"Aliança" de Lula e Ciro é fraude contra o PT e a esquerda

A suposta aliança entre Lula e Ciro Gomes foi noticiada pela imprensa golpista para favorecer a política do 'voto útil' e pressionar o PT a abandonar suas candidaturas

Ciro Gomes
Ciro Gomes (Foto: REUTERS/Leonardo Benassatto)
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Por Juca Simonard

A notícia de uma reunião entre o ex-presidente Lula e Ciro Gomes (PDT) noticiada de forma extremamente ruim pelo jornal O Globo é extremamente duvidosa. O fato da reunião ter ocorrido, em si, já é estranha, uma vez que a candidata petista à prefeitura de Fortaleza, Luizianne Lins, disse que a reunião nem mesmo ocorreu.

“Não teve não minha gente. É fake News, é mentira. Esse povo adora fazer isso…. você (Ciro Gomes) postou nas redes, na imprensa nacional que você tinha se encontrado com Lula para que eu apoiasse seu candidato amarelinho no segundo turno. Sabe por que o Ciro Gomes com a força do povo a gente vai para o segundo turno….”

Entretanto, mesmo que a reunião tenha ocorrido, o fato é que o jornal O Globo não noticiou o que, de fato, foi discutido. Apenas informou que Lula e Ciro se encontraram e que isso indicaria uma reaproximação entre os dois. Desta forma, a “aliança” entre os dois é uma especulação, um mero desejo da imprensa golpista.

A reunião teria ocorrido em setembro, cerca de dois meses atrás, mas por que a informação só foi divulgada agora, quando ocorrem as eleições municipais?

Como de costume, a grande imprensa golpista e venal montou um grande esquema para manobrar politicamente. Conhecendo o jornal O Globo, não é precipitada a conclusão de que trata-se de uma farsa para manter a política do golpe - centrada em atacar e tentar isolar o PT.

Uma reunião que ocorreu há dois meses atrás foi divulgada como se tivesse ocorrido agora, sem nem mesmo esclarecer o que foi discutido! E ainda tem mais: um dia depois de uma pesquisa do Datafolha (instituto o qual a esquerda não deve dar nenhuma credibilidade) indicar que, em Fortaleza, a candidata do PT, Luizianne Lins, foi ultrapassada pelo candidato da oligarquia Ferreira Gomes, José Sarto (PDT) - que, segundo a pesquisa, vai ao segundo turno contra o bolsonarista Capitão Wagner (PROS).

Manobra da Globo golpista

Uma das poucas candidatas do PT que teria chances de ir ao segundo turno em alguma capital (não fosse as eleições ditatoriais deste ano) é ultrapassada pelo candidato de Ciro num dia, e no outro O Globo divulga a realização de uma reunião, de dois meses atrás, entre Lula e o oligarca cearense.

A manobra d’O Globo fica evidente em seus artigos. Na matéria publicada no Blog de Lauro Jardim (GLOBO) “Encontro entre Lula e Ciro pode virar tiro no pé do PT cearense” faz-se uma indicação de que o PDT deve usar essa suposta reaproximação com Lula, o maior cabo eleitoral do País, para realizar a campanha do “voto útil” e levar Sarto ao segundo turno contra o candidato do bolsonarismo.

“Após a divulgação da reunião entre Lula e Ciro, Luizianne manifestou sua profunda irritação à direção nacional do partido, afirmando que o PT caiu numa arapuca de Ciro para confundir o eleitorado de Fortaleza. Para ela, isso dá a Sarto o argumento de que seu grupo está realinhado a Lula e, dessa forma, ele pode conquistar o apoio do eleitorado do ex-presidente, minando uma das poucas candidaturas competitivas petistas em capitais”.

