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Luis Cosme Pinto

Luis Cosme Pinto é carioca de Vila Isabel e vive em São Paulo. Tem 63 anos de idade e 37 de jornalismo. As crônicas que assina nascem em botecos e esquinas onde perambula em busca de histórias do dia a dia.

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Amado

Meu amigo de infância, eterno sonhador, continua romântico e atrapalhado

Amado (Foto: Luis Cosme Pinto)

mados e famosos, o escritor Jorge Amado e o cantor Amado Batista, até onde sabemos, nunca reclamaram de seus nomes. Já Amado Romualdo Pereira Nascimento, filho de Amoroso e Amanda, detestava as brincadeiras dos colegas com seu nome.

“O Amadinho é cheio de amor para dar”, “Amado, um amor de menino”.

Amado estufou o peito e exigiu dos pais e professores que fosse chamado de Aldo, que afinal fazia parte de Romualdo.

Aos treze anos se revoltou com a provocação: “agora ele é aldolescente”.  “Aldolescente, de jeito nenhum!” bradou o jovem em frente ao espelho.

Os pais resolveram a angústia do filho: trocaram o menino de escola. Quando os novos colegas perguntavam seu nome, ele respondia com um sorriso no rosto: A-ma-do.

Bem amado, primeiro pela colega do curso de inglês, depois por uma amiga da prima, Amado ganhou os primeiros fios de bigode e perdeu o medo da pista de dança. Conheceu Regina Célia no embalo dos Rolling Stones.

Olhos verdes um pouquinho aflitos, pele rosada ferida por espinhas e cravos, Regina tinha bom humor e nenhum medo de ser feliz.

Nas escadas do prédio, na penumbra da garagem, no elevador que não tinha câmera, Amado e Regina se descobriam. Juntos, conheceram o amor e o sexo.

Namoraram, ficaram noivos e casaram. Vieram os filhos. Vieram também as crises. Conversaram, se perdoaram e superaram a primeira. A segunda fingiram que não viram. Na terceira Amado se mudou para um hotel. Demorou por lá e voltou diferente. Regina engoliu em seco, pediu mais uma chance, afinal já eram cinco anos de casamento. Amado disse não. Estava irredutível.

Os dois permaneceram amigos. Talvez, até demais. Amado tinha a chave de casa e entrava sem avisar. Regina detestava, mas não reclamava já que os filhos adoravam as visitas surpresa.

Então, dias depois de perder o emprego, Amado procurou Regina para conversar. Buscava conselhos daquela que ainda era a mulher de sua vida. Os filhos estavam na casa da avó e Amado, como sempre, meteu a chave na porta e abriu.

A luz do abajur permitiu que Amado enxergasse o que não estava preparado para ver: No sofá da sala, Regina estava nua e abraçada a um homem também sem nenhuma peça de roupa.

Amado viu e Regina viu que ele viu. Amado saiu correndo. Em pânico, nem sabia para onde ir.

Encontrou destino seguro dois meses depois: o consultório da doutora Teresa. A psicóloga ajudava Amado com escuta e acolhimento, mas o que começou a mexer com ele estava na sala de espera com as pernas cruzadas.

Era a paciente da outra psicóloga, que dividia o consultório com doutora Teresa.

Uma mulher alta, esguia, sempre elegante; de cabelos longos e óculos escuros, que mudavam a cada semana e combinavam com os sapatos.

Amado passou a chegar mais cedo. Eram minutos que ele podia ficar perto da mulher cada vez mais atraente. Ela se limitava a balançar a cabeça em resposta aos cumprimentos de Amado.

Ele variava entre o formal “bom dia” e um despropositado “tudo bem?” como se conhecesse a mulher. Ela enfiava a cara na revista Marie Claire a esconder as lágrimas que volta e meia por baixo das lentes.

Amado mergulhava em devaneios. Com os trezentos reais de cada consulta os dois poderiam ter almoços fantásticos, fazer um bate e volta no Guarujá, passar a tarde em um motel cinco estrelas em São Paulo. Aquilo sim resolveria as melancolias e frustrações de cada um.

O lado mais racional de Amado sabia que eram sonhos impossíveis, mas ele avançou em sua loucura. Ao fim da sessão, ao perceber que a consulta dela ainda não tinha acabado, desceu com rapidez. Dentro do carro, ficou esperando e viu quando a mulher deixou o prédio. Um fenômeno a desfilar com passos suaves e o movimento bem balançado do corpo. Amado deixou o carro e seguiu a mulher a uma distância segura.

Em uma padaria chique de Pinheiros ela entrou. Estaria ali a chance que ele tanto esperava?

No canto do salão viu que ela não estava só. Um homem e dois meninos dividiam a mesa, também ocupada com sucos de laranja e sanduíches. Todos calados, sérios. Os pães esfriavam, os sucos esquentavam. Era possível sentir a tristeza e a tensão dos quatro.

Amado deu meia volta e foi tomar seu café expresso em outra freguesia.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.