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Rogério Dutra dos Santos

Professor do Departamento de Direito Público da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense. Doutor em Ciência Política pelo antigo IUPERJ

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Ainda Messias, fogo amigo, o “esgotamento do Lulismo” e as eleições de 2026

Rejeição de Jorge Messias ao STF expõe tensões no governo Lula, força do Congresso e desafios da esquerda rumo às eleições de 2026

Jorge Messias (Foto: Ton Molina/Agência Senado)
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Por Uirá Azevêdo* e Rogerio Dultra**

Passada mais de uma semana da votação no plenário do Senado que rejeitou o nome de Jorge Messias para o STF, é importante repassar algumas das percepções que circularam sobre esse episódio em termos de leitura e avaliação da conjuntura política atual, do exercício de projeção dela para as eleições deste ano e para o futuro do projeto social encarnado pelos governos Lula.

O evento da sabatina foi, desde o anúncio do nome ainda em novembro, um teste coletivo: cada lado esperava um resultado para cravar sua posição e confirmar o que já queria dizer. A votação em si foi o ponto culminante de uma tensão acumulada por cinco meses. 

O contexto que girou em torno dela, entre o anúncio do nome, a espera da reação política até o efetivo envio da comunicação ao Senado, a marcação da data para sabatina e votação no pleno, transformou essa votação específica numa espécie de símbolo político, uma antecipação das urnas de outubro próximo que selaria o destino da reeleição de Lula. 

Concretizada a derrota, o fato de que uma rejeição ao nome indicado pelo Presidente não acontecia desde 1894 pintou tudo com um verniz de tragédia histórica. Deu combustível para uma série de explicações e acusações no mínimo precipitadas. 

Colocando isso por enquanto de lado, o que o episódio também fez sentir no campo das esquerdas foi que, em meados de 2026, ainda pairam sobre nós não só o espectro, mas também as consequências do golpe de 2016. 

Ficou claro que a subsequente ascensão da extrema direita no Brasil em 2018 e a tentativa de golpe de 08 de janeiro de 2023 manifestam sua influência e herança no Congresso Nacional nos dias que correm.

Entretanto, a conjuntura atual traz uma novidade “sistêmica”: a desidratação da crença generalizada na capacidade política de reação do Poder Executivo em oposição direta à ampliação da força política e orçamentária do Congresso. 

O cenário atual, reforçado pelos eventos da última semana no Senado e pelo inédito empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro em diversos levantamentos no mês de abril do ano eleitoral, sugere um caminho desafiador para a reeleição do atual presidente e aponta para uma ameaça real às instituições da República de 1988. 

Por outro lado, o projeto de oposição navega agora sem o trunfo da novidade do candidato "antissistema", como foi Jair Bolsonaro. E, dadas as manifestas fragilidades do atual candidato do PL, perdura a ameaça de uma desconstrução sem precedentes de sua biografia durante a campanha. 

Mas aqui, partimos da premissa de que o jogo da sucessão está submetido ao descomunal acúmulo de forças da extrema direita no Congresso - com a evidente aproximação do centrão às suas hostes. Consideramos também que, desde 2002 - ou seja, há um quarto de século -, o PT só perdeu uma eleição, em 2018, pelo “simples” fato de Lula ter sido retirado da campanha à força.

Vamos nos deter um pouco nestes movimentos da história política do país, a fim de construir um quadro que jogue luzes sobre os acontecimentos recentes e sobre as eleições vindouras.

O “esgotamento do Lulismo”

O “Lulismo”, categoria analítica criada pelo cientista político André Singer em artigos e livros importantes no debate da conjuntura brasileira, aponta características estruturais do projeto de poder do Partido dos Trabalhadores, especialmente a partir de 2002. 

Como se sabe, a primeira eleição de Lula operou uma alteração em sua postura histórica comparativamente à do PT (de enfrentamento ideológico esquerda x direita ou “reformismo forte”) na direção de um projeto de redução da pobreza sem enfrentamento da ordem econômica vigente (mudança social em conciliação com o capital ou “reformismo fraco”). 

