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Deyvid Bacelar

Coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP)

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Acordo Mercosul-UE representa um instrumento estratégico para as duas regiões e revela êxito diplomático do Brasil

Pacto firmado após décadas de negociação fortalece estratégia internacional do Brasil e reposiciona o Mercosul diante do avanço do protecionismo

65ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, em Montevideu, no Uruguai. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

*com Ticiana Alvares

Após 25 anos de negociações, a aprovação do acordo Mercosul-União Europeia se dá em um contexto geopolítico crucial, marcado pelo aumento do protecionismo e pela intensificação das tensões globais. Diante desse cenário de enfraquecimento do multilateralismo, o acordo representa um instrumento estratégico para ambas as regiões e revela o êxito diplomático do Brasil. Sob a presidência pro tempore do Mercosul, iniciada em julho de 2025, o governo Lula priorizou a conclusão do acordo, fazendo esforços para harmonizar os interesses internos do bloco e superar impasses técnicos e ambientais com os europeus.

O avanço do acordo ocorre em uma conjuntura geopolítica de convergência de interesses entre os dois blocos. A América do Sul busca meios de reagir à intensificação de projeção econômica e militar dos Estados Unidos no subcontinente, enquanto a Europa visa reduzir vulnerabilidades geradas por conflitos regionais e pela escalada tarifária norte-americana.

Na América do Sul, o cenário político impõe desafios relevantes. A fragmentação política regional, que tende a se intensificar com a maior projeção dos EUA, reduz o espaço para a cooperação. Ainda assim, frente aos expressivos interesses externos que se projetam sobre os recursos minerais e energéticos regionais, a retomada da integração torna-se vital para defender os interesses imediatos dos países da região e sustentar o crescimento no médio e longo prazos por meio da integração produtiva sul-americana.

No entanto, será fundamental verificar ao longo do tempo se esse acordo vai de fato ajudar a impulsionar um projeto de desenvolvimento articulado, com base em uma estratégia de neoindustrialização e de integração regional. Caso contrário, o pacto entre os dois blocos econômicos poderá reafirmar a inserção subordinada do Brasil, por meio da exportação de produtos primários. Essa é uma questão chave, a fim de que ganhos para o país e para o Mercosul se materializem, calcados em uma postura desenvolvimentista e em defesa da soberania.

Para alguns analistas, o acordo poderá ampliar a cooperação em setores como petróleo, minerais críticos e biocombustíveis, uma vez que a União Europeia, no atual redesenho do mapa geopolítico global, precisa diversificar suas fontes de fornecimento de insumos. Nesse sentido, as cotas de etanol com tarifas reduzidas/zero poderão expandir o acesso do produto brasileiro ao mercado europeu.

Em 2025, a União Europeia consolidou-se como mercado relevante para o setor energético brasileiro, ao absorver cerca de um quinto do volume total de petróleo exportado pelo país. Ou seja, o Brasil ampliou sua importância como fornecedor de commodities energéticas para o bloco europeu.

Já as importações brasileiras de produtos do bloco europeu mantiveram elevado valor agregado - padrão que evidencia o papel da UE como fornecedora prioritária de bens manufaturados, tecnologia e produtos de maior intensidade tecnológica para o Brasil.

Com o acordo - com previsão de assinatura formal em Assunção, Paraguai, no próximo dia 17 -, o Brasil poderá se fortalecer como parceiro estratégico da Europa em segurança energética e descarbonização, ao atrair investimentos em hidrogênio verde, biocombustíveis e minerais estratégicos. Contudo, seus benefícios dependem da capacidade do Mercosul, sobretudo do Brasil, de converter a redução de barreiras em integração às cadeias de maior valor agregado. Caso contrário, há risco de reforço do padrão primário-exportador.

Analistas mais céticos observam que o acordo tem forte viés neoliberal e abre o mercado interno brasileiro a produtos industriais europeus com pouco ganho adicional para exportações, não servindo de contrapeso geopolítico efetivo à China ou aos EUA. Há críticas consistentes de que o acordo pode não favorecer adequadamente a indústria nacional e aprofundar dependências externas.

O Brasil precisa estar alerta.

Ticiana Alvares é diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natutal e Biocombustíveis (Ineep).

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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