Em coluna de Merval Pereira - mais um direitista que decidiu virar comentarista da esquerda - critica-se Gleisi Hoffmann por ter atacado Ciro Gomes e se faz um apelo para que a esquerda não lute pela candidatura de Lula em 2022 e decida apoiar Ciro:

“A propalada reunião entre o ex-presidente Lula e o líder do PDT Ciro Gomes, depois de trocas de acusações que se intensificaram a partir de 2018, quando Ciro disputou a eleição presidencial e não foi para o segundo turno, superado pelo candidato petista Fernando Haddad, poderia ser uma boa notícia para a esquerda brasileira caso não tivesse sido atropelada por ninguém menos que a presidente do PT, Gleisi Hoffman. Que não tem luz própria, e não faria isso sem o consentimento de Lula”.

“Diante da reação corporativa de Gleisi Hoffman, tudo indica que a eventual aliança não resultará, pois não acredito que Lula imagine o PT sendo vice de Ciro Gomes. Não é uma tradição do partido aceitar esse tipo de cooperação. O grande erro de Lula em 2018 foi não ter apoiado Ciro, talvez viabilizando uma aliança de centro-esquerda.  Mas o PT não dá sombra pra ninguém, Lula não permite que nenhuma liderança cresça do lado dele”.

“A única chance de haver entendimento para 2022 é Lula continuar inelegível e o PT resolver apoiar Ciro. Chance remotíssima”.

Artigo de Bela Megale, no mesmo jornal, dá voz para que o presidente do PDT, Carlos Lupi, ataque o PT, no velho argumento de que o partido não quer abrir mão do hegemonismo:

“Acho pouquíssimo provável (uma aliança), porque o PT não vai aceitar ser vice da gente e nós, do PDT, não vamos abrir mão da candidatura própria. Vai ser o Ciro, isso não tem volta. O PT tem uma linha comportamental que não aceita apoiar ninguém, até hoje é assim”, afirmou.

PT deve abrir mão de suas candidaturas?

A primeira pergunta que fica é: por que o PT, maior partido da esquerda, deveria abrir mão de suas candidaturas para apoiar outros candidatos supostamente progressistas que não têm apoio popular efetivo? 

Para a esquerda, isso só favorece os oportunistas que usam Lula apenas em época eleitoral para ganhar votos. Para a direita, o isolamento do PT e manutenção das restrições políticas-judiciais de Lula é uma questão chave para a manutenção do processo golpista.

Assim, o que está ocorrendo com a notícia sobre a suposta reaproximação entre Lula e Ciro é uma fraude grotesca, que tem como objetivo isolar o PT. Com a propaganda falaciosa, fica mais fácil para a imprensa golpista fazer propaganda para que o PT abra mão de suas candidaturas em Fortaleza (Ceará, domínio da oligarquia Ferreira Gomes) e no Rio de Janeiro. Sob a campanha de “frente ampla” e “voto útil”, o PT fica pressionado a abandonar Luizianne Lins e Benedita da Silva para apoiar Sarto e a delegada Martha Rocha, em nome do “combate ao bolsonarismo”.

O mesmo ocorre em São Paulo, onde a imprensa impulsiona Guilherme Boulos (PSOL) para pressionar os petistas a abandonarem Jilmar Tatto (PT), que, ao contrário do psolista, é constantemente atacado pelos grandes jornais.

Isolar Lula em 2022

A manobra deste ano, porém, não diz respeito somente a impedir que o PT não ganhe nenhuma capital - algo que naturalmente deve ocorrer, uma vez que as atuais eleições municipais ocorrem no meio de um processo golpista e se mostram cada vez mais antidemocráticas (como revelam as dezenas de milhares de indeferimentos de candidaturas e o caso de Pernambuco, onde o PT teria chances de ganhar em Recife e o TRE proibiu manifestações de rua, mantendo a campanha eleitoral apenas na grande imprensa golpista, que busca eleger João Campos, do PSB).

A fraude golpista tem interesses também em 2022, pois assim, com o PT não ganhando nenhuma capital e diluindo seu voto em outras candidaturas de “esquerda”, a imprensa capitalista fará a campanha de que o PT e o Lula estão “ultrapassados” e que a esquerda deveria apoiar uma nova candidatura - como Ciro Gomes, por exemplo.

Em outro artigo, denuncio o caráter negativo de Ciro Gomes, que é um infiltrado, um cavalo de Tróia, na esquerda.

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