abrir caminho para uma ruptura autoritária.

Não se tratava de vandalismo difuso. Tratava-se de uma tentativa de golpe, inspirada diretamente na invasão trumpista do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, nos Estados Unidos. Havia discursos explícitos de eliminação física do presidente Lula, hoje documentados em investigações, mensagens e depoimentos. O golpe fracassou. E isso não foi acidental.

À época, os Estados Unidos eram governados pelo presidente Joe Biden, e não por Trump. Washington reconheceu imediatamente o resultado das eleições brasileiras, apoiou institucionalmente o novo governo e sinalizou que não aceitaria uma ruptura democrática no maior país da América do Sul.

Sem o aval norte-americano — historicamente decisivo para o sucesso de golpes na região — a tentativa ruiu. Esse detalhe muda tudo.

Trump de volta para dar o sinal verde que faltou - A pergunta que agora se impõe é direta e incômoda: o mesmo desfecho ocorreria com Trump novamente no poder? Tudo indica que não.

A ultradireita, a direita tradicional e a elite brasileiras mantêm vínculos ideológicos, políticos e estratégicos com o trumpismo. Não se trata apenas de afinidade discursiva, mas de projeto compartilhado: ataque às instituições, deslegitimação do sistema eleitoral, criminalização da esquerda e alinhamento automático aos interesses de Washington.

Se em 2023 o golpe falhou por falta de respaldo externo, o cenário muda radicalmente com Trump de volta à Casa Branca com sua política externa de imperador, senhor da guerra e dono do mundo. A teoria do dominó do século XXI não precisa de tanques nas ruas. Ela opera por omissão calculada, pressão institucional e sinal verde internacional.

Dez meses antes do choque - Faltam cerca de dez meses para as eleições presidenciais brasileiras. Em termos geopolíticos, isso equivale a um curto-circuito de alta tensão. O Brasil entra no ciclo eleitoral sob pressão externa, polarização interna extrema e disputa estratégica aberta sobre seu lugar no mundo. Não se trata de uma eleição convencional. Trata-se de uma disputa entre dois projetos históricos.

De um lado, o projeto da ultradireita e da direita tradicional, hoje convergentes e aliadas ao trumpismo. Divergem na forma, mas coincidem no essencial: submissão estratégica, rejeição ao multilateralismo, hostilidade aos BRICS e aceitação de um papel subalterno do Brasil na ordem internacional.

Do outro, o projeto soberano liderado por Lula de autonomia diplomática, reconstrução do Estado, integração Sul-Sul, fortalecimento dos BRICS e defesa da soberania nacional.

Em 2026, o Brasil decidirá se será sujeito ou objeto da geopolítica.

O Brasil na fila - A questão central não é se o Brasil está no tabuleiro. Ele é o tabuleiro. Se um aliado automático de Trump vencer, o dominó brasileiro cai sozinho, por via institucional. Se Lula vencer, o desafio estratégico reaparece: como neutralizar um governo soberano sem romper formalmente a democracia?

A história latino-americana oferece respostas conhecidas. Judicialização extrema, cerco econômico, sabotagem política, campanhas de deslegitimação e crises fabricadas. Não é mais o golpe clássico. É o golpe funcional — aquele que impede o presidente de governar mesmo depois de eleito.

A peça mais preciosa do dominó - A América Latina já viu esse filme. Sempre começa com um caso “excepcional”. Depois, a exceção vira método. A Venezuela foi o aviso.

O Brasil é o teste decisivo.

O alerta é simples e duro. A maior ameaça à democracia brasileira pode não estar na

derrota eleitoral, mas na vitória soberana. Se a peça mais cobiçada cair, a América Latina volta à tutela. Se resistir, interrompe a cadeia e reabre o futuro.

É isso que está em disputa.

E é por isso que as eleições presidenciais de outubro não podem ser tratadas como apenas mais uma.

Ela é especial. E decisiva.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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