Estes movimentos - que para Singer não significam apenas uma estratégia pragmática, mas uma mudança ideológica - paradoxalmente afastaram as classes médias do projeto lulista a partir de 2006, mas promoveram um avizinhamento de Lula e do seu novo governo às classes populares. 

O Estado brasileiro, sob Lula, nas palavras de Luiz Werneck Vianna, operou uma revolução passiva: incorporou, sob seu guarda-chuva, diversos interesses sociais, promovendo mudança e inclusão, mas evitando o conflito. 

Ainda seguindo as pistas de Singer, os pactos orquestrados pelo lulismo original entraram em crise com a tentativa de Dilma Rousseff de aprofundar o tal do “reformismo forte”. 

Com um “ensaio desenvolvimentista”, o enfrentamento do capital financeiro (juros baixos e intervencionismo, especialmente no primeiro governo) e o rompimento com o PMDB, Dilma caminhou paulatinamente para o cadafalso. 

Sem a base organizada de uma mobilização popular preparada para o conflito e em rota de colisão com o sistema político e econômico, a crise que levou ao seu impeachment foi praticamente inevitável. 

A aparição da Lava-Jato - como uma nova manifestação de lawfare depois do insucesso político do golpe judicial do mensalão - foi a cereja do bolo que fez o bonde andar a partir dali. 

O antipetismo e o antilulismo, amplificados pelos meios de comunicação de massa, pela oposição declarada de Eduardo Cunha -  então Presidente da Câmara de Deputados - e pelas pautas-bomba, impediram a governabilidade de Dilma em seu segundo mandato e embalaram o nascimento do extremismo de cariz fascista. 

Como se sabe, Lula não somente sobreviveu ao golpe de 2016, ao golpe de sua prisão por Sergio Moro e Deltan Dallagnol em 2018 (com o TRF4, “com o STF, com tudo”), mas voltou Presidente da República e encontrou um cenário menos propício para a sua política de conciliação de classes. 

A estratégia geral de conciliação sofreu um deslocamento, visto que o congresso estava ainda mais fragmentado e à direita. A base social do lulismo, antes relativamente indisputada, tomou novo rumo com a simbiose entre setores do pentecostalismo religioso e a extrema-direita. 

Sob novo contexto, Lula negociou com o Congresso, mas com a corda esticada, o que o tornou mais indisposto a grandes concessões. 

A derrota na indicação de Jorge Messias para o STF e os sucessivos enfrentamentos sofridos pelo governo no Congresso Nacional não dizem respeito apenas ao quadro eleitoral inaugurado pela extrema-direita, mas à dúvida sobre se (e a defesa de que) o lulismo não teria mais lugar como cenário e aposta política para um projeto de poder da esquerda brasileira.

Lula 3 se apresentou, assim, mais calejado, menos beneplácito, tratou as emendas ao orçamento na ponta da faca (com uma ajuda ambivalente de Dino e do STF), demitiu indicados e trocou ministérios do centro quando as votações não seguiram os acordos. Também não indicou ministros do STF palatáveis e voltou a fortalecer a autonomia da PF para operações politicamente incômodas, por exemplo.

Nesse sentido, por suas premissas analíticas, talvez o próprio André Singer teria dificuldade de qualificar Lula 3 exatamente como “lulista”, pelo menos não com a mesma régua de Lula 1 e Lula 2.

Messias, Jaques Wagner e a política de conciliação

Uma das críticas mais recorrentes na última semana foi dirigida ao Senador Jaques Wagner, líder do governo do Senado. Wagner foi acusado de ser o epítome, a síntese e o símbolo do esgotamento da política de conciliação, especialmente quando diante de uma enxurrada acachapante de “traições” e de sucessivas derrotas no Senado. 

Parte dessa crítica, aliás, veio de dentro do próprio campo progressista. Pouca gente chamou a atenção para o fato de que setores da esquerda também torceram os narizes para o nome de Messias quando escolhido por Lula em novembro passado. 

Muitos movimentos queriam poder reivindicar para si a prerrogativa de indicar um nome, cobrar de Lula esse direito quase natural, de ter uma ministra do Supremo para chamar de sua. Os movimentos feminista e racial, especialmente, tinham expectativas (legítimas) que foram frustradas. 

