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Jair de Souza

Economista formado pela UFRJ, mestre em linguística também pela UFRJ

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A verdade dos fatos e sua manipulação

Como grandes conglomerados de mídia e plataformas moldam narrativas e influenciam a percepção pública sobre guerras, vítimas e responsabilidades políticas

Pessoas marcham após o assassinato do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, em ataques israelenses e americanos, em Basra, Iraque, 1º de março de 2026 (Foto: REUTERS/Mohammed Aty)

Situação 1: Os Estados Unidos e Israel bombardearam uma escola infantil no Irã e destroçaram os corpos de cerca de 180 crianças iranianas. Porém, nos relatos da mídia hegemônica do capitalismo, os seres malignos e desumanos são os dirigentes do país persa.

Situação 2: As forças militares do sionista Estado de Israel arrasaram inteiramente a região da Faixa de Gaza, na Palestina, sem poupar nem mesmo os hospitais e outros centros médicos, exterminando de modo cruel e perverso mais de 100.000 pessoas, a maioria delas crianças e mulheres. No entanto, para a mídia hegemônica do capitalismo, os terroristas são os palestinos.

Estes dois casos foram citados apenas para ilustrar algo que já se tornou padrão na difusão de notícias pelo mundo. A maneira como os acontecimentos são retratados e difundidos não tem por base a realidade e seus componentes, senão que a narrativa que interesse e venha a favorecer aos grupos que se beneficiam com o avanço do controle imperialista sobre os povos dos países de fora do seleto elenco de nações privilegiadas.

As menções feitas ao papel dos meios de informação capitalistas servem para esclarecer que a inexistente, ou escassa, resistência exibida contra os perpetradores dessas agressões não indica nenhuma indiferença inerente das maiorias dos centros do capitalismo e dos países que lhes são submissos. O fato de não terem se sensibilizado, horrorizado e indignado com essas abomináveis atrocidades a ponto de não se disporem a sair às ruas para pressionar seus governantes a dar-lhes um basta está intimamente associado a uma questão informacional.

Então, o que está por trás daquilo que costumamos constatar em situações semelhantes às expostas no início do texto? Na resposta apropriada para esta indagação pode estar a chave para a compreensão da essência do problema e o vislumbre de um caminho que nos conduza a sua solução.

O que ocorre é que a difusão de notícias desse tipo de eventos foi delineada com o propósito específico de induzir às massas receptoras a não desenvolverem nenhuma empatia ou solidariedade com as vítimas das agressões imperialistas e, menos ainda, a responsabilizarem e culpabilizarem os dirigentes e as forças sob seu comando pelas desgraças havidas.

A tradição desinformativa dos dirigentes dos Estados Unidos em associação com seus meios de comunicação vem de um passado longínquo. Em todos os conflitos bélicos em que estiveram envolvidos, a desinformação e deturpação dos fatos sempre representou uma das mais importantes armas do arsenal estadunidense para aglutinar apoio de seu público interno e para gerar junto a comunidade internacional uma onda de simpatia em seu favor, assim como um forte repúdio aos que eram alvos de seus ataques.

Neste dueto sincronizado de endeusamento próprio e demonização de seus adversários, as classes dominantes dos Estados Unidos vêm exercitando sua já longeva carreira imperialista. Só que, a partir de meados do século passado, o imperialismo estadunidense passou a atuar em completa simbiose com outro país dirigido por pessoas que se caracterizam por superá-los em termos de ardileza, mentiras e perversidade: os sionistas do Estado de Israel.

Mas, se até os primeiros anos do presente século, as campanhas desinformativas do imperialismo recorriam principalmente ao uso da imprensa, do rádio e da televisão, elas agora contam também com instrumentos ainda mais potentes e eficazes: as grandes corporações de comunicação digital via internet, com suas redes sociais e seus algoritmos.

Como a esmagadora maioria das plataformas da internet estão sob o controle do grande capital estadunidense e/ou sionista, elas detêm um volume gigantesco de dados sobre quase todos os habitantes dos países do planeta. Isto significa que estão de posse de um imenso potencial de manipulação sobre grande parte da população mundial. Por isso, estão em condições de determinar o que pode e o que não pode ser visto; como um acontecimento deve ou não deve ser relatado; e, ainda mais relevante, através de seus algoritmos, elas sabem quais coisas convém enviar a cada quem, e a linguagem com a qual isto deve ser feito. Em outras palavras, os controladores dessas plataformas desfrutam de um privilégio quase equivalente àquele atribuído a Deus nas religiões bíblicas: sabem quase tudo sobre quase todos, sem que quase ninguém saiba quase nada sobre eles.

Portanto, a luta para transformar o atual quadro de amplo domínio oligopólico da comunicação digital via internet é uma das incumbências mais relevantes para os que pretendemos viver em um mundo onde as maiorias populares tenham plenas possibilidades de aceder às informações que tenham por base a verdade. Além disto, também é necessário travar a luta para que as camadas populares em todos nossos países possam contar com mais instrumentos para disputar as narrativas com as classes dominantes.

Em vista do que argumentamos, no Brasil e em muitas outras nações, uma exigência que me parece ser fundamental tem a ver com a criação de plataformas de redes públicas, que estejam subordinadas aos interesses democráticos do conjunto da população, e não apenas aos das classes dominantes. É claro que isto por si só não é suficiente para garantir a vitória do campo popular e anti-imperialista, mas me parece uma condição indispensável para a consecução das demais tarefas requeridas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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