Alívio nos mercados com expectativa de cessar-fogo no Oriente Médio
Grande parte da preocupação dos investidores está relacionada ao possível impacto do conflito sobre o Estreito de Ormuz
As bolsas e diversos ativos globais estão em alta hoje, refletindo um movimento de alívio após notícias divulgadas durante a madrugada sobre a possibilidade de um acordo de cessar-fogo no conflito envolvendo Irã e Estados Unidos no Oriente Médio. Naturalmente, ainda há muita incerteza — em situações geopolíticas como essa, é difícil saber exatamente como os acontecimentos irão evoluir — mas, pelo menos por enquanto, os mercados reagiram positivamente à perspectiva de redução das tensões.
Esse alívio aparece principalmente no mercado de commodities. O preço do petróleo registrou queda relevante após a forte alta observada nos últimos dias. O real também se valorizou nesta manhã, recuperando parte da forte desvalorização vista ontem, quando o câmbio chegou a subir quase 3%. Além disso, os juros futuros recuam e as bolsas apresentam alguma recuperação depois das perdas recentes.
Grande parte da preocupação dos investidores está relacionada ao possível impacto do conflito sobre o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de escoamento de petróleo do mundo. Cerca de 40% do petróleo transportado por essa região tem como destino a China, e países como Arábia Saudita, Iraque e Kuwait dependem fortemente dessa passagem para exportar sua produção. Estima-se que aproximadamente 3,5 milhões de barris por dia só do Irã transitem por essa rota. Além do petróleo, há também fluxos importantes de alimentos, água e diversos produtos para toda a região do Oriente Médio.
Por essa razão, o eventual fechamento do estreito teria consequências muito graves para o comércio global. Seria uma verdadeira fratura nos fluxos internacionais de energia e mercadorias. Mais do que o drama humano associado ao conflito, que obviamente é enorme, há também um impacto econômico significativo caso essa rota seja interrompida. A percepção atual do mercado, porém, é de que existe uma probabilidade razoável de preservação desse fluxo, ao menos no curto prazo, o que ajuda a explicar a melhora dos preços de ativos nesta manhã.
Para o Brasil, esse cenário também pode ter implicações relevantes para a próxima reunião do Copom, marcada para os dias 17 e 18 de março. A alta recente do petróleo — que chegou a se aproximar de 10% — pode pressionar preços de combustíveis e inflação. Nos Estados Unidos, esse efeito costuma ser imediato, mas no Brasil ele também acaba aparecendo ao longo do tempo.
Nos últimos dias, as expectativas de política monetária começaram a mudar um pouco. Antes, havia uma visão mais consolidada de corte de 0,50 ponto percentual, mas agora o mercado voltou a considerar um corte menor, de 0,25 ponto. Isso se deve a alguns dados recentes: o IPCA-15 de fevereiro veio bem acima do esperado, indicando inflação mais forte, e o Caged mostrou criação de cerca de 112 mil vagas formais no Brasil em janeiro, sinalizando um mercado de trabalho ainda relativamente aquecido.
Por outro lado, o PIB brasileiro veio mais fraco, com crescimento de apenas 0,1% no terceiro e no quarto trimestre, indicando praticamente uma estagnação da economia no segundo semestre do ano passado. Assim, o Banco Central precisa equilibrar esses sinais: inflação ainda pressionada, mercado de trabalho resiliente e crescimento relativamente fraco.
No cenário internacional, também há incertezas. Na China, os dados de PMI continuam em zona de contração, o que levanta dúvidas sobre o ritmo de crescimento do país, que tenta manter uma meta próxima de 5% ao ano. Nos Estados Unidos, alguns indicadores recentes de emprego vieram um pouco melhores, o que também reduz a probabilidade de cortes rápidos de juros pelo Federal Reserve.
Diante disso, o cenário hoje parece apontar para um corte menor de juros no Brasil, de 0,25 ponto, enquanto nos Estados Unidos o primeiro corte do Fed provavelmente ficaria mais para junho ou julho. Ainda assim, a grande incógnita continua sendo a evolução do conflito no Oriente Médio. Qualquer mudança nesse quadro pode alterar rapidamente as expectativas dos mercados.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