Com a derrota de Messias, parte da esquerda sentiu meio que um alívio. "Eu te disse", "eu avisei", "você não me obedeceu". A derrota foi quase celebrada como confirmação, com muita gente querendo se vingar um pouco de Lula pelo pecado de não ter obedecido às listas de nomes que surgem nas colunas, nos grupos de whatsapp, nas redes sociais, nas vozes dos movimentos populares.

Mas há algo mais aí do que erro de análise. Responsabilizar o governo pela derrota que eles mesmos sofreram, tem nome: transferência de culpa, projeção ou proteção de autoestima. A angústia de ter perdido precisa de um culpado imediato, e o culpado mais cômodo é sempre aquele que estava mais à vista. 

Essa leitura, porém, ofusca o verdadeiro alvo. Invisibiliza a direita como agente real da derrota e distribui culpa onde não há causa. É uma análise que, no limite, faz pela oposição um trabalho que é melhor deixar apenas com ela.

A impressão que temos é que este ataque parte de uma avaliação superficial e até perversa do personagem e do ocorrido. Não só porque Wagner sempre se caracterizou pela postura conciliadora, não sendo nenhuma surpresa seu entendimento de que derrotas devem ser encaradas de forma pragmática. Mas porque o Senador baiano teve uma atitude explícita de promover constrangimento a Alcolumbre, ficando na sua frente como que a cobrar um compromisso rompido e forçando um abraço, mal interpretado depois.

Na nossa perspectiva, o “problema” de Jaques Wagner não deriva dele representar a política de conciliação do lulismo - visto que o governo tem feito enfrentamentos no processo legislativo quando necessário e inclusive sofrendo derrotas (a base do governo no Senado, ao não “conciliar” na votação da anistia aos golpistas, é o exemplo cabal de que o enfrentamento é a opção tática em relação à extrema-direita). 

Assim, esta superexposição da figura do líder do Senado à execração pública pode ser explicada de forma muito mais consistente pelo fato dele ser um “anteparo” político de Lula, ou pela simples hipótese de “fogo amigo”. Parta-se do fato, por exemplo, de que Wagner não está sob a zona de influência do PT de São Paulo e que este - e sua fome de influência política e de controle do processo - já fez anteriormente movimentos semelhantes. 

A alternativa a Wagner na liderança do governo no Senado seria alguém para fazer enfrentamento direto a Alcolumbre? É essa a tática de superação da política de conciliação? No momento em que estamos, a cinco meses das eleições, não parece fazer sentido algum. 

Ou até faz sentido: o requentar da velha estória da “necessidade de autocrítica do PT”. Aparentemente setores progressistas não somente internalizaram como gostaram desta narrativa “Globonews”. Passamos a fazer o trabalho deles.

A crítica a Wagner é sintomática, mas a explicação da derrota de Messias está em outro lugar.

O caso Messias e o STF

É preciso lembrar que a vaga em questão não estava prevista. Barroso antecipou sua aposentadoria; algo que não era esperado. Algumas análises apontam que para Alcolumbre, o bônus que caiu no colo de Lula era, na sua leitura, uma vaga "do Congresso", como as do TCU, onde o legislativo tem “quota”. Como queria Rodrigo Pacheco, nome que Lula defendia e defende para ser candidato ao governo em MG, Alcolumbre se vingou ao se considerar preterido.

Esse jogo de vaidades institucionais, porém, foi frequentemente apagado pela crítica de que Messias teria caído por ser 'mais uma' indicação pessoal de Lula.

Diga-se, para efeitos de registro, que historicamente as indicações do PT ao STF em geral não se caracterizaram pela questão pessoal (Carmen Lúcia, Edson Fachin, Luiz Fux, Joaquim Barbosa, Luís Roberto Barroso e Ricardo Lewandowski e, mais recentemente, Flávio Dino). 

As exceções seriam Dias Toffoli (ex-advogado do PT), Christiano Zanin (ex-advogado de Lula) e o próprio Messias (AGU durante os governos do PT). A questão, apesar das exceções, nos parece ser de outro jaez e é mais grave e profunda. 

Por um lado, a indicação de perfis capazes de garantir em abstrato as políticas de governo, é uma recorrência para qualquer Presidente. A Constituição assim autoriza e foi assim concebida. Não à toa, André Mendonça e Nunes Marques estão aí para provar que cada mandatário, com os votos que tem, indica como acha mais aderente ao momento político do país. 

De outro lado, o escândalo do Banco Master, que reverbera não somente em figuras políticas da extrema-direita, mas em Ministros do STF (especialmente em Dias Toffoli e Alexandre de Moraes), trouxe farto combustível para as críticas ao próprio Supremo enquanto instituição.

Criticado pelo excesso de ativismo judicial - leia-se: o caráter político de sua operação -, o Supremo Tribunal Federal lida agora com acusações de proximidade indevida com o poder econômico e suas implicações e influências nas decisões jurídicas de determinados Ministros.

O projeto político autoritário, encampado como horizonte de sentido da extrema-direita e seus representantes, como é o caso do pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro, não convive com a possibilidade de controle institucional organizado. 

O próprio governo Bolsonaro escancarou seus alvos de forma expressa: os diferentes (negros, pobres, quilombolas, indígenas, população LGBTQIAP+, as esquerdas etc) como inimigos sociais e as instituições, em especial o STF (que foi corporificado retoricamente na pessoa de Moraes), como inimigos políticos. 

Este projeto continua ativo e, a partir de uma articulação global, tem se institucionalizado como plataforma absorvida e encampada pela direita tradicional.

Portanto, a reprovação de Messias para o STF diz mais sobre as estratégias corporativas do congresso e do seu envolvimento com o escândalo do Banco Master do que propriamente das escolhas “pessoais” do Presidente da República.

Caminhos para 2026: o “lulismo” precisa de outro nome? 

É preciso construir uma postura de enfrentamento ideológico de fundo à extrema-direita. Não somente no congresso e na construção de um verdadeiro projeto alternativo, que recupere a compreensão de que o capital precisa ser institucionalizado e subordinado ao povo (como é o caso da proposta da derrota da escala 6x1 no Congresso, por exemplo). 

Esse projeto alternativo precisa enfrentar o que a narrativa da falsa simetria esconde: a luta não é entre sistema e antissistema, mas pela cultura política de enfrentamento à falta de projeto da extrema-direita. 

Escala 5x2, justiça tributária, enfrentamento à plataformização do trabalho, regulação e taxação de bigtechs e fintechs, soberania, enfrentamento ao desenvolvimento predatório, criação do sistema nacional de segurança pública para enfrentamento ao crime organizado, aumento real do salário mínimo, moradia, fortalecimento do SUS, luta contra evasão escolar e universitária. Nenhuma dessas pautas cabe na moldura 'todos são iguais'. São elas, e não só a disputa por cargos, o verdadeiro campo da luta por uma cultura política igualitária e  inclusiva.

Um projeto de aprofundamento dos princípios, com estratégia e tática, superando não só o “reformismo fraco” do Lulismo, mas o “reformismo forte” do antigo PT nos parece o caminho. 

O enfrentamento ideológico deve ser construído também nas ruas, onde o PT e Lula têm espaço para crescer.

Este itinerário deve, em 2026, ser feito com Lula. 

Não há espaço nem tempo para Lula construir sucessor neste momento já para 2026. 

Para bem dizer, Lula já vem fazendo isto desde o sucesso de Fernando Haddad no Ministério da Educação, antes, e no Ministério da Fazenda, agora. Há também outras boas lideranças no mesmo espectro político, como Guilherme Boulos e o próprio Flávio Dino (não seria a primeira vez que ele trocaria a toga por mandato eleitoral).

Mas Haddad, apesar de suas qualidades, ainda não rompeu definitivamente com a representação imagética de um quadro técnico, acadêmico e elitista, uma espécie de “FHC do PT”.

Hoje, é Lula quem o Brasil profundo identifica como seu representante, como representante de uma esperança sem romantismo. É Lula que se comunica com o povo como ninguém. E é apoiando ele que devemos fazer esta nova e turbulenta travessia. 

* Uirá é professor de Teoria e Filosofia do Direito na Universidade do Estado da Bahia - UNEB.

**  Rogerio é professor de Teoria do Estado e História Constitucional Brasileira da Universidade Federal Fluminense - UFF.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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